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Seletiva SWU Oi Novo Som @ Teatro Rival – RJ 11/09/2010

São 22:30 da noite. Há apenas uma hora do horário previsto para o início da seletiva SWU + Oi Novo Som, dois roadies, sob a batuta de um produtor, desciam os equipamentos que lotavam uma grande Van com placa paulista com gigantes adesivos ‘EX4 – Pop Rock‘. As bandas que disputariam uma acirrada vaga no mega festival SWU degustavam de uma estranha tranquilidade no bar ao lado, o Café Rival, bem ao lado de um Cinema Pornô, formando um contraste com a preocupação dos convidados Sobrado 112, devido ao sumiço de um integrante e cortes na setlist que voava das mãos de um dos membros. Tudo era resolvido na base da cerveja.

Uma hora de atraso depois, uma lista de convidados com aproximadamente 30 pessoas, e até a hora do início, DOIS pagantes, o Teatro Rival iniciou uma noite onde três músicas poderiam decidir o destino da banda, se a viagem valeria e se a noite terminaria na bebedeira até o dia seguinte – para o bem ou para o mal.

Única com torcida, a Síntese de Fortaleza abriu a noite com um som mais original, que mesmo sem carisma ou presença de palco, cativou devido a virtuose do guitarrista, a ótima voz do vocalista e a força do teclado. Teclado que aliás associa o som da Síntese com alguma banda de rock gospel, mesmo no momento em que cantaram em inglês.

A próxima foi a EX4, que só passou o som meia hora antes do evento. O quarteto tem um punch sonoro pré-pronto, nascido de uma competente cozinha e uma montanha de teclados de efeitos. Não dá para negar a alma Barão Vermelho presente ali e a atitude Capital Inicial de ser. Vocais e backs muito bem ensaiados, presença de palco de quem muito ensaia ou faz shows e uma certa pinta de campeão.

Muito gás, energia  e vontade marcaram as primeiras palavras destiladas por Samuel, baixista e vocalista da Overal. O quarteto com um sotaque paulista carregadíssimo fez um Ska mezzo Soul diferente, animador, com letras inteligentes, muito carisma e animação. A banda cresce ao misturar Reggae e Rap e causa risadas com letras tipo “Ontem Fui Pra Jamaica, não fui de avião, fui de fumaça”, pouco antes de apresentar os integrantes da banda, mostrando que sabe utilizar seu tempo no palco.

Daí, com sobretudo preto, gritos e trocando música pelo barulho, o causador do momento destoante da noite foi o Mad Sneaks, de Minas Gerais. Aquele som banhado de Nirvana e punks velhos em 4 acordes, parecia ter vindo direto daqueles buracos onde quando adolescentes, víamos bandas destruírem nossos ouvidos com guitarras com uma única distorção e uma pseudo raiva aparente.

Enquanto o Sobrado 112 se preparava para mostrar seu Skapolka característico, o anúncio do vencedor da noite trazia o mesmo sentimento de uma conquista de anos de luta, uma apreensão necessária, mas que poucos querem sentir. Enquanto os roadies da EX4, devidamente vestidos com a camisa da empresa Endoser conversavam com seus músicos, o pessoal da Overal gritava sua vitória entre pulos e agradecimentos, terminando num abraço coletivo naquele mesmo bar onde tudo começou. Enquanto os 100.000 reais gastos pela outra banda voltavam para a colossal Van, o quarteto vencedor pegava seus instrumentos em suas capas baratas, mas com som sincero e garantiram sua volta a sua terra São Paulo, com show marcado para Itu, no festival das próximas gerações.

E as bandas selecionadas foram: Locomotrom, Overal e Enfuga.

Seletiva SWU Oi Novo Som @ Estúdio Emme – SP 10/09/2010

E quando lhe pedem para você não ser o que você é?

Na verdade a questão pura e simples que invade qualquer âmago sensorial sináptico é:
E se por acaso tudo que você acredita não fosse o suficiente para ser considerado relevante?
Como expandir a fuga da consciência do fato que as coisas pelas quais você quebra pedras diárias, fossem meras cópias de algo que outras pessoas (e algumas vezes você mesmo) consideram abominável?

Despencar de castelos de cristal, erguidos na superfície de Marte por um ser azul onipresente, pode mostrar-se definição perfeita de asfixia. Mas quando a luta pela transcendência especificamente passa pelo julgamento de terceiros, a queda é o menor de seus problemas.

