Minha mãe é cheia das histórias. Uma delas é da primeira vez que ela ouviu Raúl Seixas e do que ela sentiu quando presenciou algo tão fora da caixa. Outra história é de quando ela foi ao primeiro show do Zé Ramalho em São Paulo, e só tinham 10 pessoas no público.
Hoje eu acho que entendo. Ao assistir o show da banda Rafael Castro e os Monumentais não dá pra não sentir que você está na presença de uma algo incomum.
Rafael Castro e os Monumentais
A falta de normalidade já começa pelo local. O Serralheria é tipo o quintal daquela família festeira do interior que todo mundo conhece. Mesas grandes, bancos com algumas almofadas e não podemos nos esquecer, é claro, dos insetos. Note to everybody: não usar perfume quando for lá. Nem decote.
Começamos a noite com o Sambarbudo Project formado pelo fofíssissimo Marcos Lauro e seu comparsa Pedro Henrique (www.sambarbudo.com.br) com um set list sensacional incluindo Cidadão Instigado, Otto e Arctic Monkeys.
Marcos Lauro (fofo) e Pedro Henrique - Sambarbudo Project
Depois tomam o palco Eles. Rafael Castro. Os Monumentais. Talento que me faz perguntar o que está rolando por debaixo dos Lençóis Paulista. Com seu blaser marrom, seu chapéu e sua voz grave, Rafael encanta com melodias e poesias absolutamente sensacionais.
Com influências claras de Raúl Seixas e do rock nacional dos anos 70, músicas como “Amor, amor, amor”, “Apagada Luz”, “Foi porque bebi” e minha favorita “Enquanto não me Notares” mostram toda a canastrice, breguice e sem vergonhice que permeia o repertório da banda.
Rafael Castro
E enquanto eu estava absolutamente seduzida pela segunda vez, (sim, essa foi a segunda vez q eu fui ver o show deles, pra vocês terem uma idéia) me veio um sentimento de revolta, pensar que as pessoas preferem ficar em casa vendo aqueles programas bosta de domingo em vez de conhecer algo diferente, prestigiar um talento. E contei as pessoas ao meu redor… eramos 10.
P.S.: Acho importante salientar, como advogada que quase sou, que os atos descritos na música “Vou te encher de Birinight” são tipificados como crimes.
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ago 6th 10
Postador por Fabio Navarro em Resenhas, Shows
O trânsito de São Paulo pode causar fusões de fúria incontida em monges beneditinos, se não for entendido e manipulado como uma força independente da natureza matrixniana. Nessa última quinta feira (05/08), particularmente ele parecia envolto em ódio tectônico, tamanha a quantidade de carros que aglomeravam-se e pulsavam na veia aberta que era a Avenida Europa, localização do Museu de Imagem e Som (MIS) durante o início da noite. Os milhares de passantes motorizados que acotovelavam pneus no asfalto, em sua maioria desatentos para a aura beatificada que rondava aquele quarteirão, mas quando se estacionava o carro em frente ao museu já podia-se sentir uma pureza de ar.
Talvez esse fosse realmente o objetivo final do evento realizado nessa quinta feira. O ABSOLUT CREATIONS(patrocinada por uma famosa marca de vodka) e seu festival Rojo Nova, há uma semana atrás mostrou aos paulistanos o trabalho caótico do diretor Spike Jonze (com o curta “I’m Here”). Dessa vez a noite teria colorações e imagens lisergicamente pacificadoras de alma…
Já na entrada do MIS, suas pilastras brancas colocadas lado a lado e formando um corredor, deixam a impressão no ar que estamos entrando em outro mundo. Milimetricamente dispostas como se fossem flores de concreto que recebem os iluminados. E não é pretensão hypesteriana dizer que as pesssoas presentes ao show da cantora SÓLEY e o grupo SIG FANG BOUS (projeto solo do criador da sensacional banda islandesa SEABEAR, Sidri Mar Sigfusson) foram merecedoras do adjetivo apenas dado à Daniel Torrance. Mesmo porque existia um clima sacro no ar interno do museu, talvez devido à presença de um certo reverendo…..
