Em 2009, quando o RinP começava a engatinhar nas críticas de discos e da cena musical em geral, uma certa banda começou a ser muito comentada. Com um single arrasador, muitos acreditavam que aquela seria a próxima promessa indie. Era o começo do hype em torno de uma banda que acabou não mostrando nada melhor (ou impactante) que “Death” e “To Lose My Life” (com o inesquecível refrão “Let`s grow old together and die at the same time“). Em uma crítica generosa, o editor-chefe Marcos Xi comentou exatamente as qualidades e os defeitos do debut do White Lies e parece que o aguardado Ritual acaba sendo mais que apenas uma repetição melhorada daquilo que ouvimos em To Lose My Life.
O power-trio eletro-indie-rock britânico sentiu bastante a influência do produtor Alan Moulder. Conhecido por trabalhar com o Depeche Mode, Jesus and Mary Chain e o Nine Inch Nails, Moulder conseguiu selecionar bem os lampejos de originalidade da banda com as diversas referências oitentistas, que funcionam como o cartão de visitas do White Lies. Independente dessas referências soarem excessivas (a faixa “Streetlights” é um plágio, um cover ou apenas uma homenagem?), Moulder conseguiu driblar a falta de singles potentes com um trabalho coeso e que ganha força como um todo. Enquanto To Lose My Life era baseado quase que exclusivamente em “Death” e “To Lose My Life”, Ritual consegue ser mais interessante e com uma chance da banda explorar mais as suas próprias possibilidades, ao invés de apenas buscar o resgate do clima soturno das bandas “darks” dos anos 80.
Apesar de todas as faixas possuírem uma pegada familiar (e soarem iguais), o disco consegue inovar ao tentar calibrar a identidade sonora do White Lies. Não a identidade que estamos acostumados, com a voz depressiva de Harry McVeigh evocando Ian Curtis, mas a essência da banda, o elemento original. A abertura do disco com a excelente “Is Love” é uma amostra do que seria esse som. Temos a impressão de que estamos ouvindo um Simple Minds com a qualidade que o original nunca teve sobrando. As letras (principalmente nos refrões) continuam inspiradas: “She says the only thing i`ve ever found that`s greater than it always sound. Is love”. Na sequência “Strangers” começa com uma introdução que lembra o The Cure e que depois se afasta para o característico baixo distorcido guiando a voz grave de McVeigh. Novamente a letra faz a grande diferença na música, o que não chega a ser um diferencial quando se trata de uma banda que tem o Ian Curtis como uma das principais influências.
O primeiro single do disco deixou o público curioso para conferir o restante do material, mas embora seja uma boa música, “Bigger Than Us” não é o melhor momento de Ritual. O título fica dividido entre “Is Love”, a contagiante “Holy Ghost” (com uma virada na estrofe que foge um pouco dos anos 80 e cai direto no colo do Nine Inch Nails) e “Bad Love” (que também conta com uma bateria parecida com o rock pesado do NIN). O restante do material oferece momentos mais introspectivos (com direito a muitas canções com mais de cinco minutos, o que pode ser um martírio dependendo do seu momento) como na bela “Peace & Quiet”, que tem um baixo sintetizado que foge um pouco da pegada tradicional do baixista Charles Cave.
Se o White Lies consegue provar que não é apenas uma banda tributo ao Joy Division, também deixa a expectativa ligada para o futuro da banda. Apesar de não ser um disco genial e só ser digerido depois de uma terceira audição, Ritual já se inclui no hall dos grandes lançamentos de 2011 e ilumina nossas possibilidades para o trio comandado por Harry McVeigh. Se você não conhecer a banda e tiver uma certa preguiça inicial, não se preocupe. Não é um trabalho fácil de assimilar ou daqueles que você vai gostar logo de cara. Talvez seja válido dar uma nova chance para o som e se surpreender com o som do passado encontrando o futuro. E mesmo sem ter a sensacional dobradinha “To Lose My Life” e “Death”, Ritual é muito melhor que a estréia do White Lies dois anos atrás.
ps: Sim, eu sei que falei demais das duas primeiras músicas de trabalho da banda. Mas elas são muito boas, ora bolas!
