Muita gente pergunta qual o melhor programa para o fim de semana em Belo Horizonte. No último fim de semana, caso alguém mais (além da minha mãe) resolvesse me perguntar qual seria “a boa” da noite, não iria hesitar em mencionar a 12 edição da tradicional festa Flaming Night no Lapa Multshow. Quem optou por acompanhar as apresentações dos goianos do Black Drawing Chalks, destaque da noite e dos curitibanos do Copacabana Club, que tinha cacife para ser o outro nome da noite, pode experimentar um pouco da loucura causada por altos níveis etílicos no sangue. E por incrível que pareça, eu não estou me referindo ás performances das bandas.
Devido a um problema interno, que foi resolvido graças á boa vontade do Bart, o organizador e mente por trás d0 evento, foi meio impossível conhecer o som dos conterrâneos do Fusile, que abriram a noite. A casa estava começando a encher no momento em que a banda tinha a ingrata missão de aquecer o público. Espero ter uma nova oportunidade em breve de conhecer o som da banda (não, eu não gosto de conhecer bandas pelo myspace) e descobrir mais um talento musical na cidade dos butecos. Não são poucos e vocês sabem. Logo depois, e devidamente posicionado próximo da mesa de som, foi a vez dos paulistas do Firebug lançarem suas empolgantes canções de pegada reggae. Animou até mesmo os desprovidos de ginga natural, que entre um copo e outro de cerveja, dançavam como autênticos bonecos de Olinda. Estava preparado o terreno para o Black Drawing Chalks fazer o Lapa pegar fogo.
Sei que muita gente deve estar cansada de ver resenhas do (sempre) excelente (mas excelente mesmo) show do Black Drawing Chalks aqui no Rock in Press e em praticamente todos os sites/blogs sobre música independente do Brasil. Se eu tornar a falar que a apresentação dos goianos é um verdadeiro tapa sonoro na orelha, irei revelar toda a minha já evidenciada limitação mental. Adultos não costumam gostar (conscientemente) de repetições e não quero ter que dar crtl + c e crtl + v em meu próprio texto, portanto resolvi arriscar. Ao invés de observar atentamente a apresentação da atração principal da noite do tradicional e bem posicionado local próximo da mesa de som, me infiltrei bem no meio da muvuca. No meio da confusão, dos moshs e de uma avalanche humana de stage dive.
Muitos jovens se empolgaram excessivamente durante a apresentação energética do Black Drawing Chalks. Dentre eles, um jovem sorria ao exibir o próprio óculos destruído para um amigo. Outro começou a agir como se o braço fosse uma hélice de helicóptero, o que acabou gerando um quase começo de briga generalizada nas rodas, que não ficaram devendo em nada para as clássicas (e amigáveis) rodas no show dos cariocas do Matanza. O problema dos moshs são justamente as pessoas que acabam batendo de verdade e ignoram a presença de meninas (ok. sei que o Copacabana Club é uma banda para meninas, de todos os tipos, mas não importa. Abriram a porta do paraíso e o resultado foram várias beldades desfilando no Lapa) no meio de marmanjos barbados. Porém nada superou o momento em o primeiro maluco resolveu subir no palco e se jogar no público. Tudo começou timidamente, mas logo todos começaram a imitar o gesto. A banda virou atração de segundo plano e dentre os vários mergulhos, se destacou uma menina pequenininha que demonstrou não ter medo nenhum de se espatifar no chão e se jogava repetidas vezes, chegando inclusive a ser puxada pelos pés por um segurança sem noção.