Apesar dos preços acessíveis (R$ 80,00 a inteira e R$ 40,00 a meia entrada), o número de pessoas era reduzido dentro do espaço. Obviamente que shows com o início marcado para as dezenove e trinta da noite em uma quinta feira, não são os mais procurados pelas audiências. E mesmo as atrações sendo expoentes de uma safra brilhante da sempre surpreendente Islândia, o clima era intimista e quase bucólico.
Poucas pessoas tomavam bebidas destiladas em canudinhos que aspiravam diferentes cores rodeadas de cubos de gelo transpirando um caleidoscópio de movimentos dentro dos copos. Para cada boca, uma cor específica e início de uma experiência sensorial que apenas terminaria com o último acorde.
O show realizado dentro do pequeno auditório, revela logo na entrada sua condição de experiência ludovicana. Assentos simetricamente dispostos e rodeados por degraus que permitiam armadilhas ao caminhar, esperavam sorridentes o descanso dos corpos da platéia que já colocava-se em seus lugares.
Tudo com tanta calma e silêncio, que nem ao menos parecia que em minutos entraríamos no mundo de dois músicos que tem em sua gênese musical o mesmo núcleo (Sóley e Sidri são comparsas no Seabear) e que são idolatrados pelos fãs da banda, devido à mistura lisérgica de acordes com tonalidades variantes entre a experimentação e o palatável (e por que não dizer pop, afinal de contas essa palavra quando bem realizada pode gerar maravilhas).
Mas quando separados, esses dois super gêmeos da liga islandesa da justiça (que ainda conta com a participação de Björk e Sigur Rós) revelam uma faceta muito mais complexa e de talento ímpar dentro do mundo dos sons. São sonetos decassílabos reverberados dentro de uma difusão sensorial que não contém apenas um sentido exposto como osso solto. Tanto no show de Sóley, quanto a banda Sig Fang Bous a experiência sensorial é completa.
E tudo inicia-se com quase uma hora de atraso, por meio de um olho postado no telão ao fundo. Como uma instalação de Andy Warhol, onde não existem diálogos e apenas uma imagem que lentamente realiza movimentos pleonásticos, o verde íris que recobre uma retina vedada por uma lente de contato, intimida. Esfinge que encara a platéia como se indagasse à todos se estão ou não preparados. Ao mesmo tempo que desafia, esse olho é um aviso para que não apenas os ouvidos fossem utilizados. Na presença de poucas luzes dentro do palco, seus olhos necessitavam permanecer atentos.
Sóley entra vagarosamente no palco, como uma menina em seu primeiro dia no colégio, apenas munida de seus óculos cartunescos. Para, olha ao redor e dá boa noite em inglês. Inicia então uma série de frases em sua língua nativa que parece ter sido retirada de algum filme de ficção científica. Mas se existe uma característica no dialeto islandês, essa é a métrica poética que as sílabas apresentam. Todas as frases que são ditas parecem claves de sol. Isso explica a beleza nas composições que mesmo cantadas em inglês, possuem o sotaque de nascimento. Ela apresenta-se e inicia o show, ao fundo uma projeção que revela um caminho.
As luzes vão diminuindo até o momento em que apenas pode-se ver a paisagem bucólica sendo percorrida pela câmera. Por instantes a figura anatômica da cantora desaparece e ressoam pelo ar os tímbres vocais que de imediato lembram Björk, tanto que em várias notas mais altas a semelhança é palpável. Mas Sóley como mostrado na projeção percorre outro caminho. E com um passe de mágica da menina maga que por muitas vezes parece perdida dentro do espaço do palco, estamos imersos dentro do som.