Geralmente as bandas nacionais com mais anos de estrada decidem se reinventar e ganhar novos públicos, investindo em projetos acústicos ou ao vivo. O resultado quase sempre é o sucesso garantido e uma visualização maior, que acaba atraindo pessoas que não conheciam o trabalho da banda. Felizmente o Pato Fu não é apenas mais um nome nesse criativo cenário nacional, que embora tenha poucos nomes fortes, consegue se destacar com um pequeno e seleto grupo de artistas.
Depois de oito discos de estúdio, a banda chega com um novo e inusitado trabalho. O album Música de Brinquedo oferece apenas versões de canções de outros artistas, mas não merece ser chamado de “o disco de covers que o Pato Fu lançou”. O produtor, guitarrista e compositor John Ulhoa, junto de sua esposa Fernanda Takai, comprou vários instrumentos de brinquedo de presente para a filha e acabou tendo a ideia de gravar um disco inteiro usando apenas esses instrumentos. E apesar de não ter sido uma tarefa muito fácil, o resultado acabou sendo surpreendente.
O repertório do disco vai de Tim Maia a Titãs, passando inclusive por artistas internacionais como Paul McCartney, Elvis Presley e Temptations. As versões de “Primavera”, “Ovelha Negra” e “Sonífera Ilha” são de encher os olhos (e ouvidos) de qualquer pessoa que aprecie boa música sem medo de maluquices como utilizar brinquedos no lugar de instrumentos e convidar duas crianças de seis anos para gravar boa parte do material vocal. E é justamente a presença de Nina e Matheus, que torna o Musica de Brinquedo tão especial e diferente.
Sem ser exclusivamente voltado para adultos ou crianças, o novo trabalho do Pato Fu conseguiu se tornar interessante para todos os gostos e idades. Se as crianças irão se divertir com canções antigas que nunca ouviram na vida, os adultos vão prestar atenção em cada detalhe sonoro e fazer comparações mentais com as versões originais. A única verdade para os dois públicos, é que Música de Brinquedo é um dos lançamentos mais interessantes de 2010 e mostra um Pato Fu sem medo de ousar.
Para alguns artistas rege a sina de andarem em cima de uma linha reta como se não houvesse fim traçando como único objetivo a repetição de notas, arranjos unitários que refletem cada vez mais o cotidiano musical deles injetando as mesmas substancias em seu corpo com um efeito colateral já diagnosticado e porque não achar que acaba sendo tudo previsível. Não é de todo mal, a questão é que às vezes se faz necessário dentro de um único disco colocar válvulas de escape para que o saturamento seja evitado e que o parecer final não seja tão redundante.
Dentre aquelas gratas surpresas que apareceram nesse ano apontasse o Twin Shadow, nome artístico do americano George Lewis Jr, com direito a aparição honrosa na Rolling Stone como banda da semana em Outubro e na Pitchfork. O dito cujo é maleável e não faz jus a um valor unitário e prefere seguir aonde o vento sopra a seu favor, conscientemente é claro, e onde ele aterrissa tira uma casquinha daqui outra dali e assim foi criando seu debut, Forget, que pode ser designado como uma verdadeira miscelânea musical, porém sem apelar a extremos com George situando-se feito um residente forasteiro em estilos circunvizinhos na sua empreitada brilhante.
O Twin Shadow caracterizasse pela sua versatilidade em lidar com sons de varias estirpes e encaixá-los perfeitamente revelando afinidade ou impondo discrepâncias entre eles no seu disco. Sujeito de bigode avantajado revela desde um ambiente ruidoso vindo de seu lo-fi caseiro, músicas que evocam alguns passos modestos na pista até a ascendência do obscuro post-punk de outrora e seu criado new wave. O cantor e instrumentista manuseia suas máquinas com praticidade e aptidão traçando os elementos criados por fiapos isolados ou enlaçados que são desenrolados por nós facilmente, ou seja, a abstração é quase que instantânea e multi saborosa.
Forget foi produzido por Chris Taylor, do Grizzly Bear, eis aí uma das reais causas de haver incessantes experimentos inseridos no disco que quando agregados realçam valores, distorcem formas ou intercalam com elas. A começar pela tenebrosa ‘Tyrant Destroyed’ cantada com uma voz sussurrada que logo é abafada quando manipulada pelas máquinas para adaptar-se a um ambiente sinteticamente flagelado. Para não transparecer certa indolência no início, em ‘When We’re Dancing’ George disponibiliza um timbre mais descontraído perante uma batida metódica preenchendo-a com loops e consideraveis efeitos que lembram o Grizzly Bear – coincidência – e afins. Sem imaginarmos, ele evoca uma guitarrada do noise, disparando vigor em segundos, como o marco do ponto de partida de uma transição inexistente. Seca e avassaladora, ‘Slow’ é uma menção honrosa a Joy Division e New Order, talvez essa seja inferência mais lógica que devemos fazer ao cantor.