O que era a diversão da maioria, acabou virando pesadelo para uma outra menina, igualmente louca. Logo depois de uma pausa na apresentação por conta da destruição da pele da bateria (isso com menos da metade do show rolando) e já com Chuck Hypolitho tocando junto da banda (o que ninguém percebeu quando exatamente aconteceu), uma loirinha subiu rapidamente no palco e com a mesma velocidade se jogou no meio do público distraído. O resultado foi desastroso, visto que pessoas não nasceram para “kikar” no chão. Mais uma pausa e dessa vez com direito a zoação da banda: “Seus malandros! Na hora que é cueca vocês seguram, né? Mas quando vai a menininha todo mundo abre a roda. Cadê os homens???”. Resolvido o problema (e com a bela jovem devidamente encaminhada para o hospital mais próximo), o show continuou a todo vapor. Lugar comum dizer que “My Favorite Way” foi o ponto alto da apresentação, elogiadíssima por um animado gringo que chegou até mesmo a comparar o show do Black Drawing Chalks com Metallica e Mastodon.
Quando o Copacabana Club entrou no palco, o público já era bem diferente daquele que agitava freneticamente a pista do BDC. O nível etílico já estava drasticamente reduzido e um verdadeiro arsenal de mulheres se encaminhavam para a primeira fila do concorrido show dos curitibanos. O Lapa virou boate e o grupo liderado pela sensual Caca V logo exibia seu maior sucesso “Just do it” para a alegria dos fãs e das mulheres lindas da cidade. Não era o meu caso. Mesmo acompanhado de uma dessas mencionadas mulheres, não consegui entrar no swing da banda paranaense. ´E como se faltasse alguma coisa, se fosse um daqueles shows que só valem a pena assistir uma vez na vida e depois não tem nada de novo. Talvez o Copacabana Club seja indie demais para mim; ou então estou velho demais para aceitar (e gostar) da filosofia da Flaming Night, que é justamente misturar estilos diferentes em uma noite escaldante no Lapa. Da próxima vez terei uma resposta, até lá o Copacabana Club será a banda de uma (divertida) música só. E com uma vocalista sensacional.
O saldo final é de uma apresentação incrível do Black Drawing Chalks totalmente ofuscada pela loucura inconsequente de seus fãs, que afinal fizeram o show valer a pena. Agora é só esperar pela próxima edição e degustar de novas frequencias agradavelmente agressivas para o bom funcionamento de nossa audição.
Mais de 30 mil pessoas reunidas debaixo de chuva na apoteose e acreditem se quiser não era carnaval, era o efeito “Life in Technicolor”. Coldplay e convidados chegaram a Apoteose no último domingo com a missão de fazer com que todo o sacrifício das pessoas ali presente valesse a pena. Para quem esperava ver um “Just a Fest II” se decepcionou e muito, mas para quem queria ver mais do mesmo saiu muito satisfeito. A banda inglesa levou para a apoteose seu “Grande” espetáculo enlatado, onde todos já sabiam como e quando as coisas iriam acontecer, porém, é claro que ninguém consegue tirar o encanto e a magia do ao vivo e a cores.
A ótima organização do evento mesmo com toda a chuva conseguiu acabar rápido com a fila que se formou do lado de fora da Sapucaí, e obrigando todos respeitarem a mesma. Em menos de uma hora todos já estavam acomodados e aguardando os shows, acomodados entre aspas, por que a segregação social nunca foi tão clara em um show. Com uma imensa e vazia pista vip, os reles mortais se matavam por um lugar melhor atrás. Os pontos negativos não ficaram por aí, a péssima montagem de som fez com que as duas primeiras apresentações fossem extremamente prejudicadas, provocando a insatisfação visível do público.
Os primeiros a subirem ao palco foram os meninos do Vanguart, super-travados e com problemas de som visíveis, os matogrossenses fizeram um show nada empolgante. Prestando muito mais atenção na técnica do que no público, o Vanguart assumiu que os espectadores eram do Coldplay e preferiu não conquistá-los. Com poucas palavras e menos animação ainda a banda não empolgou nem com “Semáforo”, suposta música “super” conhecida deles. Mas como ninguém está a se apresentar com a finalidade de ser bobo da corte, o show foi válido e podemos dizer que sim, de qualidade.
