Compartilhar

Ara Macao é o projeto paralelo de Luis Calil, líder da já mitológica banda goiana Cambriana. A ideia nasce meio que como uma válvula de escape: enquanto seu projeto principal não caminha com seu segundo disco de inéditas, o músico vai brincando de fazer música pop e experimentando teorias.

O único problema é que a brincadeira está cada vez mais séria e interessante. A cada novo vídeo/single que é disponibilizado descompromissadamente, fica cada vez mais evidente a qualidade das músicas e se torna urgente um disco – que só vai sair se o sucesso chegar.

A última a ser disponibilizada foi “Ten Years”. A relação entre o vídeo e a música é duvidosa. A canção, bem pop focada na batida eletrônica energética ganha um vídeo voz e violão em meio ao amanhecer num pico em algum lugar distante, com direito a conversa non-sense no meio. Essa ironia fina das músicas e vídeo são um dos detalhes que tornam o projeto interessante, já que no fim tudo parece magicamente se encaixar como mais uma brincadeira que dá certo.

A primeira disponibilizada, “Shoulders of Giants”, é a música mais pedida de uma popular rádio de Goiânia e ultrapassa as 20 mil execuções no Youtube. Ao mesmo tempo que tudo parece caminhar muito rápido, nada soa real o suficiente para o que Luis espera do Ara Macao: desvendar os segredos da música pop e criar, com as próprias mãos, ‘a batida perfeita’.

Entrevista – Luis Calil [Cambriana e Ara Macao)

Cara, qual é a do Ara Macao?
Eu to fazendo um experimento. Eu quero ver se eu consigo fazer uma música tão pop e grudenta (sem perder o bom gosto) que ela estoure por si só. Se der certo, aí eu lanço um EP ou um disco. Por enquanto só singles. A “Shoulders of Giants” tá em primeiro lugar na maior rádio daqui [de Goiânia], a Interativa, já tem mais de um mês.

Esses dias entrevistei o Dj Cremoso e ele me falou que tudo era um experimento pop de marketing e consumo. É interessante ver esse pensamento de estudo antes do simples ‘prazer’.
É. Eu não sei exatamente o que vai ser a fórmula. Certamente não pode ser um pop padrão/banal, mas eu acredito no poder da melodia grudenta, do boca a boca, etc. Quero ver até onde vai.

Em entrevistas e estudos com hitmakers, uma das sacadas são letras que não sejam nem tão diretas e nem tão abstratas, com versos que copiam até o tamanho das silabas de cada palavra no verso. Você já leu sobre essas coisas?
Já um pouco. Tem um livro que eu to querendo comprar, chama The Hit Machine. Saiu faz pouco tempo, parece. Mas essas coisas você nota muito bem, tanto fazendo música quanto ouvindo o que tá rolando. Esse negócio de cada sílaba contar eu já tinha aprendido desde a Cambriana e eu também já notei esse meio termo das letras, de ser algo específico e “descolado”, mas não específico demais ao ponto de deixar a galera pra trás.

É uma fixação que não vem só do Ara Macao, mas já do Cambriana, então. Isso é, basicamente, querer fazer sucesso?
Eu não to pensando necessariamente em ganhar dinheiro, eu só queria ver se eu dava conta de fazer algo com um alcance maior. O disco novo da Cambriana tá ficando muito nerd e “difícil”, eu to soltando as ideias pop pro Ara Macao.

Mas para quem já meteu uma música na novela [“Safe Rock”, do Cambriana, foi trilha de Além do Horizonte, novela das 19hs da Globo] e uma canção em primeiro lugar na rádio não é o objetivo concluído?
Canção na novela foi meio que na cagada. Primeiro lugar na rádio é legal, mas ia ser legal se fosse em várias rádios. Vai ver é uma coisa de orgulho goiano! Algumas bandas aqui acabam entrando lá porque é por pedidos e as bandas fazem campanha. Eu nunca fiz campanha. Eu fui lá na rádio dar uma entrevista esse sábado. Acho que até eles tão meio baqueados com esse interesse por essa música.

Mas você chegou a ver com outras rádios ou meios? Porque tem que ser espontâneo? Não dá pra trabalhar uma imprensa, um movimento ou shows?
Eu não corri atrás disso ainda porque eu não acho que fiz A MÚSICA que vale a pena investir. Quando eu fizer, eu vou tentar empurrar onde der. Eu to postando e deixando as músicas se virarem sozinhas, no máximo mando pra alguns sites aqui e ali.

Entendi, mas já que você citou, e esse disco da Cambriana?
Tá enrolado, mas vai rolar! Primeiro semestre do ano que vem, eu acho. Mas vai saber. O que eu posso dizer sobre o disco da Cambriana é que eu to tentando fazer é um disco que eu [como músico e produtor] acharia o melhor do ano se eu não fosse da banda. Ou seja, um disco de nerd de música. É enrolação por perfeccionismo mesmo.

Mas todas as músicas já estão prontas?
Não. Tem muita música pronta, mas a maioria já caiu no purgatório.

E rola um medo com relação a repercussão do primeiro? Tipo ser mal recebido ou tratado como pior que o primeiro, já que lá teve ao menos um hit.
Eu já fiz as pazes com a ideia de que muita gente que amou o primeiro vai odiar esse. É a vida. Mas eu acho que se eu conseguir chegar a onde eu quero, vai ter outra galera que vai se interessar. Provavelmente uma galera mais nerd. Não que seja de propósito, mas é pra onde as coisas parecem estar indo.

Mas por que você acha que logo a galera mais nerd vai curtir?
Porque ele tá mais esquisito e desafiador e ambicioso, eu acho. Não é álbum que eu imagino ganhando o ouvinte na primeira escutada.

O que torna os projetos bem distintos: um quer alcançar um sucesso espontâneo enquanto que o outro simplesmente está se direcionando a um grupo muito específico
Sim, mas o da Cambriana eu não diria que tá direcionado a um grupo. O único nerd que eu quero agradar sou eu. Eu só to supondo que os outros vão compartilhar do meu interesse.

Compartilhar
Matéria anterior“Solidão”, clipe da Sara Não Tem Nome
Próxima MatériaFive Minutes To Go lança “Disgrace”
Músico multi-instrumentista, DJ, viajante, criador e editor-chefe do site RockinPress, colunista e curador convidado do Showlivre, ex-colunista do portal de vendas online Submarino e faz/fez matérias especiais para vários grandes meios culturais brasileiros, incluindo NME, SWU, Noize, Scream & Yell, youPIX e os maiores blogs musicais do país. É especializado em profissionalização de artistas independentes e divulgação de material através da agência Cultiva, sendo inclusive debatedor em mesas técnicas sobre o assunto na Universidade Federal Fluminense (RJ) e no Festival Transborda (MG).

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA