Alguns anos atrás enquanto assistia ao Rock in Rio 3, uma certa banda me chamou a atenção. Não apenas pelas boas músicas (na época “The Lost Art of Keeping a Secret” era uma das faixas mais conhecidas dos norte-americanos em questão), mas pela presença de um baixista muito maluco e pelado. Anos depois reencontrei a banda num desses vídeos da MTV e fiquei surpreso com a presença de Dave Grohl na bateria. Curioso pela sonoridade e pelo baixista (que estava vestido dessa vez), resolvi pesquisar sobre aquela que descobri ser uma das melhores e mais criativas bandas dos anos 2000.
Mas a alegria durou pouco tempo: logo foi anunciada a separação do baixista nudista Nick Oliveri e o Queens of the Stone Age de Josh Homme, que apesar de ter lançado excelentes faixas nos discos seguintes, não chegou a fazer um cd melhor que Songs for the Deaf. Ainda, pelo menos. O baixista juntou suas coisas (e roupas, pelo amor de Deus!) e recentemente lançou seu segundo disco solo: Death Acoustic. Repleto de covers (das 10 músicas apenas 4 são de autoria do musico) de bandas como Raw Power, GG Allin, The Misfits (“Hybrid Moments” ganhou uma versão bem legal) e claro, Queens of the Stone Age.
O trabalho reune ainda algumas faixas de suas bandas atuais como o The Dwarves e Mondo Generator. O que podemos dizer de positivo do album é que toda a agressividade (leia-se gritaria desesperada) que fez o nome de Oliveri está presente. Não deixa de ser engraçado/divertido ouvir um disco acústico com o vocalista no maior clima de punk rock.
Death Acoustic é um acústico tão peculiar quanto Nick Oliveri. Não é um disco ruim, certamente pode ser a trilha sonora do momento para os fãs do Queens of the Stone Age, mas outros públicos podem acabar estranhando a tentativa de fazer barulho com um violão. Não por acaso, o melhor momento do cd está na versão de “I’m Gonna Leave You”. O album se encerra com “Outlaw Scumfuc”, uma música que pode ser descrita como o encontro de Matanza + “Cowboy Fora da Lei” (Raul Seixas) e um Nick Oliveri doidão com seu violão. Mas o que a gente queria ver mesmo é o cara tocando no Queens of the Stone Age de novo… Lá sim é o lugar que Oliveri não faz feio.
Depois de um primeiro dia relativamente vazio, o público resolveu comparecer numa sexta-feira de calor em Belo Horizonte. Pelas bandas podia-se ter uma idéia do quanto aquele lugar iria ferver. E ferveu.
Garotas Suecas
Dead Lover’s Twisted Heart abriu a festa no Laboratório Eletronika, um palco lateral que não deixou a desejar. O local – Centro Cultural 104 -, com sua arquitetura rústica e bastante acolhedora, só pecou na falta de ventilação; o inferno era ali. O primeiro show da noite convidou os presentes a se aproximarem e dançarem ao seu som de folk indie-rock. A baterista Pati chamou a atenção nos vocais, e os convidados deram o toque final ao ótimo show. Faltou foi jeito de manter a atenção focada no show, já que o público maravilhoso acabou distraindo alguns espectadores. Depois foi a vez da Garotas Suecas e seu rock com pitadas de experimentalismo “a la” Mutantes hipnotizar a platéia num transe pseudo-psicodélico. Destaque para as guitarras e principalmente para a tecladista, roubando a cena mesmo.
A noite tinha tudo para ser delas. E quem pelo menos não bateu o pé ao som de Stop Play Moon que atire a primeira pedra. Já no Palco Eletronika – que possuía um telão que fazia toda a diferença -, o trio composto pela linda Geanine Marques, Paulo Bega e Ricardo Athayde, sacudiu o Centro 104 com muita sensualidade em uma música marcada por sintetizadores, guitarras distorcidas e batidas. Destaque, novamente, para a mulher da banda, que, com sua voz delicada, fez do som “cru” da banda uma experiência única.