Twin Shadow relaciona épocas com ‘Shooting Holes At The Moon’ em meio camadas experimentais na calada da new wave toques monofônicos de 8-bits fazem a festa que nos induzem a trocar passos na pista sorrateiramente. Esses detalhes vão se somando em cada faixa e quando adicionados aos já existentes dão um sabor a mais. ‘At My Heels’ recheada de quitutes sonoros, teclado e percussão andando de mãos dadas e uma guitarra acentuada nos envolve facilmente.
Forget é uma caixinha de surpresas e nunca se sabe com certeza o que pode sair dela como diferencial. Na nova onda do Twin Shadow em ‘Yellow Ballon’ a guitarra recua pra trás e lá fica esperando ser acionada enquanto uma bateria eletrônica irradia energia e ilumina o ambiente sombrio que a voz aveludada de George cria. Seu espírito saudosista parece predominar e aparece com momentos mais fortes e profundos em ‘Tether Beat’ em contraste com sua gêmea bivitelina ‘Castles In The Snow’ de maior lucidez vocálica.
Em meio a tudo sintetizado um solo de guitarra mais avantajado chama nossa atenção em ‘For Now’ as gratas surpresas que o cantor nos proporciona. Dando a idéia de que cada canção tratasse de um novo episódio da sua carreira, ‘I Can’t Wait’ reconstitue o post-punk sob uma perspectiva mais contemporânea endossada pelo pop disfarçado surgindo em meio ao estado arrebatador que a canção vai tomando, mas novamente em segundos ele arrasa qualquer característica sobressalente, num bom sentido, com efeitos rústicos e barulhentos descarregados no meio da canção. Esses efeitos são uns caprichos à parte. Cada vez mais George ganha crédito ao lançar sublimemente peripécias no trajeto de uma faixa.
No final, as coisas são sempre mais tensas. Onde tudo parece controlado e manipulado em sintetizadores, um solo de guitarra não ruminante beliscando a psicodélia interrompe essa saga com um apetite voraz. Nesse caso, o que era essencial torna-se apenas um experimento inserido no essencial para George Lewis Jr.
Sem ser um sujeito leviano e superficial o Twin Shadow faz Forget funcionar perfeitamente bem explorando, aproximando e revitalizando sons.
nov 24th 10
Postador por Fabio Navarro em Álbuns, Notícias
Semana passada Jack (Operário Padrão) White e a sua sempre cheia de surpresas THIRD MAN RECORDS, anunciaram a remasterização de três discos da dupla WHITE STRIPES. O álbum de 1999, The White Stripes, o de 2000 De Stijl e finalmente o disco de 2001 White Blood Cells. Hoje a gravadora deu mais detalhes sobre como foram feitas as edições.
Tudo começa com a masterização das fitas com os aúdios originais analógicos. Nunca nenhum deles passara por esse processo, garantindo que não exista sinal de digitalização nos discos. Como resultado a TMR promete um som vulcânico e pesado em cada um dos relançamentos. Os vinis foram prensados em formas de 180 gramas (outro processo inédito para os registros), garantindo que a qualidade sonora desse tipo de produto seja maior.
A parte gráfica dos álbuns também foi remodelada. Partindo dos rascunhos originais, o trabalho foi reconstruir tudo à partir da matéria prima seminal, garantindo versões mais acachapantes. A arte dos discos foi produzida da maneira antiga pela empresa Stoughton Printing, na Califórnia. O processo é feito com a impressão de fotos e desenhos em folhas de papel e coladas à mão. O processo garante uma diferença semelhante a encontrada entre livros de capa dura e brochura.
Seguindo a linha de ineditismo desses relançamentos, a THR colocará em cada disco um cupom que dá direito ao comprador fazer o download de todos os arquivos de áudio em mp3. Além disso existirão versões diferentes dos vinis. Uma em preto (como normalmente são os discos) e outra em vermelho e branco.
No dia 30 de novembro as cópias do disco The White Stripes estarão à venda nas lojas da TMR, dia 07 de dezembro chega a versão de De Stijl e em 14 do mesmo mês, White Blood Cells.