A segunda a subir ao palco foi a incrível cantora britânica Natasha Khan e seu codinome Bat for Lashes, e ao contrário dos anteriores converteu todos os pontos técnicos negativos em muita espontaneidade e simpatia com o público que a recebia. Com todos os seus ritmos extravagantes, suas batidas intensas e uma música literalmente viajante, Natasha conseguiu empolgar um público que até então desconhecia por completo suas músicas. Seu carisma e animação do palco realmente conquistaram o público, e após ter deixado as duas melhores músicas para o final “Prescilla” e “Daniel”, a cantora deixou a apoteose sob uma intesa chuva de aplausos.
Por falar em chuva, a mesma se intensificava a cada instante, levando todos a aguardarem pela atração principal sob suas capas e seus guarda-chuvas (opa, que feio, atrapalhar a visão do coleguinha). Foi sob muita água que ouviu-se o som de “Life in Technicolor” arrebatando toda a multidão a espera da banda inglesa que entrou cantando “Violet Hill” como já esperado na setlist. E na sequência para não ficar pra trás os cariocas não quiseram saber se ainda não era aniversário do vocalista e desencadearam uma sequência de “Happy Birthday to you” ao fim de “In My Place”.
A sequência foi como o já programado: imensos balões quicando sobre nossas cabeças em “Yellow”, muita emoção em “Glass of Water”, fogos de artifícos em “Fix You”, bolas de festas chacoalhando em “Strawberry Swing”; a única diferença foi que logo após “42” não houve a canção “Cemiteries of London”. Como já programado também, na sequência os britânicos se dirigiram par um palquinho à esquerda aonde apresentaram a ótima sequência “God Put a Smile Upon Your Face”, “Talk”, e “The Hardest Part” ao som do piano, completada com “Podcasts From Far Away”.
De volta ao palco principal chegou o momento que todos esperavam, todos unidos um só coro cantavam a letra mais fácil da banda: Uooooôouooooô! Era chegada “Viva la Vida” e toda sua empolgação levando o público ao delírio, seguida da também animada “Lost”. Em seguinda se dirigindo para o palco da direita, a banda fez uma pequena mudança na setlist, cantando “Shiver” no lugar de “Trouble”, seguida de “Death Will Never Conquer” e da inédita “Dom Quixote”, que já havia sido apresentada em Buenos Aires.
O primeiro bis como programado ficou por conta de “Politik”, “Lovers in Japan” e “Death And All His Friends”, com destaque para a tradicional e muito bonita chuva de borboletas em “Lovers in Japan”. Para o segundo bis a banda trouxe a emocionante “The Scientist” e as lindas pinturas de “Life in Technicolor II” e após despedirem-se ficamos ao som de “The Escapist”.
Sendo assim, o que vimos não foi o melhor show o ano, nem tão pouco uma sequência de shows que chegarão aos pés de “Just a Fest”, porém foi um espetáculo muito bonito de se ver. Sem contar que ouvir Coldplay e ao vivo, a qualquer momento é válido. Mas esperamos sinceramente que este ano traga-nos melhores shows.
* Resenha: Marcos Xi
*Fotos: Juliana Ribeiro
*Edição: Willian Decottignies
- O Rock, a tradição e suas certezas.
O Rock n’ Roll já foi um estilo elitista e já sofreu dos preconceitos de uma sociedade cabeça-dura e moralista. Hoje em dia, o estilo musical ganhou asas e mudou desde sua nascença, mas seja qual for a história, o rock ainda não é uma opção de programa em família. O Grito Rock é o maior festival independente da América Latina e escolheu para sua edição carioca o mesmo palco que a muitos anos atrás um tal de Marcelinho conseguiria o tão sonhado baseado que Tim Maia não conseguiu arranjar. Esse Marcelinho subiu ao palco do mesmo Circo Voador anos depois levando mais uma vez o baseado, mas agora em palavras, com o Planet Hemp.