Na verdade nesse instante nossos corpos estão em outro lugar dentro da projeção, rodeados de sons mágicos que misturam bases pré gravadas podendo ser às vezes apenas palmas marcando a melodia. Ela usa as nuances eletrônicas com canções que percorrem os caminhos do clássico a mais doce melodia infanto juvenil (como no caso da canção “”Rabbit”"). Mas não são apenas as notas lindamente tocadas que emocionam a platéia, Sóley encanta quando timidamente conta histórias sobre a estadia em São Paulo ou a composição de uma canção inédita (vídeo abaixo).
A experiência é completa, ouvidos, olhos, sorrisos e almas são levados em estado de pura eletrônica lisergia hipnótica, que por muitas vezes conseguem marejar os mais experientes olhos. Mesmo sendo um show curto, transportou a todos para um outro lugar muito distante do espaço pequeno do teatro. Levados em nuvens de ébano e marfim por caminhos cheios de sorrisos tímidos e óculos cartunescos irressistíveis.
Mas não bastava chegar ao sublime, era necessário manter-se. Entra em cena então Sidri Mar Sigfusson. Ele e a menina que à pouco havia levado as almas na platéia para um passeio juntam-se e mostram o porque da banda Seabear ser catapultada como uma das mais talentosas dentro do cenário, inclusive com canções colocadas como trilha sonora de seriados famosos.
“Cold Summer” torna-se inesquecível dentro da metade do show. Não havia uma intensidade messiânica dentro da apresentação, muito menos a necessidade de destilar hits. Apenas simples notas que fundiam um pouco cada pedaço de corpo e ventrículos por entre os entrecantos de cada acorde. Tudo isso desencadeando um dos momentos mais bonitos da noite que você acompanha agora….
Após a pausa de quinze minutos, entra em cena a SIG FANG BOUS. O quarteto complementado por Sóley no piano mostra que é possível a mistura de referências diversas dentro de canções, o que para qualquer ouvido desatento soaria como um pop rock acima da média. Engana-se quem tentar decifrar o som da banda por esse caminho, afinal de contas existem referências nítidas ao som de Fleetwood Mac (o SFB já regravou “”Landslide”" da banda americana), Neil Young e Radiohead. Mas também não adianta relacionar o som da banda islandesa com as suas referências diretas. Mesmo o guitarrista da banda lembrando-me muito Johnny Greenwod e a busca incessante pelo efeito de pedal perfeito.
As canções da banda transitam em uma faixa que percorre o mais puro e cerebral pop universal e isso não é pejorativo ou diminutivo do som. Durante todo o ano de 2009 vimos uma banda como o Phoenix tornar-se venerada pela mistura de canções que eram poderosamente sonoras dento do gênero inaugurado pelos Strokes em 2000. O rock dito alternativo levado para o lado do mais acessível e riffeiramente grudento. Canções com o apelo do gênero, mas com uma alta concentração de sinapses inteligentes, mas com o SFB o jogo atinge um outro patamar….
Não existem saídas pleonásmicas para as canções, um refrão que começa inicialmente comum não terminará encontrando a próxima estrofe, mas sim uma conjunção assimétrica de novas notas que possuem um poder de confundir os ouvidos tão grande quanto o de hipnotizar. Diferente de músicas que à duras penas tentam parecer inteligentes despejando uma britadeira de lisergia envolta em guitarras e distorções. As canções do projeto solo de Sidri possuem vida própria as vezes, pois tem-se a impressão em vários momentos que a banda deixa-se levar por onde a ordem dada pelos acordes à leva. Sem amarras ou cartas marcadas.
Outra diferença é a intensidade matemática que a banda de apoio possui. Muitas vezes parecem em transe e tocando mantras xamânicos, que sempre encaixam-se na melodia do violão de Sidri. Outras vezes destoam da linha reta e fazem voltas sinuosas cheias de distorções e tempos cortados de bateria e baixo. Isso tudo apenas reforça a idéia de que a beleza das canções está no momento da descontrução das mesmas, em um local onde a platéia é capaz de sentir cada pedaço de seu corpo ser absorvido pelas melodias.