Talvez isso explique a sensação anti climática que transpassou o ventrículo esquerdo de quase todos os presentes ontem no Estúdio EMME, na Vila Madalena em São Paulo. Acomodadas em sofás laterais, carregando máquinas e desviando de obstáculos produzidos pela própria geometria do chão da casa. Fotógrafos em seus postos no profundo labirinto de luzes que teimavam em parecer apenas sombras ao redor de um palco que tinha vida própria.

Mas observar cada detalhe, dessa vez tinha um obstáculo evidente. Algo parecia querer mostrar que muitas vezes as situações tem fechamentos se não inesperados, muito mais algozes para as convicções singulares de cada pessoa. E isso estava muito distante do que acontecia em cada ato de três músicas, das bandas que competiram por uma vaga dentro do line up do festival SWU.
Uma batalha que o inimigo encontrava-se sorrateiramente escondido atrás de fios ao longo do palco.

Observar duas realidades assim, muitas vezes cria lotes de confusão mental que tem o formato de capitanias hereditárias. Linhas paralelas que isolam hermeticamente a capacidade aproximação. Mesmo essas linhas sendo imaginárias.

E aí inicia-se, meu sensorial leitor, uma outra guerra de nervos. Os de cada componente das quatro finalistas (FORCEPS, SINGLE PARENTS, ESTARTE E LOCOMOTRON). Imagine-se em cima de um tablado, onde apenas quinze minutos irão decidir se um pedaço de sua vida vale o quanto toca, para ter seu nome naquele poster de festival junto com nomes como Rage Against The Machine, Pixies, Queens Of Stone Age, Superguidis, Autoramas, tal e etc.

Momentos onde navalhas cortam narinas e impedem que a última nota saia, segundos onde seu corpo parece cansar depois de correr pelo palco nas duas primeiras canções. Sua velocidade diminui, mas o suor é combustão de membros inferiores. Tente dentro de sua mente regressiva entender o misto de raiva e rebeldia que explode quando o microfone não consegue parar estático e o som da casa parece torrar suas expectativas. Tudo isso acontecia ali, em frente aos olhos do primeiro sofá lateral, local onde o juri do evento permanecia em conversas de sinais.

E mesmo com os problemas de som e levando em consideração que as pessoas que trabalhavam com o palco, por muitas vezes apareciam mais do que as bandas, os músicos fizeram a sua parte. Munidos apenas daquilo em que acreditam, ou seja, o som que produzem. Mas é aí que a grande celeuma cataclísmica surge….

Obviamente existem expectativas, mas elas nem ao menos são levadas em consideração durante as apresentações. Existe a torcida, mesmo a imparcialidade sendo a dona da noite. Porque julgar algo, passa necessariamente pelos quesitos parâmetros de grandiosidade e gosto. Duas grandezas físicas que forma um sistema heterogênio, mancha de óleo e água.

Mas então como explicar o simples fato de que ao final de uma noite onde aconteceram escorregões, palavrões e sons, a banda que lutou mais em cima do palco parece ter ganho apenas o prêmio de injustiçado?

Quando presencia-se à um show de rock, não podemos apenas esperar uma audição do disco de estúdio ao vivo. Os padrões foram postados para que músicos quebrem paradigmas de consciência e tele transportem mentes à lugares onde a sensorialidade seja sentida em cada centímetro de intraderme cercada de dermátomos. Esperamos o clímax evidente de fim de mundo traduzido em claves de sol lisérgicas, nada menos.

Mas esse parâmetro é o correto?

A banda que traduziu o rock na atitude de remar contra a maré do mal funcionamento, parando a canção nos primeiros acordes e dizendo para o mundo que aquele grunhido da microfonia não definia aquilo que eles eram, mas sim toda a maré de explosões que seguiu-se depois, não levou.
Muito menos os que batalharam contra o nervosismo e mostraram suas crenças até o fim. Outrora pudessem ter sido os defensores do hardcore, que pareciam brigar contra vilões de notas decafônicas, mostrando que a cada batalha travada nas músicas o cansaço era evidente.

Nenhum deles foi julgado como merecedor. O ganhador foi portador de fórmulas batidas, produção e presença de palco que transbordavam como maiores qualidades. O som não tinha transpiração, mas moldes de gesso de uma polaróide que parece não querer tornar-se sépia dentro do rock nacional. O glam rock new wave que foi julgado merecedor da vaga entre os maiores, parece um assassino serial que copia os traçados de qualquer dexter seminal. O brado feroz de uma platéia formada por descontentes urrou alto, sendo percebido do lado de fora do Estúdio Emme.