Mas o foco não são os artistas citados, e sim a maconha. A fumaça subiu alto no primeiro dia de festival, ao som de 5 bandas selecionadas para representar o estilo de vida do rock n’ roll – num formato um pouco mais adolescente. O Circo passou a usar a política de que as suas atrações começarão mais cedo – mas nem atrasando o início dos shows, conseguiu evitar que o peso aliado as flautas do Aumumana e o pop rock de Wander Telles estivessem praticamente desertos. Os artistas exibiram qualidade e beleza nas canções, mas além dos estilos serem bastante diferentes das outras bandas da noite, pedir para os cariocas que cheguem cedo num lugar onde a décadas se produz shows só a partir da meia noite, foi pedir demais.
Sabonetes
- O Novo e o bom da Cena Brasileira.
Com um recém lançado primeiro disco e uma elogiada turnê, os Sabonetes desceram de Curitiba para mostrar seu som no Rio de Janeiro. O público se animou e começou a encher a pista. Os coros vocais muito bem ensaiados e as divertidas e dançantes músicas despertaram a curiosidade de quem nunca havia ouvido o som do grupo, mesmo que o vocalista e guitarrista Artur tenha poupado sua voz e nos deixado sem as puxadas e gritos propostos no álbum, o show empolgou mesmo.
A primeira apresentação do grupo no Rio de Janeiro teve direito até a coro do público no fim do show, em alusão a música “Enquanto os Outros Dormem” que foi tocada um pouco antes do fim e ainda sim lembrada por aqueles que ocupavam a pista do Circo Voador. Houve quem abraçasse a namorada na balada “Hotel”, quem cantasse junto na fácil “Nanana” e os que dançaram sem parar no single “Quando Ela Tira o Vestido”. Um ótimo show que acabou perdendo um pouco a força perto do final, mas valeu muito pela qualidade, mesmo que o já conhecido som ruim da casa e o pouco tempo de show não permitissem a execução na integra do álbum de estréia do quarteto.
Banda Tereza
Surpreendentemente, a pista começou a lotar. A banda Tereza fez jus ao fato de ser a penúltima a tocar na noite e, embalada pelos numerosos fãs fieis e seguidores, destilou sua variação sonora num público perplexo – e já embalado pelos ‘bauretes’ fumados – a mesma energia emanada de cima do palco. Aproveitando-se do fato de estar prestes a lançar um EP com 8 músicas no mês que vem, a banda juntou essas canções e mostrou aos presentes a força que já passou por boa parte do país – e foi parar na Argentina.
A arrasadora presença de palco acachapante do vocalista Vinícius “Mullet” Louzada foi um dos grandes responsáveis pela destruidora apresentação. Os som passeava do punk ao country, sem deixar a energia abaixar. O público já sabia as letras e tinha até movimentos ensaiados para certas músicas (como em “Vamos Sair Para Jantar” e “Rádio Recordar”), surpreendendo até o mais otimista ao saber que o grupo só toca junto a apenas um ano e não tem nenhum material oficial lançado. Empolgaram público e até os funcionários, e acabou sobrando para a roadie Marcela Vale a vez de dançar com o grupo em cima do palco do Circo – Marcela, alias, toca na excelente banda Velho Irlandês. Sem mais, a banda Tereza é o futuro da música carioca.
A expressão é: quanto rock! Móveis Coloniais de Acaju e convidados simplesmente deram um show na edição do Grito Rock Niterói. A noite foi marcada por grandes apresentações e uma energia inigualável provando que rock não é apenas um ritmo, mas sim muita atitude. A forte chuva que caia na cidade afastou a galera farofa, levando ao evento apenas as pessoas que realmente estavam interessadas em ouvir o velho e bom rock e todas as suas variações. Dando um clima extremamente intimista ao show e proporcionando uma troca excepcional entre os artistas e o público.
O evento que ocorreu no espaço Hum Grill em Charitas, contou com uma ótima organização e performances realmente empolgantes, sendo aberto pelo característico som do Madre. A banda que conta com um som bem intenso mostrou logo de cara qual era a vibe da noite. A segunda a se apresentar foi a banda Motherfunk e seu som mais que especial. A mistura de rock e soul proporciona um som muito gostoso de ouvir e uma batida ótima para dançar, e a vibe da banda araribóia realmente animou o público, que era só interação.