O show dessa quinta afirmou certezas e fez novos admiradores. Não foi necessário um palco de 360º, parafernálias eletrônicas, coreografias ensaiadas antes com a platéia. Sons profundamente belos como agulhas quentes que marcam uma pele deixando marcas de vida para sempre e algumas imagens foram necessárias para que a experiência fosse completa. Arrebatados pelos ouvidos, levados pelos olhos e salvos pela fusão de alma com a beleza das notas, todos nós saímos do MIS nessa quinta um pouco mais humanos. E por que não usar a palavra felizes…..
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ago 1st 10
Postador por Virginia Serra em Resenhas, Shows
A noite começou agitada. Não sei porque cargas d’aguas achei que assistir A Centopéia Humana antes do meu primeiro trabalho de cobertura jornalística musical seria uma boa idéia. Não foi.
Mas isso não vem ao caso não é mesmo? Ontem, 31 de julho de 2010, aniversário de sete anos do Outs, lá estava eu pra ver o show de Café, Cigarros e Materiais Elétricos, Pain in the Brain e Aurélio e Seus Cometas.
Café, Cigarros e Materiais Elétricos
A primeira banda a tomar o palco foi Café, Cigarros e Materiais Elétricos. Integrantes um pouco mais velhos, claramente mais experientes, mostraram um rock de boa qualidade e entreteve a platéia ao ponto de propiciar uma dança da bundinha ao som de “Play That Funky Music”. Não tinha como negar o talento dos musicos, principalmente do baterista. Eis que estou escrevendo esse texto e descubro que o vocalista é chefe de um amigo meu. Continuando…
Depois veio a Pain in the Brain, pain de fato. Não é o estilo de música que me apetece, rock pesado, gritos guturais, integrantes de cabelos compridos precisando urgentemente de um shampoo anti-frizz, mas enfim, o escasso público da casa pareceu curtir. O que me sobrou do show foi um ouvido chiando.
Finalmente, lá pelas altas horas da madrugada entra a clara estrela da noite. Aurélio e Seus Cometas. Acho que agora entendo o porque do nome da banda… e me refiro ao sentido astronômico da coisa. Logo de cara o vocalista já vai chamando o público, distribuido preguiçosamente no já pequeno espaço da casa, para perto do palco. Não que fosse necessário. A presença da banda é magnética. O carisma exalado do vocalista de cabelos vermelhos é contagiante. Não nego que sorri o show inteiro e não porque, no meio do show, Emir constatou que seu zíper estava aberto.
Aurélio e seus Cometas
A banda, é formada por Emir (guitarra e vocal), Pedro Nogueira (baixo) e Mogli Kid (bateria). Fundada em 2006, gravaram dois discos, A Incrível História de Aurélio & Seus Cometas e O Clube dos Descontentes.
O momento alto da noite com certeza foi quando tocaram seu maior sucesso, que dá nome ao segundo disco, “O Clube dos Descontentes”, com direito a coro do público e tudo. E olha, se o entusiasmo do público presente servir de amostragem, a banda fará muito sucesso.
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jun 16th 10
Postador por Marcos Xi em Resenhas, Shows
Texto: Marcos Xi Fotos: Juliana Ribeiro Veja Mais Fotos Aqui
Nunca uma noite chuvosa e o tempo frio foram tão convidativos para contemplação de uma apresentação musical. As luzes do nobre bairro de Botafogo guardavam um caminho da distração no término do final de semana. Thiago Pethit está de volta à cidade.
