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Viver de música, hoje em dia, é privilégio de muitos, sendo até uma profissão mais bem vista do que era há algumas décadas atrás. Porém, a quantidade de pessoas que gostariam de ser apenas músicos e esbarram em diversos problemas para isso é alarmante.

Este é um dos problemas de João Lemos. Músico de renome no cenário, trabalhando com quase dez artistas ao mesmo tempo, em outros estados, e ainda embalando turnês com frequência. João é hoje talvez o nome mais aparente do rock paraense no Brasil e mesmo assim vive ainda entre o ambiente de uma agencia e o barulho da sala de ensaio.

Se preparando para lançar um DVD que comemora o sucesso de seu projeto principal, o Molho Negro, enquanto já tem o novo disco da banda em processo adiantado, João ainda encontre espaço para fazer algum trabalho solo e disponibilizou esta semana “Hipsteria”, primeiro single do segundo álbum do Thunderjonez, seu projeto solo.

Aproveitando o lançamento e sua inquietude, conversamos com o músico sobre o projeto solo, Molho Negro, responsabilidades e viver da música numa entrevista em pleno fim de noite de sábado. E se você pensa que alguém que queira viver de música não pode ficar sábado a noite em casa, ele mesmo avisa: estava gravando.

Thunderjonez – Hipsteria

Sobre a Thunderjonez

O que é a Thunderjonez?
São as coisas que eu faço em casa pra praticar, brincar e etc. Só que ano passado acabou entrando nas seletivas do [Festival independente paraense] Serasgum e acabei tocando. Montei uma banda enorme, cheia de amigos, para poder tocar os arranjos. No ano passado, em janeiro, eu lancei tipo um disco solo por lá, chamado No Fortress. Foi dai que ficou meio séria a coisa.

Mas porque ‘jonez’ e não ‘joãoez’?
É que esse nome foi uma bela duma picaretagem. Eu queria fazer um soundcloud pra postar besteira, mas não queria por meu nome nem nada. Dai o Camillo do Turbo sugeriu esse nome, eu acho. Daí coloquei. O Soundcloud é até mais velho que a Molho Negro. Lá pras últimas paginas tem umas demos podres do Molho Negro que eu postava. Daí quando passou nas seletivas tinha que dar um nome, pra poder tocar e tal. Aí foi esse nome horrível!

O som parece ser mais ‘sério’ que o Molho Negro.
Nossa, o primeiro disco é super sério. Era quase um processo de cura de depressão! Acaba que eu gosto bastante desse tipo de coisa também. Tem um tom mais ‘músicos profissionais’. Eu tava até falando pra um amigo ontem que eu queria fazer show desse projeto meio que pra não tocar porra nenhuma. Só chamar um monte de gente que toca bem e ficar dando ordem no palco!

Então a Thunderjonez é na verdade o outro lado do Molho Negro? Tipo, o seu lado mais ‘real’? Uma cura para maus momentos, talvez?
Eu não diria real, porque eu não saberia te dizer se isso é verdade, mas seria um diário de bordo, cheio de rascunho, algumas coisas maneiras, algumas ruins, umas frustrações descontadas, umas palhaçadas. É tipo a caixa do nada musical da pessoa. Já conceituei o negocio, mas no fundo são umas brincadeirinhas e tal, mas eu gosto e tem uns amigos que acham maneiro também!

É por isso então voltar com o projeto esse ano e lançar um segundo disco?
Quase todo tempo que eu estou em casa fico brincando com uma guitarra ou no LogicX fazendo umas batidas e etc. Nem tudo serve para o Molho Negro obviamente, mas ao mesmo tempo é legal de fazer e de mostrar pra galera. Depois do festival ficou todo mundo meio “e ai?” pra cima de mim, inclusive a banda que eu montei. Dai acho que vou dar continuidade. Não sei te dizer sobre a frequência de shows, de mídia física ou qualquer outra coisa que transforme efetivamente numa banda de verdade, mas vou continuar gravando, talvez dividir em discos. Seja por puro preciosismo ou pra organizar mesmo.