Copacabana Club
O show mais esperado da noite para a maioria ficou por conta do grupo curitibano Copacabana Club. Mas como descrevê-los? Uma melodia marcante + sintetizadores + batidas ritmadas + o carisma da vocalista Camila Cornelsen, podem resumir. Vivenciar o show, no entanto, é complicado de descrever. Injustiçados no VMB 2009 – eu particularmente apostava na banda -, o Copacabana Club lançou “Just Do It” e esperou o resultado. Não demorou muito para a música grudar e ser o chamariz de fãs. Só ao vivo é que se consegue compreender de verdade esse resultado. Por ser uma banda bem recente, poucas pessoas conheciam as músicas, mas isso não foi motivo para deixar o público parado. Quando, então, a vocalista Camila deu a dica da próxima canção, a banda provavelmente pôde compreender o seu verdadeiro poder naquele lugar – e esse deve ser um ponto alto na carreira de um músico. Delírio. Euforia.
A noite até poderia acabar ali. Cansados e felizes após a incrível atuação do Copacabana Club, o público foi aos poucos esvaziando a casa, mas os persistentes puderam conferir um som peculiar. Minitel Rose é um trio francês que, de acordo com o myspace da banda, é composto por: Raphaël D’Hervez (é o que pode voar), Romain Lemé (é o que atira com armas a laser) e Quentin Gauvin (é o que cuida da parte musical). E é mais ou menos isso mesmo. Três caras, três sintetizadores, e um som que vai de electro, house e dance, a indie rock. Pra quem ficou, valeu a pena terminar a noite assim. Mas, de qualquer maneira, o som do Copacabana Club continuou firme e forte nas cabeças balançando e nos pezinhos batendo.
Às vezes fico me perguntando o que leva uma pessoa a não gostar/valorizar a música, seja ela independente ou não. Tento ignorar também o tipo de música que estamos falando, mas isso é impossível. Vira uma coisa muito pessoal e me incomoda ver gente tão inteligente (e bonita) com gostos tão abaixo da expectativa. Quando será que um gênero musical ultrapassa a barreira de “momento de distração” para uma coisa mais “intelectual”? Quando foi que eventos como o Eletronika, que acontece desde 1999 em Belo Horizonte, se tornou reduto exclusivo dos moderninhos? Onde estão as outras pessoas? É triste ver que tão poucos (e sempre os mesmos) se importam com tecnologia (tá, essa é mais nerd mesmo), música e tempo para refletirem sobre o futuro cultural.
O Eletronika nadou contra a maré de mesmice e trouxe um evento moderno em um local muito interessante (um galpão localizado próximo da praça da Estação no centro da capital mineira). Inspirados no festival francês Les Transmusicales de Rennes, a programação conta com muitos shows, debates com personalidades como o produtor Rafael Ramos e André Midani, cinema e oficinas. E o melhor, que por sinal tem se tornado habitual em praticamente todos os eventos que acontecem no mundo, com atrações simultâneas em outras casas noturnas da cidade, como A Obra e o Deputamadre. Com todas essas qualidades, fica realmente dificil entender o que se passa na cabeça da mineirada, que cisma em ignorar os bons eventos culturais da cidade.
Black Drawing Chalks
Como de costume, fui para o show do Black Drawing Chalks conhecendo praticamente nada. Sei que a banda concorreu em três categorias no último VMB, uma delas com o bom vídeoclipe de “My Favorite Way” e outra na categoria de Rock Alternativo. Não levaram nenhum prêmio para casa, mas as indicações não foram mero acaso. A banda de Goiania é (realmente) uma das coisas mais legais que apareceram em 2009 e ao vivo, bem, tempos que não via tanta energia no palco de uma banda que faz um rock n’roll cru e sem firulas. As influências vão de Queens of the Stone Age até (as coisas boas do) Jet, com um pouquinho de Hellacopters e Kings of Leon. Como disse, tenho esse hábito de conferir shows sem conhecer muito a banda e nunca me decepcionei: ter o primeiro contato com uma banda durante um show é bem diferente de ouvir as músicas na internet. Acabamos entrando na onda sonora e a chance de gostar (muito) é alta. Foi o caso da noite passada.