Dos cabarés antigos que já reinaram no Rio de Janeiro, pelo menos em forma e sentimento, a casa de shows Cinemathèque é a que mais se aproxima da atmosfera retrô tanto desejada para o primeiro show solo de Thiago Pethit em terras de São Sebastião. O jovem e simpático cantor nos recebeu horas antes do show, mesmo sem entrevista marcada, abrindo a porta dos bastidores de sua apresentação.
Thiago sutilmente opina em tudo, incluindo as sessões instrumentais que Pedro Pena (ukulele e violão de aço) produz, no intervalo entre a percussão e bateria em uma música e no que mais não o agradar, deixando tudo o mais orgânico possível e ainda abrindo espaço para palpites que os outros instrumentistas dão, num espaço democrático regado a um chá quente, para aliviar a garganta após um show no dia anterior, feito embaixo de um ar condicionado mal posicionado.
No palco, em frente a cadeirinhas com mesas propostas como em grandes teatros para convidados, Thi (como todos o chamam) rege a si mesmo com movimentos esvoaçantes, sempre à frente do pedestal e ora interagindo com os músicos, o levando a explorar um pouco mais os lados do tablado. O repertório leva as 11 canções presentes em Berlim, Texas, mais “Essa Canção Francesa”, originalmente cantada com sua amiga e a pessoa que indicou o Cinemathèque, Tiê e outras duas inesperadas versões: uma de “Bad Romance” da Lady Gaga (voz e piano solo de Pethit) e “Please Don’t Go” (clássico do KC & The Sunshine Band) – e ainda tiveram pessoas pedindo outras não tocadas, como a ótima “Low Lights”.
Thiago aproveita para explicar detalhes da produção do álbum e seus porquês, como a semelhança proposital entre “Não se vá” e “Don’t Go Away”, ou a questão cabaret presente na música de Lady Gaga. Entre uma canção ou outra, ele também derrete-se em elogios para casa, dança e toca uma meia-lua. Vale frisar o aparato de percussão liderado por Guga, o baterista titular da turnê e o tímido público que aos poucos vai se soltando, até que na última música monta-se em um coral uníssono agraciando “Mapa-Mundi”, canção final da apresentação.
Em resumo, a beleza da apresentação está em cada passo de Pethit no palco, na simplicidade do artista para com o público e na necessidade pessoal de mostrar o melhor espetáculo possível dentro do orçamento de um músico independente movido pela arte, pela vontade e pela força máxima sentimental conhecida: a música.
Texto: 2tdias Fotos: Diego Soares Veja maisfotos aqui.
Cachorro Grande, destaque da primeira noite
O que se viu no último fim de semana em Belo Horizonte foi uma verdadeira overdose de eventos musicais. De apresentações dos gringos do UFO aos jazzistas norte-americanos na praça da Liberdade, houveram eventos para todos os tipos de público.
Dentre as muitas opções, a que mais se destacou foi a que o selo 53HC produziu e armou no palco do Music Hall, a fênix das casas de shows mineiras. Famosa por ter um dos melhores ambientes acústicos da capital mineira, foi uma escolha acertada para sediar os dois dias da festa do Flaming Festival.
Os eventos anteriores costumavam ser realizados quase que exclusivamente no Lapa Multishow e a troca pode ter causado um certo estranhamento inicial no público mais cativo, mas foi só a primeira banda começar a tocar para que ficasse comprovado que o Music Hall casou perfeitamente com a energia de um bom show de rock alternativo. E não foram poucas as atrações: Mombojó, Cachorro Grande, Copacabana Club e Canastra foram os nomes fortes do festival, que contou ainda com pratas da casa como os garotos do Utopia!; o The Hells Kitchen Project; Fusile; e o country rock do The Folsoms.
Utopia!
Aliás foram essas bandas que deram um verdadeiro show de iniciativa e determinação de tocar. Quem acompanha eventos independentes sabe muito bem que ser responsável pela abertura de um evento não é nada simples. Quase sempre se toca para um público apático e isso na melhor das hipoteses, já que normalmente as pessoas ficam do lado de fora e só entram na casa quando a banda principal começa a tocar.Tanto o Utopia! quanto o Folsoms conseguiram arrastar muito mais que os amigos e as namoradas para acompanhar o show. E o resultado não poderia ter sido melhor.
