Já era mais de 10 da noite quando ‘a banda do cantor sem impostação vocal”, assim como uma pessoa da platéia definiu, terminou a apresentação de abertura da noite. A banquinha de goodies já havia sido desmontada e a lotação da casa esgotada. As cadeiras vazias na platéia logo seriam explicadas pelo pessoal animado em pé na frente do palco. Era o Apanhador Só no Oi Futuro 6 anos depois da última vinda ao Rio de Janeiro.
O show foi uma luta entre a animação descabida da maioria do público contra problemas com o amplificador da guitarra de Felipe Zancanaro. Do lado do público, os mocinhos desse musical no teatro, estavam fãs afinados com as letras descabidas dos nem-tão-jovens gaúchos, cantando ao microfone que o vocalista Alexandre virou para eles e aplaudindo a cada solo frustrado de Felipe. Era fácil ver ali pessoas que esperaram meses, talvez anos, até verem o Apanhador ao vivo, principalmente com o lançamento do primeiro disco e ainda com o excepcional Acústico-Sucateiro, presente nos melhores sites de download e em Fitas K7. (Sim, fita k7. Leve 5 em bom estado e com capinha e troque pela do Acústico-Sucateiro, com encarte e capa.)
Do outro lado da batalha, fazendo parte da brilhantemente coesa trilha sonora da noite, estava aquele amplificador Fender, modelo Frontman 212R (em média, um desses custa R$1.900 reais), valvulado, brilhando e com sérios problemas emocionais. Parecia que o ampli sentiu um ar sentimental bem ilustrado nos solos que Felipe deu e resolveu pifar inutilmente no meio do show. Na regra era: funciona quando quer e para quando der. Nos solos, passagens e todo o momento onde Felipe começava a brilhar com sua guitarrinha quase no pescoço, o amplificador resolvia sabotar seu dedos e enlouquecer a todos na banda – que incrivelmente segurou o som de maneira precisa sem deixar um buraco nas músicas.
Depois de uma fileira de canções, desde de as do primeiro cd e inéditas já preparadas para um próximo lançamento, a banda faz aquela pose de quem vai embora: anuncia a última música e faz aquele bate-volta no camarim para dar o bis, porém a avançada hora e a cortina que se fechava denunciaram a despedida precoce da show, sob gritos óbvios de ‘mais um’. Um discurso sentimental do vocalista, uma tentativa de segurar a cortina e tudo foi em vão. Até a banquinha que seria montada no saguão do teatro Oi Futuro teve que ser suspensa para o fechamento total da casa. Foi daí que veio o início da vitória total.
Quem ficou até o final viu o anuncio que Alexandre fez, em tom de grito de guerra, mostrando a solução para os fãs e a casa, o fim de uma batalha: “Vamos para a rua e vamos continuar o show lá!”. Aproveitando as intervenções que a banda andou fazendo nas ruas de São Paulo, levando o formato do Acústico-Sucateiro para todos os públicos, o Apanhador Só sentou-se na frente de uma banca de jornal em frente a praça General Osório, em Ipanema, ao lado do Metrô, e começou a segunda parte do show lá. Da maneira que mais próxima ao público que poderia ser.
“Nescafé” na General Osório
O povo foi aglomerando, chegando mais gente e olhando o que acontecia naquela roda. De dentro de uma mala saiu um surdo; de dentro do surdo saíram várias caixinhas; e de dentro das caixinhas vários briquedinhos e sucatas, que com um pouco de talento, iam fazendo sons que desenharam o final da noite de terça – que já era quarta – em praça pública. A primeira a ser tocada foi exatamente o bis que não ouvimos no Oi Futuro: “Vila do 1/2 Dia”, seguida dos gritos por “Prédio”, “Nescafé” e ainda uma versão improvisada de “Maria Augusta”, cheio de versos rimados na hora e com participação do público.
No final, a barraquinha se encheu de novo. Os cds, camisas, botons e as fitinhas passaram de mão em mão, ganhando novos donos, enquanto o baixista Fernão distribuía adesivos a esmo aos presentes. Aquela bicicletinha que tanto marca a banda só foi tocada na genial “Bem-Me-Leve”, mas a mesma bicicleta estilizada foi como marca nas mesmas camisas, botons e as fitinhas para a casa de algumas dezenas de cariocas, que deverão lembrar com muito carinho dela ali no meio do palco, esperando ser tocada, contemplada e ovacionada como toda a boa música deve ser, seja num teatro e sentado ou seja na rua e em pé.
mai 30th 11
Postador por Cristina Tavelin em Shows
O fim chega pra todos – inclusive para ela, a canção. Mas esse final é derradeiro ou apenas o ponto de partida para um novo começo? Em um extremo, a canção continua agarrada às raízes, à tradição. Em outro, voa junto à transgressão invisível do futuro, com o perigo de perder a identidade. E sobre qual ponto dessa trépida linha poderíamos situar a música brasileira atualmente? Todas essas questões envolveram a apresentação de três professores no assunto – literalmente falando – no último domingo (22/05).