Mas aí mora uma outra realidade que fermenta mais questões. Do lado de fora acompanhando a saída dos vencedores, ouve-se bordões de alegria pura. Olha-se nos olhos dos integrantes e nota-se que a felicidade da vitória está lá. Algo que todos da banda acreditam como verdade de alma traduzida em notas, venceu e os colocou no topo.
Mas então como dizer para esses rapazes que aquilo que eles acreditam e fazem não vale nada?

Esperamos sempre do rock aquela guitarra clamando por pureza e crença, que a banda mostre-se de uma urgência visceral que derreta transcendência pelas suas bordas. Demonstre uma atitude que os mais puristas poderiam chamar de roots. E queremos que os músicos acreditem nisso com corpo, suor e sangue.

E é aí, que mora a capciosa pergunta. Como recriminar a escolha de uma banda que acredita no que faz. Que batalha todo o dia para tornar-se algo a mais. Mesmo sabendo que o som não agrada, mas a verdade é deles.
E verdades são complexas e possuem várias faces.
Ao tripudiar a escolha dos ganhadores, estamos montando um paradoxo perigoso sobre o que temos por verdade. Queremos que a banda escolhida seja aquela que toca com batidas de furacões instalados nas mais íntimas câmaras cardíacas e que creia nisso como matéria atômica de vida. Quando ganham aqueles que acreditam, nos revoltamos.

Obviamente que a equação produção versus o talento mostrou-se de tamanha não linearidade que interrompeu a sequência da física matemática metafórica. E que é difícil entender o funcionamento do que é considerado bom ou ruim. Pode-se argumentar, que é clara a concretização de um padrão que está afastando tudo aquilo que músicos como os Mutantes ou Chico Science trouxeram para o rock nacional. A brasilidade fica cada vez mais parva dentro de conceitos californianos de rock de botique.
E essa loja de bandas não tem a fúria pistolniana necessária.
Mas como não dar os parabéns à quem ganha acreditando na sua verdade?

Jack Black ou xeque mate?

O que aconteceu ontem na batalha de bandas, tem uma aura de anti climax que oferece muitas interpretações, mas uma coisa é certa.
Se estamos sendo enganados, deve-se repensar conceitos e tentar buscar sempre algo a mais. Porque a pompa de uma competição não mostra realmente uma história toda. Apenas foto cambaleante de momento. A “decadence avec elegance” de um tempo onde “não há mais festa nem carnaval”.

E as bandas selecionadas foram: Locomotrom, Overal e Enfuga.

Resenha: Rafael Castro e os Monumentais @Serralheria, São Paulo – 22/08/10

Minha mãe é cheia das histórias. Uma delas é da primeira vez que ela ouviu Raúl Seixas e do que ela sentiu quando presenciou algo tão fora da caixa. Outra história é de quando ela foi ao primeiro show do Zé Ramalho em São Paulo, e só tinham 10 pessoas no público.

Hoje eu acho que entendo. Ao assistir o show da banda Rafael Castro e os Monumentais não dá pra não sentir que você está na presença de uma algo incomum.

Rafael Castro e os Monumentais

A falta de normalidade já começa pelo local. O Serralheria é tipo o quintal daquela família festeira do interior que todo mundo conhece. Mesas grandes, bancos com algumas almofadas e não podemos nos esquecer, é claro, dos insetos. Note to everybody: não usar perfume quando for lá. Nem decote.

Começamos a noite com o Sambarbudo Project formado pelo fofíssissimo Marcos Lauro e seu comparsa Pedro Henrique (www.sambarbudo.com.br) com um set list sensacional incluindo Cidadão Instigado, Otto e Arctic Monkeys.

Marcos Lauro (fofo) e Pedro Henrique - Sambarbudo Project

Depois tomam o palco Eles. Rafael Castro. Os Monumentais.   Talento que me faz perguntar o que está rolando por debaixo dos Lençóis Paulista. Com seu blaser marrom, seu chapéu e sua voz grave, Rafael encanta com  melodias e poesias absolutamente sensacionais.

Com influências claras de Raúl Seixas e do rock nacional dos anos 70, músicas como “Amor, amor, amor”, “Apagada Luz”, “Foi porque bebi” e minha favorita “Enquanto não me Notares” mostram toda a canastrice, breguice e sem vergonhice que permeia o repertório da banda.