A noite de sexta começou quente. Um bom público já marcava presença na fila antes mesmo do horário marcado para o começo dos shows. Os jovens mineiros do Utopia!, um quarteto de indie rock que consegue mesclar influências de Radiohead, Arctic Monkeys, Los Hermanos e Incubus em um único e coeso projeto, fizeram uma abertura incendiária e que agradou bastante.
The Hells Kitchen Project
Há cerca de três anos a banda ainda engatinhava (mas sempre com uma qualidade inegável) pelos cenários underground de Belo Horizonte com suas excelentes covers de Strokes e Arctic Monkeys. Hoje já conseguiram fortalecer o nome e ser uma referência na música independente mineira. E o melhor de tudo, sem perder nenhum pouco o carisma e um pouco de atitude inconsequente (nunca vou lidar direito com pessoas que sobem na bateria e agem como se estivesse tudo bem e equilibrado) que fazem o show do Utopia! ser sempre divertido.
O The Hells Kitchen Project é uma banda mais antiga e que tem o diferencial de contar apenas com bateria e baixo. Não por acaso, a cozinha da banda é mesmo infernal e as músicas dançantes contagiaram o público. E para os puristas que defendem a presença de guitarra em uma banda, é melhor rever conceitos e escutar o som dos caras.
Fusile
O Fusile foi a terceira atração da primeira noite e uma agradável surpresa. Depois de conferir as duas primeiras apresentações e sentir toda aquela vibe boa que só encontramos em um evento desses, não foi tarefa difícil para a banda conquistar o público. Com um som vibrante que poderia ser classificado como o verdadeiro punk cigano que é usado para descrever o ritmo do Gogol Bordello, a mineirada acertou em cheio na dose e saiu de lá com um saldo positivo.
O clima estava tão bom no sabado que até mesmo o som do Copacabana Club, a atração seguinte, conseguiu chamar a minha atenção. Foram alguns “encontros” ruins e que soaram esquisitos demais para os meus ouvidos, mas que conseguiram (finalmente) quebrar o gelo e mostrar que eles são bem mais que “Just do It”. O destaque da apresentação ficou por conta das linhas de baixo do músico Tile Douglas (a vocalista também deu um show a parte, mas a Camila é de outro mundo mesmo). Parafraseando a turma do Cachorro Grande, o show do Copacabana Club foi mesmo uma verdadeira aula de dance music e serviu para me fazer esquecer as apresentações antigas e esperar ansiosamente pelas próximas.
Cachorro Grande
O encerramento ficou por conta dos gauchos do Cachorro Grande, a banda mais esperada da noite. Acompanho pouco o trabalho dos caras, que no dia seguinte abriram a apresentação do Aerosmith em São Paulo, e o que pude conferir no palco foi um show empolgante e sem grandes firulas. Tocando seus maiores sucessos e regendo o público com maestria, a banda do vocalista Beto Bruno detonou.
Destaque para as clássicas “Você Não Sabe o Que Perdeu”, “Hey, Amigo” (responsável pela maior roda da noite) e a balada “Sinceramente”, que mostra um lado bem diferente da habitual baderna sonora da banda. O encerramento ficou por conta de uma cover irada de “My Generation” do The Who.
Seria necessário um longo preâmbulo para analisar o show do Mombojó na 53HC no sábado (29/05/2010). É desnecessário afirmar que a apresentação da banda foi de longe o ponto alto da noite; ela era a grande atração do festival. Por isso havia, claramente, além do desejo de vê-los, a apreensão de como soaria ao vivo a nova formação. Como era inevitável, a banda perdeu bastante de sua riqueza musical. Há sempre a impressão que falta algo, uma reação normal para os já iniciados. O lado positivo é que o Mombojó continua sendo, de muito longe, uma das mais interessantes bandas do país.