Alguns minutos após o sinal que encerra a entrada ao teatro do SESC Vila Mariana (SP), Luiz Tatit, membro fundador do vanguardista grupo Rumo em 1974, adentra o palco de forma discreta, violão em punho, junto a Arthur Nestrovski, violonista e diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). O auditório fecha-se em um silêncio contemplador para ouvir o primeiro “declamar” a canção título de seu último álbum, Sem Destino (2010). “Tudo que era o meu destino na verdade nunca me aconteceu. Pode ter acontecido pra alguma pessoa, mas não era eu”.
Dilacerando sutilmente o domingo à noite da classe média paulistana, as palavras abriram o show de gravação do DVD O Fim da Canção, que já traz consigo a pergunta que não quer calar: será mesmo o fim? Jaqueline, personagem de uma das faixas de Sem Destino passa o verão compondo para no inverno cantar, como na fábula da cigarra e da formiga. Ainda há esperança.
Na sequência, outro mestre – esse em literatura – adentra o que poderia ser uma reunião de docentes. José Miguel Wisnik, acostumado a transitar pelas salas de aula e pelos palcos, une as possibilidades da erudição à franqueza da expressão – algo que já faz em seus livros, com destaque para o indispensável O Som e o Sentido.
As composições dos três contam com interpretações conjuntas, em duos, solo, e com a participação do cantor Celso Sim, entrelaçadas por momentos memoráveis entre a morte de uma canção e o nascimento de outra. Em “Errei com você”, Wisnik erra de fato a letra e se corrige no final, tirando risadas da platéia que relembra o fato de estar diante de um professor.
Em “A Companheira”, Tatit, apresenta uma personagem que de tão companheira até pensa pelo outro. Para “Elisa”, desconstrói o tom sentimentalista da composição romântica com uma letra inspirada numa frase de Tom Zé durante entrevista, na qual o baiano cita “Pour Elise”, de Beethowen, como a música que mais representa São Paulo – a singela musiquinha do caminhão de gás – acabando assim com qualquer suspiro apaixonado do público.
Nestrovski, o mais erudito dos três, romantiza Schumann na bela versão “Pra que chorar” e acelera no ritmo da globalização na marchinha “Aquecimento global”. Essa é pra acabar – a última certeira de Tatit para “dispensar” o público – encerra o espetáculo deixando um tom de brincadeira e de reflexão, além de um precioso registro em DVD para ser conferido. “Tem hora que é do show / Tem hora que é da vida / E os dois estão ligados / Pela porta de saída”.
Nunca que a frase “A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana” fez tanto sentido como agora. No fim da última terça-feira, A Banda Mais Bonita da Cidade de Curitiba colocou o terceiro e último clipe ao vivo gravado numa casa antiga em Rio Negro, Paraná e, em apenas dois dias, já fez muito indie e marmanjões chorarem com o vídeo de “Oração”. Isso sem ao menos ter divulgado decentemente o produto. Nasce aí o maior vídeo viral de uma banda independente no Brasil.
Até a escrita da última linha dessa matéria, “Oração” já batia mais de 100 mil visualizações. Em média, cada 1 minuto e meio alguém posta o link do vídeo no Facebook e a cada 20 segundos, alguém twitta sobre o vídeo, sobre a banda ou faz um comentário sobre o quanto àquela música alegrou o seu dia. Já tem gente os chamando de o novo Teatro Mágico e até a reencarnação do Los Hermanos. Já exclamam que o show vai ser apoteótico como o do Arcade Fire e os fãs chatos como os do Marcelo Camelo. Eles já têm até haters e isso é, sem dúvida, um sinal de sucesso e surpresa.
A questão é que essa é uma música e esse é um vídeo. A banda já existe há dois anos e o Brasil só os descobriu agora. Previsões sobre o que será o futuro deles e se esse sucesso continuará só dependerá do talento do jovem coletivo curitibano. Até porque se pensarmos que esse é o terceiro vídeo de uma série e que a banda já existe há dois anos, porque eles seriam tanto sem serem grandes? E fora que o Leo Fressato, genial autor e cantor principal da canção, não faz parte da banda oficialmente.
foto por Marcelo Stammer
O clipe, alias, vem sendo comparado com a série de vídeos que o Beirut lançou em parceria com o La Blogothèque para a divulgação do álbum The Flying Club Cup. O vídeo foi dirigido pelo tecladista da banda, Vinícius Nisi, e não teria o resultado esperado se não fossem as 16 pessoas que participam tocam e cantam junto com os 5 integrantes da banda. Vale a pena dar uma conferida em toda a equipe técnica no próprio vídeo.