Rafael Castro

E enquanto eu estava absolutamente seduzida pela segunda vez, (sim, essa foi a segunda vez q eu fui ver o show deles, pra vocês terem uma idéia) me veio um sentimento de revolta, pensar que as pessoas preferem ficar em casa vendo aqueles programas bosta de domingo em vez de conhecer algo diferente, prestigiar um talento. E contei as pessoas ao meu redor… eramos 10.

P.S.: Acho importante salientar, como advogada que quase sou, que os atos descritos na música “Vou te encher de Birinight” são tipificados como crimes.

http://www.youtube.com/watch?v=Hk1b3zsVzPc&feature=related

Sóley e Sin Fang Bous @ Absolut Creations – MIS, São Paulo-SP 05/08/2010)

Texto: Fabio Navarro
Fotos: Virginia Serra

O trânsito de São Paulo pode causar fusões de fúria incontida em monges beneditinos, se não for entendido e manipulado como uma força independente da natureza matrixniana. Nessa última quinta feira (05/08), particularmente ele parecia envolto em ódio tectônico, tamanha a quantidade de carros que aglomeravam-se e pulsavam na veia aberta que era a Avenida Europa, localização do Museu de Imagem e Som (MIS) durante o início da noite. Os milhares de passantes motorizados que acotovelavam pneus no asfalto, em sua maioria desatentos para a aura beatificada que rondava aquele quarteirão, mas quando se estacionava o carro em frente ao museu já podia-se sentir uma pureza de ar.

Talvez esse fosse realmente o objetivo final do evento realizado nessa quinta feira. O ABSOLUT CREATIONS (patrocinada por uma famosa marca de vodka) e seu festival Rojo Nova, há uma semana atrás mostrou aos paulistanos o trabalho caótico do diretor Spike Jonze (com o curta “I’m Here”). Dessa vez a noite teria colorações e imagens lisergicamente pacificadoras de alma…

Já na entrada do MIS, suas pilastras brancas colocadas lado a lado e formando um corredor, deixam a impressão no ar que estamos entrando em outro mundo. Milimetricamente dispostas como se fossem flores de concreto que recebem os iluminados. E não é pretensão hypesteriana dizer que as pesssoas presentes ao show da cantora SÓLEY e o grupo SIG FANG BOUS (projeto solo do criador da sensacional banda islandesa SEABEAR, Sidri Mar Sigfusson) foram merecedoras do adjetivo apenas dado à Daniel Torrance. Mesmo porque existia um clima sacro no ar interno do museu, talvez devido à presença de um certo reverendo…..

Apesar dos preços acessíveis (R$ 80,00 a inteira e R$ 40,00 a meia entrada), o número de pessoas era reduzido dentro do espaço. Obviamente que shows com o início marcado para as dezenove e trinta da noite em uma quinta feira, não são os mais procurados pelas audiências. E mesmo as atrações sendo expoentes de uma safra brilhante da sempre surpreendente Islândia, o clima era intimista e quase bucólico.

Poucas pessoas tomavam bebidas destiladas em canudinhos que aspiravam diferentes cores rodeadas de cubos de gelo transpirando um caleidoscópio de movimentos dentro dos copos. Para cada boca, uma cor específica e início de uma experiência sensorial que apenas terminaria com o último acorde.

O show realizado dentro do pequeno auditório, revela logo na entrada sua condição de experiência ludovicana. Assentos simetricamente dispostos e rodeados por degraus que permitiam armadilhas ao caminhar, esperavam sorridentes o descanso dos corpos da platéia que já colocava-se em seus lugares.

Tudo com tanta calma e silêncio, que nem ao menos parecia que em minutos entraríamos no mundo de dois músicos que tem em sua gênese musical o mesmo núcleo (Sóley e Sidri são comparsas no Seabear) e que são idolatrados pelos fãs da banda, devido à mistura lisérgica de acordes com tonalidades variantes entre a experimentação e o palatável (e por que não dizer pop, afinal de contas essa palavra quando bem realizada pode gerar maravilhas).

Mas quando separados, esses dois super gêmeos da liga islandesa da justiça (que ainda conta com a participação de Björk e Sigur Rós) revelam uma faceta muito mais complexa e de talento ímpar dentro do mundo dos sons. São sonetos decassílabos reverberados dentro de uma difusão sensorial que não contém apenas um sentido exposto como osso solto. Tanto no show de Sóley, quanto a banda Sig Fang Bous a experiência sensorial é completa.