O Black Drawing Chalks é uma porrada na orelha. No começo do show não era possível ouvir o baixo de Dênis Pereira e som estava bem embolado, mas logo depois que o técnico de som resolveu o problema e os goianos mostraram o motivo de serem a banda da vez no mp3 player dos seguidores do underground. Apresentaram as músicas de seu segundo cd Life is Big Holiday For Us e em uma performance animal, os musicos literalmente bateram nos instrumentos. Tudo em nome do bom e velho rock n’roll que esses caras fazem muito bem. Uma banda imperdível.
Virna Lisi
Porém a grande carta da noite não era a apresentação agressiva do Black Drawing Chalks. Já na metade final do show dos goianos, um público diferente começou a dominar a pista. Muita gente que já passou dos trinta, quarenta e outros de idade bem mais avançada. Todos esperavam ansiosos pelo começo da festa que marcava o retorno aos palcos de uma das bandas mais lendárias do cenário mineiro. A mística da banda é tão forte que entre os diversos músicos conhecidos (e desconhecidos), estavam integrantes do Tianastácia e do Jota Quest. Isso sem deixar de falar nos inúmeros curiosos que nunca haviam ouvido nada do som do grupo e que pretendiam descobrir o motivo daquela expectativa toda. E foi justamente nesse clima de ansiedade e empolgação que o Virna Lisi subiu aos palcos do Eletronika.
A banda havia se separado em 1997 e para esse show especial, apenas o guitarrista Marden Veloso não retornou. Sua vaga foi ocupada por Henrique Matheus, que também é titular na banda Transmissor (vale dizer que o Xi está apaixonado pelo som dos caras). Ronaldo Gino (guitarra), César Maurício (voz), Marcelo de Paula (baixo) e Luiz Lopes (bateria) continuam firmes e fortes no meio musical e mostraram-se em forma. Para alguns fãs antigos, a banda conseguiu fazer um show bem mais pesado que os dos anos 90. E aqueles que conferiam a banda ao vivo pela primeira vez não se decepcionaram também. Seria dificil conseguir se decepcionar com o show do Virna Lisi, que tem uma pegada que lembra o resultado de uma mistura química entre Titãs e Nação Zumbi com tempero mineiro.
Encerrando a noite de celebração pelo (desejado) retorno do Virna Lisi aos palcos, a banda fez o bis só para deixar aquele gostinho de quero mais. Quem deixou de comparecer nessa primeira noite do Eletronika perdeu uma lição importante do que é fazer música. Hoje o evento continua com shows de Dead Lover’s Twisted Heart Band, Garotas Suecas, Copacabana Club e Minitel Rose (FR). E novamente, irei perder a minha virgindade sonora com a maioria desses grupos, exceto a mineirada do Dead Lovers que já apareceu aqui no Rock in Press antes. Ainda hoje a resenha dessas bandas aparecem na nossa página.
Praticamente uma semana depois do fatídico dia 30 de outubro, eis que o Rock in Press apresenta uma breve descrição do que aconteceu no último dia do festival 53HC. As expectativas do público eram altas, afinal era o dia do show da banda nacional mais querida dos últimos tempos: os brasilienses do Móveis Coloniais de Acaju trazendo o segundo show da nova turnê em Belo Horizonte. Sem deixar de mencionar outras atrações como os britânicos do Long Tall Texans e os cariocas do Moptop.
Dead Lover’s Twisted Heart
A noite começou com a mineirada do Monograma, que conforme disseram na entrevista exclusiva para o Rock in Press, estavam ansiosos e com grande expectativas para a apresentação. Quem estava lá teve a certeza de que os meninos não fizeram feio e que esta é uma das bandas mais promissoras da cidade. Logo depois o Dead Lovers subiu no palco e manteram a regularidade, apesar de um show mais morno que no festival Outro Rock. A banda abriu o show com a excelente No More Dramas e conseguiu fazer o público dançar.