Mas também sejamos sinceros. A beleza sentimental aparente no vídeo e a sinceridade que os personagens expõem nas suas participações contagiam. O clipe não é dos mais caros, mas sim dos mais inteligentes e bonitos, feito em perfeita sintonia com o clima da música: uma seqüência direta de versos que funcionam como um refrão pop que facilmente gruda e faz você cantar e bater palmas, talvez até pular junto com a parte final do vídeo. É a ilustração do processo de gravação de uma música e a catarse final ao analisar o resultado tão esperado e surpreendente.
Making of da temporada na locação dos vídeos
Quase tudo o que ouvimos ali parece ser gravado ao vivo, muito com capitação direta da câmera, mas com alguns adicionais de complemento em estúdio. Mas é bonito ver a vocalista Uyara Torrente gritando no microfone só pela felicidade que o momento passa, isso contagia e mostra o quanto é verdadeiro o que vemos/ouvimos. Não é pecado deixar uma lágrima cair no final do coro que encerra a música. E isso tudo ocorre antes mesmo da banda soltar a versão final da canção, o que consequentemente alavancou as visualizações no youtube, dando esse incrível resultado. São 6 minutos entre a curiosidade e a alegria.
O mais interessante é que este é o maior viral da semana, numa internet que cria hypes na mesma velocidade que somem as celebridades de realitys shows, sendo que para chegar a esse patamar não foi preciso dizer que vem da Tchecoslováquia e ama o Brasil. Eles não precisaram de um gato ou um bebê fofo, um pedaço de bacon, um vloger reclamão querendo aparecer e nem de algum meme ou bordão tirado de algum vídeo que um travesti gravou bêbado e pôs no youtube. Tudo o que eles fizeram para essa música ser esse sucesso foi misturar amor, alegria e poesia numa sinceridade que só a música nos permite. Tá aí o que faltava: sentimento.
A Sinewave é um selo que decidiu escolher um caminho nem tão fácil de ver valorização no Brasil. Então tudo passa a ser brigado e suado para fazer suas bandas e até o nome do selo andar por aí, nem que seja no boca-a-boca internético. Uma das formas encontradas pelos fundadores é a divulgação do Sinewave Festival: um evento que privilegia quem seja fã de música experimental, instrumental e/ou post.
Em sua quinta edição, o festival chegou ao Rio de Janeiro com gás e respaldo o bastante para arrancar as camisas pretas da gaveta dos cariocas e colocar um bom número de fãs no mini palco da Audio Rebel, em Botafogo. O evento, o todo organizado pelas próprias bandas em conjunto com a casa, trouxe 3 bandas do casting da Sinewave e a Avec Silenzi, banda local que abriu os trabalhos do inferninho.
O set cheio de músicas novas é bem balanceado e o som da banda mescla jazz com alguma influencias variadas. O público já conhecido do instrumental bem desenhado da banda já pedia músicas e brincava com os músicos. Foi um convite perfeito para quem ainda não tinha entendido a pegada do festival e estava a espera de novidades.
Em seguida, os paulistas do S.O.M.A., outro power trio, investiram em efeitos de guitarra e músicas crescentes para conquistar o público. Enquanto o baixista André Ross se contorce no palco no sentimento da música, o baterista Elvis Cantelli garante o seguimento e tempo da música de maneira criativa. Só o que atrapalha é que as linhas de baixo seguem progressões retas e acabam se repetindo em demasia, além dos pequenos erros de Elvis no decorrer das músicas. Mas empolgou bastante e por vezes foi apoteótico, como a execução da última música do show.
Talvez a mais esperada, a Sobre a Máquina sobe ao palco rodeada de incertezas do público e curiosidade dos músicos e jornalista que aguardavam seu início. Alguns fotógrafos a mais estavam ali somente para conferir o que seria o primeiro show da vida da Sobre a Máquina. Além do trio fundador, Cassius Augusto, da banda Dorgas, assumiu o baixo e dali começou uma viagem diferente do que os ouvidos estão acostumados. Sem bateria e lotado de samplers, a banda fez um show curto, abrindo com o novo single, “Barca” e voltando com as músicas de Decompor, primeiro álbum lançado ano passado.
Indefinido o que saia do palco, só restava admirar os detalhes da música do quarteto. A batida seguia um linha hip-hop de velocidade extra reduzida, com os graves altos e guitarras viajantes. Cadu T. se entregava ao teclado com impeto o bastante para bater com a cabeça no instrumento e continuar a canção enquanto que Emygdio C. batia num ventilador estranhamente colocado no meio do palco. Resultado: ora repetitivo, ora confuso, mas em maioria genial.
