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SILVA
Júpiter

slap/Som Livre
20/11/2015
silva.tv

Nota

Não é difícil encontrar artistas que citam o incomodo e a inquietude de não se repetir, de não entrar em uma fórmula ou achar seu ponto de conforto, seu lugar comum, e ali ficar. Atitude louvável, onde às vezes presenciamos um trabalho transgressor e inspirado, mas que, infelizmente, não é o caso do alvo desta resenha.

Podemos e devemos bater palmas para a atitude do SILVA em seu novo disco, Júpiter. O capixaba resolveu enxugar ao máximo seus sintetizadores, colocar de lado seus instrumentos de corda acústicos e apostar na simplicidade Chill Out e no R&B. O sinth pop, diversas camadas e os convidados especiais foram postos de lado. Agora temos uma batidinha simples, um riff de guitarra ou climagem no sintetizador e pronto. Estamos diante de um novo Lúcio Souza.

SILVA parece buscar aparecer mais como cantor, como uma pessoa simples e mais aberta, facilitando e simplificando ainda mais os significados das letras, mudando drasticamente seu approach nas redes sociais nos últimos meses e fazendo um clipe cheio de closes e danças diferentes para um jovem sempre visto como contido. O amor é o tema direto, indo e voltando em nuances de redescoberta, sem esquecer seu mar de referencias.

O disco é construído claramente em meio a um redescobrimento pessoal, criando uma espécie de liberdade interna e uma necessidade de renovação. Há muita busca em mudar o tom das frases para algo mais denso, um foco em sutilmente (e inutilmente) parecer mais sexual, além de traços de protesto. Como se SILVA quisesse dizer que cresceu, é dono de si e agora fará o que quiser.

Só na primeira música, a faixa “Júpiter”, fica clara a influência afinada no single solto “A Noite”, lançado ao lado de Don L e Lulu Santos. A faixa título do disco fala exatamente da mesma temática, com o mesmo argumento e a mesma resolução que “Astronauta”, de Lulu ao lado de Gabriel O Pensador: Uma crítica política e social onde a solução é sair do planeta. A diferença está apenas no destino. A faixa de 99 diz para ir para a Lua e a do SILVA tem como destino o maior planeta do nosso sistema solar.

Mas impressionante mesmo é a apropriação do formato, camada, climagem e detalhes que “Se Ela Voltar” tira de “Teardrop”, do Massive Attack. Outras referencias claras estão em beats inspirados em Kayne West, Drake, The Weeknd e Frank Ocean. Silva está falando mais com o que acontece na música lá fora e tenta trazer isso ao Brasil, em português, parecendo não ser mais o artista que conhecemos, mas sim o que quer soar como seus ídolos.

O primeiro clipe e single, “Eu Sempre Quis”, foi um grande aviso para essa derrocada. A voz sussurrada, a vibração quase atonal da parte do ‘lá a gente inventa’, o aumento do volume do cantor e a diminuilção das sobreposições de vozes e do reverb, alinhada a simplicidade em que toda a faixa se envolve, foram o grande prelúdio dessa mudança sonora. Tudo soa solto, frágil e com um clima pueril, um desabafo feito em maioria na primeira pessoa em suas letras. Não há o papo de ‘pronto para falar de sexo’ e a manutenção do clima ensolarado mostrado em seu último disco Vista Pro Mar, coisas que Lúcio tinha comentado em uma entrevista a revista Vice publicada apenas 45 dias antes do lançamento de Júpiter.

“Notícia”, outra crítica, e “Marina”, regravação de Dorival Caymmi, são os pontos altos do disco, sendo a última dona de uma batida experimental que faz contraponto com a simplicidade da gravação, talvez um ponto novo no caminho do músico. “Sou Desse Jeito”, talvez a mais confessa e reveladora faixa do cantor, é o mais próximo dos trabalhos antigos do músico neste álbum.

A capa estranha, a pose ‘natural fake’ na frente de um planeta e a gravação por entre hotéis, aeroportos e em meio a turnê são algumas das semelhanças deste disco com The Fall, do Gorillaz: feito com boas intenções, mas totalmente inexpressivo dentro de uma bela discografia construída sobre sinths e várias camadas.

Júpiter é um disco que carece de amadurecimento de ideias e ideais, que soa fraco dentro de sua fachada, mas ao mesmo tempo pode ser um ponto de partida para um recomeço. Está mais para um disco de redescoberta interna onde, ao contrário do que a faixa tema prega, propõe uma reentrada em sua própria atmosfera. Vamos esperar atingir o chão, se reerguer e ouvir o que ele aprendeu nessa voltinha pelo seu próprio universo.

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Músico multi-instrumentista, DJ, viajante, criador e editor-chefe do site RockinPress, colunista e curador convidado do Showlivre, ex-colunista do portal de vendas online Submarino e faz/fez matérias especiais para vários grandes meios culturais brasileiros, incluindo NME, SWU, Noize, Scream & Yell, youPIX e os maiores blogs musicais do país. É especializado em profissionalização de artistas independentes e divulgação de material através da agência Cultiva, sendo inclusive debatedor em mesas técnicas sobre o assunto na Universidade Federal Fluminense (RJ) e no Festival Transborda (MG).

6 COMENTÁRIOS

  1. Eu gostei dos discos anteriores do Silva, bem como daquelas músicas que não estão em nenhum disco.
    Mas já achei um pouco fora de orbita a música com o Lulu Santos. Era indicio de que vinha algo diferente pelo caminho…
    E veio…
    Já ouvi 3x esse novo disco e confesso que só gostei de uma música e meia.
    E a que gostei, nem gostei tanto assim. Ainda acho ela pior do que a que menos gosto dos discos anteriores.
    Os discos anteriores eram o diferencial dele. Era a música com a assinatura dele.
    Agora não vi mais isso. Ficou tudo muito comum. E particularmente, um comum que não gostei.
    Desejo sucesso e espero que outras pessoas vejam o que eu não vi.
    Mas continuarei no Claridão e Vista pro mar.

  2. Adorei Júpiter. É completamente diferente dos outros 2, mas nem por isso de menor qualidade musical. Silva sempre surpreende por ter atenção aos mínimos detalhes musicais e fazer arranjos diferenciados que fazem com que suas composições tenham sempre um alto grau artístico. Esse é um disco para ser apreciado aos poucos e a cada ouvida, se apaixonar ainda mais por seu trabalho.

  3. Não há como não amar cada música lançada por Silva. É sempre algo diferenciado musicalmente, a anos luz da mesmice e massificação da produção musical da atual MPB. Gostei mesmo desse último trabalho, cada vez que ouço gosto mais.

  4. Para mim, este foi o melhor trabalho do Silva. O cantor, ao descrever a inspiração do disco, citou que uma de suas referências foi a sinfonia Jupiter de Mozart. Assim como o compositor clássico que se tornou imortal ao compor obras primas utilizando poucas notas e linhas melódicas em pouca densidade de escrita, Silva nos presenteou uma obra com poucos elementos musicais, mas extremamente bem construídos. Felizmente vivemos numa democracia, onde opiniões divergentes podem conviver. Assim como Mozart, que foi desprezado na sua época, muitas vezes cometemos injustiça, enquanto a mídia só divulga o lixo cultural produzido em massa.

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