Motherfunk
Kátia Dotto
Seguindo na onda de soul quem veio para dar uma quebrada no som mais intenso e colocar a galera para dançar foi a cantora Sabrina Ribeiro. Conterrânea da banda Motherfunk, a cantora provou que tem swing no corpo e que em Niterói ainda se curte uma boa Black Music. Entre covers e músicas próprias ela colocou a platéia para gingar e deixou o terreno preparado para todo o experimentalismo que viria a seguir com Kátia Dotto. Contando com uma banda inspirada e com um baterista radical ela realmente colocou a galera para pular e se divertir com o som , que foi do mais original rock’n roll ao denso experimentalismo – com cover da cantora Bjork. Para fechar, a cantora ainda encenou uma música peruana onde provou todo o potencial de sua incrível voz, deixando a todos muitos impressionados com sua performance.
A atração principal da noite o Móveis Coloniais de Acajú falou um pouco conosco sobre as novidades da banda. O baixista Fábio Pedroza contou-nos que o 1º DVD da banda estão na parte de término da mixagem e irão para edição na TV Brasil. O lançamento deverá ser para meados de Junho. Ele também comentou sobre a incrível energia e a diversidade de público na gravação do mesmo. André González nos falou um pouco também da incrível comemoração na recepção dos calouros da USP (no dia anterior ao show) e do engraçadíssimo video de “Adeus de Carnaval”, que de acordo com o vocalista foi extremamente espontâneo e divertido.
Em seguida, os caras do Móveis – que já circulavam pelo lugar durante todo o evento – subiram ao palco e cumpriram sua missão de contagiar a todos que estavam no espaço. Com a energia de sempre, André González e cia começaram com a fantástica seqüência de “O Tempo”, “Descomplica” e “Cão Guia”, todas de seu mais novo CD C_mpl_te. Entre muita Salsa, Ska, Rock e Dub a banda finalmente chegou à performance de “Copacabana” promovendo a tradicional rodinha seguida do empolgante bate-cabeça. O show estava tão empolgante que a banda se despediu por quatro vezes, finalmente deixando o palco no fim da noite ao som de “Adeus”.
Apresentações marcantes, bandas empolgantes e muita mais muita boa música, assim foi feita a primeira noite de Grito Rock RJ. A seqüência de shows agora se transfere para o Circo Voador na Lapa e continua nesta sexta e sábado, com muito rock e atitude.
Lapa, reduto boêmio da diversidade cultural, teve seu representante rock tomando conta da casa que historicamente funciona ao som do Forró, a tão famosa Asa Branca. Essa retomada das guitarras em cima da sanfona e do cavaquinho da Sapucaí, trouxe as camisas pretas de seus representantes com as inscrições “Glass And Glue“, “Zander“, “Black Drawing Chalks” e “Autoramas“, montando assim o segundo dia da festa A Grande Roubada de Carnaval (que no primeiro contou com Zumbis do Espaço, Ratos de Porão e outros).
O público fez uma grande fila do lado de fora e ainda ia chegando à belíssima casa de shows quando, um pouco depois da meia noite, duas belas jovens tomaram os microfones lotados de reverb e começaram a festa das guitarras. O Glass and Glue abriu o festival com poses sexies das vocalistas Marina Franco e Mayana Moura, as guitarras avassaladoras e seguras de Fabricio Matos e Paulo Ferreira, a simpatia da baixista Eliza Schinner e do peso e personalidade do baterista Fabiano Matos.
A animação de quem estava embaixo do palco não se refletia na grande movimentação em cima do tablado, mas a banda conseguiu um bom momento ao tocar versões de She Wants Revange e The Kills, emendando com boas canções próprias como “Time Was Gone” e “Queen of Drama”. A qualidade dos músicos e a boa sonorização da casa, ajudaram o Glass And Glue em momentos como quando o cabo do baixo se soltou em meio a empolgação da baixista e quando o baterista recebeu uma garrafa atirada do público e o objeto caiu em cima da caixa da bateria, atrapalhando a execução da batida. Apesar dos percalços, um bom início para uma grande noite.