Encerrando a noite, a Herod Layne assinava com profissionalismo e incrível presença dos integrantes a beleza da noite, tocando o que de melhor tinha na manga e trazendo todos para frente do palco. Arrancaram os mais calorosos aplausos do público. O sentimento de dever cumprido só não foi maior que a felicidade de ver aquele público curtindo um som que muitos diziam morto e que não existia no Brasil, mas agora vem conquistando passo a passo cada canto desse país cada vez mais rocker.
A lona verde-branco carioca se encheu de cor, sorrisos e saudades com a volta de um dos seus filhos mais ilustres e amados ao seu palco. Em noite convidativa, Marcelo Camelo iluminou corações apaixonados pelo seu novo trabalho, saudou aqueles que flertam até hoje com a solidão e bateu ponto em seu passado tão reverenciado.
A cada golada na boca da garrafa de cerveja que guardava ao lado do retorno, Marcelo se tornava mais feliz, sociável, mais do público. De volta a sua terra natal, encontrou aquele séquito sempre crescente que agora, além de assobiar em “Doce Solidão”, vai ter que aprender a soltar o ar pela boca no tom de “Ôô” – canção chiclete que abriu o show e a primeira de seu novo trabalho a ser liberada pelo cantor.
Nas passagens do seu antigo trabalho, Sou, o público se acomoda fácil e demonstra que mesmo após os seus quase 3 anos de lançamento, ouviu as canções com o mesmo afinco. Foram 1 hora e 20 minutos de show, com espaço para nove músicas do Sou – incluindo “Janta”, sem sua namorada famosa que grava terceiro disco em São Paulo, e com a adição de “Santa Chuva”, a pedidos do público – e mais oito de seu novo álbum, criando um impasse interessante em seu trabalho, já que tem mais músicas antigas que novas, mas definitivamente conseguindo colocar seu show mais animado e em pé – desafio já assumido pelo músico em entrevistas. “Despedida”, gravada em Toque Dela, já era tocada na turnê anterior e pelo jeito, descartada em primeiro plano destes shows iniciais.
Em certos momentos, talvez pelo costume sentimental que a turnê “Sou/Nós” passou e a falta de conhecimento do público à nova obra, certas músicas não passam toda a forma de sentimento que merecem e em alguns pontos chegam a desanimar, como na levada arrastada de “3 dias” e a emenda com a sessão solo do Hurtmold. Marcelo também, com certa aparência alta e extremamente comunicativo, começou a pontuar suas linhas vocais de maneiras equivocadas e não alcançar finais em tons altos. Nada que o coro do público não cobrisse. Nada que a dança e distribuição aleatória das samambaias dispostas no palco não provassem.
Seu novo disco é especialmente pontuado pelos tão conhecidos metais que cadenciaram o estilo hermaníaco que o levou ao estrelato, mas as comparações se atropelam quando apontam Toque Dela para uma continuação do 4, sendo que o último disco dos hermanos tem poucas linhas de metais, lapidadas pelo mesmo Bubu que agora volta aos palcos com Marcelo. A banda, agora sem Rob Mazurek por momento, tem 3 metais, em alguns momentos 3 guitarras e até 10 membros para uma execução perfeita das músicas, com a mesma qualidade que o Hurtmold já é bem conhecido.
Sorridente, o Bubu funciona como um suspiro a mais aos fãs que gostariam de ver uma nova forma de Los Hermanos cantando seus hinos. Talvez, o fato do outro Bubu, o Gabriel, Robrigo Barba e o produtor dos três últimos álbuns do Los Hermanos, Kassim, terem se apresentado na banda de abertura, o Me And The Plant, também tenham feito o Circo Voador acreditar por alguns instantes poder ter uma reunião particular daquela que foi a banda mais importante culturalmente no país na última década.
E mesmo depois do ápice dançante de “Copacabana”, não durou muito para iniciar-se o canto de “Além do Que Se Vê” pelo público, já com o palco vazio, imitando perfeitamente as coreografias de palmas feitas nos tempos áureos dos hermanos. Um coro de 3 mil pessoas cantando de ponta a ponta cada verso me trazendo a cabeça a beleza do momento quando Fabrício Moretti desafiou os fãs do Little Joy no mesmo Circo Voador a cantar “O Último Romance”, do companheiro Rodrigo Amarante. Mais para isso, só vai entender quem esteve lá.
E mesmo após mais de 5 minutos pedindo, Marcelo não voltou para mais um bis. Mas voltará.