E mesmo um pouco confusa, a distribuição será diferenciada. Cópias para pedidos e outras distribuídas em diferentes localidades, como na Holanda e em Memphis. O que promete fazer dessas versões, as definitivas de cada álbum. A gravadora ainda promete mais surpresas em relação ao assunto.
Para o Girls, depois de uma consagração graças a um excelente trabalho produzido com uma aceitação em larga escala, continuar trançando o mesmo caminho uma vez já estabelecido pode continuar sendo vantajoso, claro que, para não especular certa monotonia faz-se necessário um mínimo de mudança possível para não fugir muito da raia vencedora. Uma variação sutil na melodia empobrecida a tornando um pouco rica para transparecer um pouco mais delicado, beliscar novas substâncias ou permanecer por mais tempo em baladinhas, o que quer que seja, o próprio Christopher Owens não taxou isso como mudança em si, mas sim o “próximo passo da banda”.
Fisicamente falando o próximo passo que o Girls dá é a criação do EP Broken Dreams Club com lançamento para o dia 22 de Novembro. O EP tratasse de um retrato falado otimizado do debut, Album, mais especificamente da primeira metade do disco com músicas como ‘Lust For Life’, ‘Laura’, ‘Ghost Mouth’ e a carinhosa ‘Hellhole Ratrace’ onde o teor pop envolvente estava mais polarizado. É como se os erros que escaparam anteriormente, se é que eles existiram, fossem dissolvidos para um produto atual mais refinado não se tratando de uma mudança totalitária apontando grandes discrepâncias entre um trabalho e outro, mas digamos que seja um complemento de relevância semelhante com minúcias, detalhes, que ganharam uma limpeza e hoje o objeto reluz mais intensamente.
O Girls havia desconstruído o pop na dita comparação com os Beach Boys colocando-o sob uma superfície com resquícios de sujeira proveniente do caseiro lo-fi, mas que ainda assim, por muito soava agradável ouví-los sem grandes prejuízos. Marmanjos brincando de fazer pop de uma forma libertina, mas que denotasse uma plenitude, hora de forma mais áspera e de letras vulgaris como ‘Big Bad Mean Mother Fucker’ , hora de forma mais suave de melodias aconchegantes como a de ‘Hellhole Ratrace’.
Preservar os adjetivos ligados ao pop sem submetê-los a bruscos intrometimentos de guitarras grosseiras a fim de estilhaçar qualquer embalo que suas músicas nos levam, é a linha que o grupo californiano ressaltou para o EP. Acordar de manhã cedo, abrir a janela de frente ao mar sentir a brisa bater em nossos rostos enquanto a levada puramente praiana de ‘Thee Oh So Protective One’ entrar em nossos ouvidos e lá fica nos coagindo a soltar alguns passos marotos na areia impulsionados por uma linha de metais pomposa que enriquecem sua linha caseira.
Sabendo resolver a fórmula pop sem denotar ares de melosidade o single sucessor dos demais é a promissora e carismática ‘Heartbreaker’ atingindo o ápice pop do Girls com xilofone entrando em ação e nesse momento ouvindo Owens modular sua voz para forjar um teor quase meloso seguido de um solinho marejado. Com ‘Broken Dream Club’ o Girls encontra-se agora no alt-country caracterizado por solos de guitarra de curto prazo e psicodélicas que reverberam lá por trás e criam um clima melancólico de desastre contemplado pela cantarolar trôpego de Owens. Com o ânimo renovado ‘Alright’ traz as espirituosas guitarras ao melhor estilo Mark Knopfler do Dire Straits feito uma inspiração repentina e passageira.
A veia pop do Girls vai se delongando ao longo do EP embora passe por algumas curvas o que não interrompe o percurso da banda. Bastar pegar o “q” emotivo que a cadenciada ‘Substance’ carrega onde seus sentimentos profundos podem ser expressos e quando finalmente aparece uma garota pra cantar, lá no final, e fazer jus ao nome da banda. Em contrapartida os 7min de ‘Carolina’ traça três rumos: a psicodélia de múltiplas cores que acaba ficando opaca por ruídos prevalecentes num momento seco da faixa que aos poucos vai se tornando mais maleável.
De fato o hype para o Girls foi válido e perdura com esse EP convincente e provavelmente perdurará até o próximo passo da banda!