E tudo inicia-se com quase uma hora de atraso, por meio de um olho postado no telão ao fundo. Como uma instalação de Andy Warhol, onde não existem diálogos e apenas uma imagem que lentamente realiza movimentos pleonásticos, o verde íris que recobre uma retina vedada por uma lente de contato, intimida. Esfinge que encara a platéia como se indagasse à todos se estão ou não preparados. Ao mesmo tempo que desafia, esse olho é um aviso para que não apenas os ouvidos fossem utilizados. Na presença de poucas luzes dentro do palco, seus olhos necessitavam permanecer atentos.

Sóley entra vagarosamente no palco, como uma menina em seu primeiro dia no colégio, apenas munida de seus óculos cartunescos. Para, olha ao redor e dá boa noite em inglês. Inicia então uma série de frases em sua língua nativa que parece ter sido retirada de algum filme de ficção científica. Mas se existe uma característica no dialeto islandês, essa é a métrica poética que as sílabas apresentam. Todas as frases que são ditas parecem claves de sol. Isso explica a beleza nas composições que mesmo cantadas em inglês, possuem o sotaque de nascimento.  Ela apresenta-se e inicia o show, ao fundo uma projeção que revela um caminho.

As luzes vão diminuindo até o momento em que apenas pode-se ver a paisagem bucólica sendo percorrida pela câmera. Por instantes a figura anatômica da cantora desaparece e ressoam pelo ar os tímbres vocais que de imediato lembram Björk, tanto que em várias notas mais altas a semelhança é palpável. Mas Sóley como mostrado na projeção percorre outro caminho. E com um passe de mágica da menina maga que por muitas vezes parece perdida dentro do espaço do palco, estamos imersos dentro do som.

Na verdade nesse instante nossos corpos estão em outro lugar dentro da projeção, rodeados de sons mágicos que misturam bases pré gravadas podendo ser às vezes apenas palmas marcando a melodia. Ela usa as nuances eletrônicas com canções que percorrem os caminhos do clássico a mais doce melodia infanto juvenil (como no caso da canção “”Rabbit”"). Mas não são apenas as notas lindamente tocadas que emocionam a platéia, Sóley encanta quando timidamente conta histórias sobre a estadia em São Paulo ou a composição de uma canção inédita (vídeo abaixo).

A experiência é completa, ouvidos, olhos, sorrisos e almas são levados em estado de pura eletrônica lisergia hipnótica, que por muitas vezes conseguem marejar os mais experientes olhos. Mesmo sendo um show curto, transportou a todos para um outro lugar muito distante do espaço pequeno do teatro. Levados em nuvens de ébano e marfim por caminhos cheios de sorrisos tímidos e óculos cartunescos irressistíveis.

Mas não bastava chegar ao sublime, era necessário manter-se. Entra em cena então Sidri Mar Sigfusson. Ele e a menina que à pouco havia levado as almas na platéia para um passeio juntam-se e mostram o porque da banda Seabear ser catapultada como uma das mais talentosas dentro do cenário, inclusive com canções colocadas como trilha sonora de seriados famosos.

“Cold Summer” torna-se inesquecível dentro da metade do show. Não havia uma intensidade messiânica dentro da apresentação, muito menos a necessidade de destilar hits. Apenas simples notas que fundiam um pouco cada pedaço de corpo e ventrículos por entre os entrecantos de cada acorde. Tudo isso desencadeando um dos momentos mais bonitos da noite que você acompanha agora….

Após a pausa de quinze minutos, entra em cena a SIG FANG BOUS. O quarteto complementado por Sóley no piano mostra que é possível a mistura de referências diversas dentro de canções, o que para qualquer ouvido desatento soaria como um pop rock acima da média. Engana-se quem tentar decifrar o som da banda por esse caminho, afinal de contas existem referências nítidas ao som de Fleetwood Mac (o SFB já regravou “”Landslide”" da banda americana), Neil Young e Radiohead. Mas também não adianta relacionar o som da banda islandesa com as suas referências diretas. Mesmo o guitarrista da banda lembrando-me muito Johnny Greenwod e a busca incessante pelo efeito de pedal perfeito.

As canções da banda transitam em uma faixa que percorre o mais puro e cerebral pop universal e isso não é pejorativo ou diminutivo do som. Durante todo o ano de 2009 vimos uma banda como o Phoenix tornar-se venerada pela mistura de canções que eram poderosamente sonoras dento do gênero inaugurado pelos Strokes em 2000. O rock dito alternativo levado para o lado do mais acessível e riffeiramente grudento. Canções com o apelo do gênero, mas com uma alta concentração de sinapses inteligentes, mas com o SFB o jogo atinge um outro patamar….