Aparentemente, o Long Tall Texans estava muito animado com o show. Prova disso foi o sorriso do baixista e vocalista, que durou praticamente o show inteiro. E olha que o cara estava dando muita porrada no seu baixo acústico. Se houve uma banda que demonstrou alegria, não resta dúvidas que foram os caras do Long Tall Texans. No fim do show sobrou espaço até mesmo para uma cover insana de “Should i Stay or Should i go?” dos conterrâneos do The Clash. Não precisa dizer que conquistaram o público, né?
Long Tall Texans
Alex Valenzi e Hideaway Cats manteve o espirito rockabilly aceso e animou demais o público, que se divertia carregando amigos e brincando de “torre humana”. Não foi surpresa reparar que após o show da banda metade brasileira/metade norteamericana, grande parte do público debandou e deixou o campo aberto para os fãs do indie rock influenciado por Strokes, Libertines e Franz Ferdinand dos cariocas do Moptop. Foi um bom show e mostrou que a banda conseguiu provar ter personalidade e fugir da sombra e comparações com os nova-yorkinos do Strokes. Pena que o público não cooperou tanto com a apresentação.
O Móveis fechou a noite com chave de ouro. Depois de lançar um disco tecnicamente bem superior ao debut, os brasilienses retornaram para a capital mineira trazendo o show da turnê nova, que é quase que inteiramente dedicado ao Complete. Não é que as músicas sejam ruins (digo e repito que prefiro mil vezes o segundo disco), mas a fórmula da banda não está mais enfeitiçando os fãs da forma que acontecia nos shows passados. Mas se eu não me egano, eu posso estar enganado. O que importa é que eles ainda tem um dos melhores shows do rock nacional atualmente.
Se o disco com o cachorro na capa não é o melhor do Weezer, pelo menos consegue ser superior aos dois albuns anteriores. O vocalista, guitarrista e compositor Rivers Cuomo aparenta estar de bem com a vida e usa várias sacadas engraçadas como a do single “(If You’re Wondering If I Want you To) I Want You To” que tem os seguintes versos: “The rest of the summer was the best we’ve ever had/We watched titanic and it didn’t make us sad“. O vídeo clipe saiu recentemente e foi dirigido por Marc Webb, que no dia 6 de novembro aparece com (500) Dias com Ela nos cinemas do país.
O vídeo, como não podia deixar de ser, mostra um Weezer irreverente e tem direito até a histórinha romântica (que claro, não acaba bem). O humor é exatamente como nos velhos tempos e os fãs agradecem! Raditude é o sétimo cd completo dos californianos do Weezer. São apenas 33 minutos divididos entre as dez canções. A única faixa que consegue bater de frente com “(If You’re Wondering If I Want you To) I Want You To” é a divertida “I’m Your Daddy”, que pode tocar incansavelmente no seu player sem que você perceba que está ouvindo a mesma música há mais de três horas. Digna de figurar entre a lista de melhores canções da banda.
Se no album Weezer (2008) eles pecaram pela irregularidade, o mesmo não acontece no novo trabalho. Cuomo e companhia acertaram a mão e mesmo com a ousadia de misturar um pouco de tudo no disco (“Can’t Stop Partying” é um hip-hop com cara de Timbaland; “Love is the Answer” começa com uma citara hipnótica e descamba para ser a trilha sonora que Danny Boyle não ouviu antes de lançar o vencedor do Oscar deste ano, Slumdog Milionaire) não se perderam.
Provavelmente o Weezer nunca irá superar o debut Weezer de 1994. Eles bem que tentaram recuperar a boa forma lançando outros dois albuns com o mesmo nome (ok, o Green Album de 2001 é bom), mas não deu muito certo. Se você for um fã antigo talvez até chegue a gostar de faixas como “Tripping Down on a Freeway” e “Put me Back Together”, além de “Want You To” e “I’m Your Daddy”. Os novos fãs (ou aqueles que conseguem gostar até mesmo do Malatroit) irão cantar “The Girl Got Hot” e, quem sabe, o album inteiro. Raditude é sincero, mostra o Weezer se contentando com o que é hoje e em boa forma.