Zander é um somatório de bandas clássicas da cena Punk/Hardcore numa proposta de mistura a outros ritmos, como blues e o samba. Os fãs fiéis rapidamente ocuparam a grade e berravam a cada música, a cada letra, e fazendo até moshs improvisados. Houve até aquele que acendeu o isqueiro em “Dialeto”, o que é irônico, já que a música mantém a linha hardcore original.
De longe, parece um Dead Fish despolitizado (ex banda de um dos integrantes do Zander) mas a atitude e as jams de samba e blues desvirtuam do estilo original, e passam a ser o diferencial da banda, ilustrando a criatividade dos músicos. Quem não os conhecia provavelmente foi procurar algo sobre o grupo; quem já era fã, teve mais uma chance de mostrar isso nessa apresentação.
Uma das bandas mais esperadas da noite, o Black Drawing Chalks juntou todo o público na frente do palco e foi direto ao assunto: Rock n’ Roll de primeira como só eles sabem fazer. Animação de sobra, poses, solos, cabelos batendo para todos os lados e uma celebração e culto às guitarras distorcidas. O repertório foi calcado no último álbum, o mais do que elogiado Life is a Big Holiday For Us e ainda sobrou espaço para palavras de agradecimento e explicações.
A qualidade do som da banda é formada por um inquieto baixista de botas vermelhas, uma bateria fulminante e muito criativa, uma voz altamente fora dos padrões – o que é um elogio – e guitarras lotadas de riffs nervosos e inteligentes, onde, no palco, viram caminho para uma forte movimentação dos músicos e delírio do público, principalmente no grande hit e melhor música de 2009, “My Favorite Way” (pela Rolling Stones e o Rock in Press). Ótimo show.
Para encerrar e celebrar o rock n’ roll no momento do samba, o Autoramas interrompeu sua turnê do álbum Desplugado – que saiu para download gratuito pela Trama Virtual - e voltou à sua terra natal depois de uma ótima turnê pela Alemanha. Um show daqueles mesmos profissionais que já alimentam o imaginário indie com suas ótimas danças coreografadas e riffs de guitarra poderosos, fazendo parecer que no palco estão duas guitarras e um teclado, e não apenas a guitarra de Gabriel Thomaz, o baixo da bela Flávia Couri e as baquetas do animado Bacalhau.
Na pista, até quem estava ali para ver outras bandas caiu na dança proposta pelo Autoramas, cantaram junto em “Você Sabe”, “Nada a ver” e “Mundo Moderno”. No final do show, todo o público já dançava em rodinhas de pogo e cantava até as letras que não sabiam, mostrando o porque eles foram a única banda a dar um bis na noite.
No fim, o rock prevaleceu sobre todos os ritmos estranhos que logo em frente à casa brigavam em carros com som. Às 4:30 da manhã, quando a banda deu seu último acorde e os sorrisos deram lugar ao caminho de casa, mesmo que do lado de fora tenhamos que desviar da quantidade monstruosa de lixo e camisinhas usadas, o rock prevaleceu e se fortificou no Carnaval.
___________________________________________
*Resenha por Marcos Xi
*Fotos por Juliana Ribeiro
*Edição de imagens por Roseli Lima
*Revisão por Andressa Muniz e Dayson Ruan
*Obrigado ao Raoni e a Patifaria Produções, as bandas e ao rock n’ roll.
A grande idéia do Carnaval é a bagunça generalizada e desprendimento de regras e ideais. Talvez por isso, a capital carioca se torna um caos ao som de samba-enredo, onde o cheiro perfumado de suas árvores dá lugar ao odor fétido de urina nos troncos e galhos de cada rua, em cada esquina e em cada fim de mundo. Como não existe uma punição num momento onde não existem regras, tive que abaixar a cabeça quando fiquei 1 hora e 45 minutos esperando um único ônibus municipal. Peço desculpas a banda Medulla, pois deixei de conferir a animação avassaladora que eles são famosos.
