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Se você curte a cena independente e acompanha o RockinPress muito provavelmente já ouviu alguma coisa do Victor Meira. Fora da complexidade de sua banda principal, a Bratislava, você já deve ter ouvido o eletrônico denso do Godasadog, o pop-rock do Coração de Pano, ou esbarrado com ele fazendo participação no disco da Alambradas ou no show do Beto Mejia.

Essa multi função do Victor não é só uma necessidade de quem quer viver de música. O jovem realmente se desdobra em gostos, estilos e instrumentos diferentes, com a segurança de quem pesquisa e tem realmente o conhecimento da causa. Isso fica bem claro em suas intenções com o início do seu projeto solo.

“Ciço”, faixa que inaugura o novo projeto do músico, traz um pouco de cada projeto seu, passeando por batidas eletrônicas, um conto literário e uma melodia fácil. A canção conta a história de um certo amigo que morou um tempo com o músico e, loucamente, abandonou uma jovem que havia ido de outra cidade vê-lo, fugindo dela e voltando para casa apenas após ela ter ido embora.

Victor Meira – Ciço

“É uma história sobre complicações amorosas, sobre química que não bate, sobre fugir às responsabilidades como um canalha, sobre responsabilidades tão pesadas que soterram a nossa capacidade de agir e fazer a jogada errada (ou precipitada) no jogo do amor”, comenta Victor.

A canção calma e diferente do costume ao que ouvimos do músico, dá ar a uma carreira solo descompromissada com padrões, segundo explica o próprio músico: “Posso soltar uma música leve agora, depois um piano e voz que fala sobre morte, e depois de novo um romance com final feliz. Essa liberdade criativa, nesse momento tão germinal do projeto me interessa”, antes de completar com “Isso partiu de uma análise dos meus próprios hábitos musicais, observando o que eu consumo no dia-a-dia”.

Levamos um papo direto com o Victor Meira. Três perguntinhas sobre o projeto. Você pode ainda seguir o Facebook dele ou o Soundcloud. Abaixo, também, um vídeo de apresentação de sua carreira solo.

Depois de se envolver com vários projetos, participações e shows especiais, porque agora começar solo?

Acho que veio da vontade de ter um espaço 100% autônomo, onde sou responsável pela concepção criativa do início até o fim da peça, juntamente com um lance fortemente ligado ao ritmo do meu processo criativo. A banda é uma entidade às vezes bastante burocrática, ainda mais no caso do meu projeto principal, a Bratislava, onde os quatro da banda trabalham também com outras coisas não-relacionadas a música. E sincronizar as vontades, ansiedades e tesões nem sempre é uma tarefa fácil. Eu tenho um ritmo criativo muito prolífico, e me vejo “segurando” dezenas de letras, melodias, ideias em processos embrionários, para respeitar o ritmo da banda. Por um tempo, o Godasadog foi pra mim esse terreno alternativo onde eu podia dar vazão e vida às ideias numa frequência e volume agradáveis. Mas desde quando o projeto começou a funcionar à distância, com a ida definitiva do Matschulat para Londres em 2014, o terreno ganhou seu próprio quinhão de burocracias e problemáticas, naturalmente. Então acho que eu precisava novamente de um novo projeto onde eu poderia criar com mais liberdade, dentro do meu ritmo natural.

Porque você, um cara tão sério, político e estudioso decidiu fazer algo mais fofo e brincalhão?

“Ciço” é uma história verdadeira, que aconteceu mesmo. E o caráter dela é esse: é uma historinha cabeluda, protagonizada por gente fofa. Então minha tarefa nela foi musicalmente dar o tom que a história pedia. Ciço surgiu antes da minha ideia de criar uma plataforma como artista solo. Então nunca foi um lance do tipo “acho que vou atacar pelo fofo agora”. Continuo fazendo música como sempre faço: dando forma ao que o conteúdo, ou a ideia, pede. Além disso, tenho um compromisso, por puro tesão, com o experimentalismo. E experimentar não é fazer alt-drone-noise, como alguns pensam. Experimentar é arriscar abordagens diferentes, testar caminhos.

Ultimamente tenho valorizado a virtude da leveza. Eu gosto do dito em inglês “be light”, pelo duplo sentido de luz/leveza. Não sei se são os 30 chegando, ou se é o casamento amolecendo esse corazón. Mas tenho pensado sobre isso, valorizado isso e, sempre que posso, posto em prática o “ser leve” com as pessoas. Especialmente com quem você vive diariamente, em casa, no trabalho, nas correrias todas.

E quais são os principais focos do projeto e expectativas e objetivos.

Victor Meira é meu projeto mais experimental. Quero que seja um projeto imprevisível, pelo menos por um longo início. Ainda não sei se vou montar banda pra apresentá-lo, ainda não sei se vou me apresentar sozinho, está tudo aberto. Pode ser que o próximo lançamento seja um EP só piano e voz. Pode ser que eu lance um rap. Pode ser que me junte a outros artistas pra fazer trabalhos conjuntos. Abri o projeto justamente pra botar o laboratório pra funcionar. Enquanto a Bratislava e o Godasadog constroem, afinam e reforçam uma identidade que está se formando, Victor Meira ainda não tem nem faíscas dessas ânsias.

 

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Músico multi-instrumentista, DJ, viajante, criador e editor-chefe do site RockinPress, colunista e curador convidado do Showlivre, ex-colunista do portal de vendas online Submarino e faz/fez matérias especiais para vários grandes meios culturais brasileiros, incluindo NME, SWU, Noize, Scream & Yell, youPIX e os maiores blogs musicais do país. É especializado em profissionalização de artistas independentes e divulgação de material através da agência Cultiva, sendo inclusive debatedor em mesas técnicas sobre o assunto na Universidade Federal Fluminense (RJ) e no Festival Transborda (MG).

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