Não existem saídas pleonásmicas para as canções, um refrão que começa inicialmente comum não terminará encontrando a próxima estrofe, mas sim uma conjunção assimétrica de novas notas que possuem um poder de confundir os ouvidos tão grande quanto o de hipnotizar. Diferente de músicas que à duras penas tentam parecer inteligentes despejando uma britadeira de lisergia envolta em guitarras e distorções. As canções do projeto solo de Sidri possuem vida própria as vezes, pois tem-se a impressão em vários momentos que a banda deixa-se levar por onde a ordem dada pelos acordes à leva. Sem amarras ou cartas marcadas.

Outra diferença é a intensidade matemática que a banda de apoio possui. Muitas vezes parecem em transe e tocando mantras xamânicos, que sempre encaixam-se na melodia do violão de Sidri.  Outras vezes destoam da linha reta e fazem voltas sinuosas cheias de distorções e tempos cortados de bateria e baixo. Isso tudo apenas reforça a idéia de que a beleza das canções está no momento da descontrução das mesmas, em um local onde a platéia é capaz de sentir cada pedaço de seu corpo ser absorvido pelas melodias.

O show dessa quinta afirmou certezas e fez novos admiradores. Não foi necessário um palco de 360º, parafernálias eletrônicas, coreografias ensaiadas antes com a platéia. Sons profundamente belos como agulhas quentes que marcam uma pele deixando marcas de vida para sempre e algumas imagens foram necessárias para que a experiência fosse completa. Arrebatados pelos ouvidos, levados pelos olhos e salvos pela fusão de alma com a beleza das notas, todos nós saímos do MIS nessa quinta um pouco mais humanos. E por que não usar a palavra felizes…..

Resenha: Aurélio e Seus Cometas @ Outs São Paulo 31/07/10

A noite começou agitada. Não sei porque cargas d’aguas achei que assistir A Centopéia Humana antes do meu primeiro trabalho de cobertura jornalística musical seria uma boa idéia. Não foi.

Mas isso não vem ao caso não é mesmo? Ontem, 31 de julho de 2010, aniversário de sete anos do Outs, lá estava eu pra ver o show de Café, Cigarros e Materiais Elétricos, Pain in the Brain e Aurélio e Seus Cometas.

Café, Cigarros e Materiais Elétricos

A primeira banda a tomar o palco foi Café, Cigarros e Materiais Elétricos. Integrantes um pouco mais velhos, claramente mais experientes, mostraram um rock de boa qualidade e entreteve a platéia ao ponto de propiciar uma dança da bundinha ao som de “Play That Funky Music”. Não tinha como negar o talento dos musicos, principalmente do baterista. Eis que estou escrevendo esse texto e descubro que o vocalista é chefe de um amigo meu. Continuando…

Depois veio a Pain in the Brain, pain de fato. Não é o estilo de música que me apetece, rock pesado, gritos guturais, integrantes de cabelos compridos precisando urgentemente de um shampoo anti-frizz, mas enfim, o escasso público da casa pareceu curtir. O que me sobrou do show foi um ouvido chiando.

Finalmente, lá pelas altas horas da madrugada entra a clara estrela da noite. Aurélio e Seus Cometas. Acho que agora entendo o porque do nome da banda… e me refiro ao sentido astronômico da coisa. Logo de cara o vocalista já vai chamando o público, distribuido preguiçosamente no já pequeno espaço da casa, para perto do palco. Não que fosse necessário. A presença da banda é magnética. O carisma exalado do vocalista de cabelos vermelhos é contagiante. Não nego que sorri o show inteiro e não porque, no meio do show, Emir constatou que seu zíper estava aberto.

Aurélio e seus Cometas

A banda, é formada por Emir (guitarra e vocal), Pedro Nogueira (baixo) e Mogli Kid (bateria). Fundada em 2006, gravaram dois discos, A Incrível História de Aurélio & Seus Cometas e O Clube dos Descontentes.

O momento alto da noite com certeza foi quando tocaram seu maior sucesso,  que dá nome ao segundo disco, “O Clube dos Descontentes”, com direito a coro do público e tudo. E olha, se o entusiasmo do público presente servir de amostragem, a banda fará muito sucesso.

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