Como parecia óbvio, uma das formas de contornar os problemas, foi agregar peso às músicas (processo que, sejamos sincero, começou com o Homem-Espuma). E assim Felipe S., o vocalista, passa também a tocar guitarra. Além disso, Chiquinho, que faz o teclado e o sampler, tem que se desdobrar no seu computador. O resultado convence, não é a banda com que as pessoas se acostumaram, mas é competente até o último fio de cabelo.
Um show do Mombojó é sempre uma experiência gratificante pelas diferentes sensações produzidas. Ao contrário de apresentações sem variações, monocórdias, idênticas do início ao fim (estou olhando para você Vanguart), a banda recifense permite que numa mesma noite o público experimente o rock, o samba, o suingue, o funk, o dub, o melódico, muitas vezes na mesma música. Por esse motivo, assistir à banda sempre leva a uma atitude mais ativa, menos cômoda. As pessoas devem (ou pelo menos podem) sair de seu lugar passivo, prestando mais atenção ao que é tocado.
Começando de forma serena com “Duas Cores”, logo a banda mostrou o peso em músicas como “Realismo Convincente” e “Faaca”. Mas os momentos mais interessantes do show (não necessariamente melhores) foram a execução de “Swinga” e “Pára-Quedas”, nas quais o público dançava de acordo com a quebra das músicas, demonstrando a pluralidade da apresentação.
O próprio encore, que é o que existe de mais irritante nos shows, por sua artificialidade, foi interessante, com a banda saindo um a um do palco, ficando apenas o baterista Vicente, que por fim sai também, embora a música continue (lembrando o Kraftwerk), o que leva a pensar (o que é sempre difícil em um show) sobre o conceito de artificialidade de uma apresentação que se utilize tanto de computadores.
Porém, o destaque fica mesmo com o desempenho das músicas antigas, principalmente “A Missa” e a já clássica “Deixe-se Acreditar” (esse epíteto, aliás, não é gratuito; inúmeras reportagens, principalmente sobre esportes radicais, usam a introdução da música, sendo o riff conhecido por muito pessoas que nunca ouviram falar da banda) que cativaram o público, levando-o ao delírio.
Se a ausência dos dois membros realmente traz uma perda, o guitarrista Marcelo e o baixista Samuel seguram bem a onda, imprimindo uma energia que muitos críticos dizem que o Mombojó não possui. A performance enlouquecida de Felipe S. e da banda ao final de “Deixe-se Acreditar”, e do show, demonstra como a banda ainda tem muito a oferecer (e a fazer) à música brasileira. Ainda que soando diferente, o Mombojó, e aqui me entrego ao clichê, ainda são os monarcas do reino da alegria.
Texto: Marcos Xi Fotos: Juliana Ribeiro
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Em cada proporção, a noite era de divas. Se de um lado, a musa cool brasileira segurava um microfone da clássica época que as rádios dominavam a comunicação no mundo, a atração principal trazia jovens que deveriam ter 8 ou 6 anos quando seu primeiro álbum foi lançado. Era um domínio feminino musical em cima do palco tradicional da Lapa, onde o poder das gatas estava com uma loira e uma moça um pouco mais ‘fofa’.
Para quem ia chegando, não se esperava ver o Circo Voador lotado. O Oneyedcats – banda de Clarah Averbuck – tocou para uma ainda tímida e vazia platéia, enfrentando conversas altas e desrespeitosas ao belíssimo som que o quinteto produz. Clarah propôs um Jazz refinado e sensual, só perdendo ao fato de, mesmo com a roupa de gala e um som ao estilo ‘trilha sonora para amores tórridos’, resolveu trocar uma usual taça de champagne por um copo de plástico com cerveja barata.