Quanto a casa, o sempre simpático Cinemathéque, tem que agradecer sua fácil localização. Perto da praia e ao lado do metrô, um convite fácil para quem quiser se divertir. Fora isso, atendentes simpáticos e respeitosos quanto as regras da casa. Porém a iluminação e o som são tão precários que dificultam a audição dos ouvintes do show, dos fotógrafos presentes e até do trabalho do DJ Yugo, convidado da noite. A lotação só começou a esquentar durante o show dos nossos amigos paulistas do Ecos Falsos, segunda banda a entrar na noite.
Ironicamente, o set-list que estava colado no palco era o mesmo do show que eles fizeram uns dias antes, na casa A Obra, em Belo Horizonte, com a mesma data e o nome da casa. Só o tempo de show, como todos os 3 da noite, é que foi muito curto e todo o setlist não pode ser executado. O público ainda estava se esquentando e permaneceu tímido durante o início do sempre animado show dos Ecos Falsos, ensaiavam cantar algumas letras e até sabiam os hits do novo álbum, o atual single “Spam do Amor” e o próximo, “Verão de 69″ – essa ganhará o clipe junto com a versão definitiva do último álbum, Quase, que sai em março. Em Junho, deverá chegar o clipe da faixa tema.
O show engrenou de vez quando um amigo da banda xará do vocalista Gustavo Martins subiu ao palco e animou cantando os versos de “Reveillon”, primeiro single do Ecos Falsos, ainda na época do clássico álbum indie Descartável Vida Longa. A banda aproveitou e engrenou “Sobre Ser Sentimental” e seus berros de ‘Eu só sou sentimental quando me fodo!’, daí para frente, foi a festa. O grupo ainda tocou “Bolero Matador”, “Dois a Zero” (essa cantada pelo baixista, simpatia e sorrisos, Vini F. em substituição a Fernanda Takai, que dá a voz no álbum) e tantas mais da última bolacha do grupo. Só não tocaram “Speed Porco”, que os fãs fazem questão de pedir em todos os shows.
R.Sigma – Mito do Insubstituível
Além de subirem ao palco como organizadores da festa e banda principal, já que estão em despedida da cidade para uma turnê de 25 shows nos EUA, o R.Sigma veio mostrar o porque de tantos elogios que recebem devido a sua animação e arranjos de altíssimo nível. Público subindo no palco e cantando junto as músicas, canções novas e até invasão no vocal teve como ilustração ao destruidor show, que surpreenderia até o mais cético dos indie-rocker.
As influencias americanas de bandas como The Mars Volta e The Sound of The Animals Fighting se confundem com a voz carioca e emocional de Lucas Castello – as canções novas também traduzem a nacionalidade plural que a banda consegue imprimir ao seu som no palco. Enquanto que entre uma música ou outra, o guitarrista Tomás faz um discurso emocionado sobre amizade e agradecimentos, Lucas se resume a dizer diretamente ao público enquanto canta, olhando um e cantando para ele, gritando verdades com força e sendo sentimental quando se pede – tal como foi sua emocionante explicação sobre a belíssima canção “O Mito do Insubstituível”.
Ouvir músicas impressionantes como “Permaneça Flexível” ou “Sobre Trunfos e Bandeiras” do R.Sigma, ou “A Revolta da Musa” e “Nada Não” do Ecos Falsos, te fazem esquecer que, por algumas horas, o inferno denominado Carnaval está ao seu lado, comemorando a esbornia e você o feriado, e sua viagem para casa será interrompida por quase uma hora por que um carro da Unidos da Vila Kennedy (grupo de acesso) está trancando a passagem da rua de mão única e você TEM que espera-los guardar o carro…