Agora você vai divulgar a banda mais ‘a sério’? Porque essa música nova está muito bem produzida comparado as outras.
Pô, valeu! Então, essa eu fiz ontem de noite e esse ano quero fazer o segundo disco. Já to começando a gravar algumas coisas e tudo. Essa que lancei ontem deve estar no disco, mas eu lancei meio que afobadamente. Não tem um planejamento e tal. É meio que um diário. Acaba que com a prática eu vou aprendendo a deixar o som melhor. Comprei um fone maneiro também. Ajudou.

O futuro do Molho Negro

Como a Molho Negro está?
Tá bem. A gente gravou um DVD irado fim do ano. Tá chegando a mix esses dias do áudio. Daí vamos lançar nos próximos meses. Ficou bem legal. Surpreendeu a gente e a equipe. Dai tem o terceiro disco que vamos gravar esse ano. As prés estão prontas e tudo. Acho que no primeiro semestre a gente já grava e lança no segundo. O DVD sai antes. Eu só não sei se hoje em dia vale ficar mais um ano em tour só por causa de um DVD, mas vamos ver.

Acho que, em tese, lançamentos de qualquer espécie são motivados por fazer shows, mas lançar sem se preocupar muito em fazer shows é que pode ser perigoso.
Isso mesmo. O disco eu só quero lançar quando estiver com tudo na mão: vinil, cd e tudo. Porque você acaba perdendo menos dinheiro.

Em uma turnê do dvd pode ajudar a pagar alguns custos do cd, imagino.
Exato. É bem por ai que vai rolar. Acho que essa semana chega a mix do áudio e dai meio que está pronto já.

Mas a edição do DVD está pronta?
Tá. Falta correção de cor em uns takes só, mas está 90% pronto.

João Lemos Molho Negro Thunderjonez 3

O peso da música

Fora a Thunderjonez e o Molho Negro, com quem mais se está tocando?
Tem o The Sinks. Eu toco com a Ana Clara daqui de Belém, a gente lançou um vinil 10″ bem bonitinho. Vou tocar com a Sammliz. Toco com uma banda meio Folk chamada Meio Amargo, uma de post rock que eu gosto bastante chamada A Trip to Forget Someone. Toco bateria num duo também, mas entrei agora. Chama Blocked Bones. Eles gravaram o disco com o Iuri Freiberguer, mas dai o baterista saiu. Que eu lembro são esses. A maioria desse povo faz pouco show, dai acaba facilitando na verdade.

Você só vive de música?
Quem dera. To projetando pra fazer isso, mas eu trabalho como diretor de arte na secretaria de comunicação do estado. Acho que esse ano eu consigo fazer esse lance do ‘só musica’. Até apareceram uns trabalhos de produção e tudo, tenho aprendido bastante.

Tipo que trabalhos?
Eu produzi duas faixas do Delinquentes, uma banda de hardcore daqui com 30 anos de idade, e eles querem que eu produza o disco. Também produzi o disco da Sammliz que sai esse ano, a moça que cantava no Madame Saatan, uma banda de metal daqui. Dai também toco com um monte de banda. Até com o Camarones [Orquestra Guitarristica] eu sou um dos backups agora. E tem uns outros projetos. Eu faço um festivalzinho pequeno em Belém, o Mojo. Vou fazer a segunda edição esse ano.

Dá para dizer que você e o Camillo Royale (líder da banda Turbo) são os grande representantes do cenário independente de Belém. Você sente o peso da responsabilidade?
O Anderson Foca [líder do Camarones e criador do festival DoSol] disse isso pra gente. Na hora a gente ficou meio “hmmm”, mas dá pra entender. Tem uma outra galera também tipo o Leo Chermont [banda Strobo] e tudo, mas dá para entender que a gente estaria nesse grupo também. No fim é só uma informação. Bom ou ruim é como cada um interpreta. É legal sim, e como tu dissestes, é uma responsabilidade também.

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Músico multi-instrumentista, DJ, viajante, criador e editor-chefe do site RockinPress, colunista e curador convidado do Showlivre, ex-colunista do portal de vendas online Submarino e faz/fez matérias especiais para vários grandes meios culturais brasileiros, incluindo NME, SWU, Noize, Scream & Yell, youPIX e os maiores blogs musicais do país. É especializado em profissionalização de artistas independentes e divulgação de material através da agência Cultiva, sendo inclusive debatedor em mesas técnicas sobre o assunto na Universidade Federal Fluminense (RJ) e no Festival Transborda (MG).

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