Assistidos de perto pelo produtor Rafael Ramos (cabeça pulsante da Deckdisc e seu novo selo, o Sempre Vigilante), elevaram ao clima dos restaurantes finos de Nova Iorque e surpreenderam uma platéia que, em maioria, nem sabia que teria um ato de abertura ao show principal. A voz de Clarah não chega nem perto das divas do Jazz, mas é sensual e tem a presença certa no palco. Os arranjos que a banda inseriu nas letras de sua vocalista só nos deixam desejosos pela espera do álbum debutante do Oneyedcats, esperado para esse ano ainda.
- Leves passos, como as pétalas de margaridas; suaves melodias com cara de pedidos de desculpas.
Os Djs do coletivo Pitada alegravam o público com Feist e Beirut, The Whitest Boy Alive e Interpol, enquanto as luzes iam se apagando. Lá fora, começava a cair uma chuvinha fraca, dando o clima perfeito e intimista que a noite pede. Entram os únicos integrantes da banda nessa turnê: o tecladista Gregg Foreman e o guitarrista Judah Bauer. Os burburinhos se dissipam e os namorados se juntam. Começa “Don’t Explain”, para aí sim, sob intensos aplausos, Cat Power iniciar o show que há um ano atrás deveríamos ter visto.
Chan Marshall desfila de uma lado para o outro, com um visível sorriso e alegria de estar em terras cariocas sem ter a pressão e responsabilidade de entreter uma platéia alheia ao que era mostrado no palco, como foi na turnê passada. Seus pés mal saíam do chão, fazendo algumas vezes um ‘moonwalk’ singular, além de cantar diretamente virada para o público, sem escolher um único canto para representar seus sentimentos musicais. Suas mãos e corpo desenham no ar movimentos não muito condizente com a letra na qual é cantada, mas com ares de sensualidade e parte tocante de toda a presença sentimental que tem no palco.
No repertório, canções de várias épocas de sua carreira e foco nas doces versões que compõem seus últimos petardos, Jukebox e Dark End of The Street, alguns acompanhados por gritos histéricos e cantos da platéia, como “The Greatest”, “Sea of Love” e “Satisfaction”; outros por simples palmas, como em “Silver Stallion” e “Metal Love”. Em “Anjelitos Negros”, seu conhecido perfeccionismo acabou por prejudicar um tanto a apresentação, ao forçar que a banda aumentasse o sentimentalismo e o clima, enquanto brigava , em inglês e espanhol, com o iluminador do Circo Voador para que ele ligasse a luz da platéia. Foram 5 minutos assim.
Aliás, a tradiconal casa de show carioca conseguiu tirar uma qualidade de som surpreendentemente ótima para abrigar os fãs muitas vezes inconseqüentes que estiveram naquela aconchegante noite. No início do show, em bom português, algumas fãs gritaram a pejorativa palavra “gostosa” bem embaixo de Cat Power – mais de uma vez; não satisfeitos, um outro coro chato e insistente pertubou a paz do recinto com repetidos pedidos de “Please Play Guitar”, negado veementemente por Chan e posteriormente desaprovado pelo restante da platéia, com um belo “Please Cala a Boca!”. Cat ainda recebeu – com uma expressiva felicidade – um presente do público, estendeu por várias vezes a mão para aqueles que estavam mais a beira do palco e terminou o show com uma distribuição de margaridas – muito bonitas e cheirosas – ao público.
Apesar dessa triunfante volta às terras de São Sebastião, senhorita Chan Marshall encontrou alguns momentos de apatia no recinto devido às baladas densas e longas demais, pediu desculpas e, mesmo constando no setlist oficial, não se permitiu dar-nos um bis ao fim da noite – talvez pelo fato do show há um ano atrás ter sido o maior da turnê, talvez para terminar de maneira bela, hipnotizante e apoteótica, num final que respeita a qualidade de sua apresentação e sua contribuição a música mundial.