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Entorpecidos de Sonhos na Lulilândia: Lulina – Cristalina

Álbum: Cristalina

Artista: Lulina

Lançamento: 9/10/2009

Selo: YB Music

Site Oficial: lulilandia.wordpress.com

Rockometro: 8/10

Quando criança, sonhamos em ser grandes – olhamos para nós mesmos no futuro e nos vemos como alguém que chegou a algum lugar. Mas e quando uma pessoa, certo dia, se depara com o lugar-nenhum do espelho ao invés de todo aquele mundo criado na infância? Muitas vezes acaba por inebriar-se na própria desolação e tenta transformar a fumaça em algodão-doce, numa volta ao pequeno que nunca deixou de ser.

É isso que Lulina faz. Acende uma luzinha embaixo da cabana de cobertor e sussurra causos, faz chacota, conta fábulas fofas e, às vezes, grotescas. Cristalina (2009), seu álbum de “estréia” – entre aspas porque passou por um processo muito interessante até ser cristalizado de fato – traz músicas primeiramente gravadas em plays caseiros, com o laptop Hermeto (Pascal?), compostas no chão da sala entre cervejas e amigos, durante domingos de febre ou noites fúnebres. Aqui, essas músicas soam limpas, “perfeitas”, perdem um pouco da inocência doce e tosca de algumas gravações precárias.

Fazer uma resenha desse álbum é tarefa ingrata porque o retrato aéreo da Lulilândia já foi registrado por Xico Sá, que certamente a entende muito melhor do que eu. Eles falam a mesma língua (reparem nas letras dela e na resenha dele). Mas não custa tentar olhar por um ângulo diferente – entre a luz e a sombra da toca do coelho. E como em todo sonho ou realidade inebriada, não vou ater-me a sequências. Cristalina é um disco para ser lido como uma fábula, ouvido como uma trilha sonora alternativa para o filme “Onde Vivem os Monstros”, de Spike Jonze, degustado como o bolo de chocolate feito pela sua avó.

Em “Do You Remember, Laura?”, a moça parece uma criança lendo a redação na escola. Ca-da sí-la-ba pronunciada com ênfase, num encaixe de lego na melodia. Já é grande, mas fala como criança. Até para quem odeia esse estilo de música a nostalgia venta gelada pela porta dos fundos. “Jerry Lewis” soa bonitinha como Belle & Sebastian. Porém, as doenças do senhor Lewis, seus 28 quilos a mais e sua decadência derradeira – toda essa desgraça condensada – acabam tão dissonantes da melodia de acordes maiores que dá vontade de rir.

Esse contraste entre letra e melodia é o mais interessante do álbum, sem dúvida. “13 de Junho” segue a linha divertida, assim como “O Príncipe”, que quase cai no brega com um solo de teclado de gosto duvidoso. Avaliar se os timbres são intencionais para tirar sarro ou se no fundo há um desejo de soar conceitual e contemporâneo fica a critério do ouvinte. Aposto na primeira opção.


Clipe de “Nós”

“Sangue de ET” é outra com uma letra muito boa, uma “hemodiálise de aliens pra deixar todo mundo normal”. O tecladinho de efeitos alienígenas enche um pouco às vezes, mas vale dentro desse contexto extraterrestre. Mais doenças em “Biebs”, quando a pobre Lulina não sabe se dormiu ou morreu com bolhas na pleura. “No café eu parei de respirar e comecei a formigar”. Se não fossem as melodias alegres, esse álbum seria fúnebre. E com mais 30% de doenças, poderia acabar em “Doutores da Alegria”. A dose do remédio foi na medida.

Percebemos que “Criar minhocas é um negócio lucrativo” para nossa Alice tupiniquim. Pessoas com cabeça de televisão e seus “Argumentos” numa nuvem de poluição a inebriam e invadem seus sonhos. Mas o onírico acaba em “Narcolepsia” – acorda, atende o telefone, trabalha – todos os imperativos estão contra você. “Mi Gostar Musga” é uma dor de cotovelo amorosa da qual se esquece rápido, enquanto o banjo da “Margarida” dura um dia de sol no parque. A certa altura, a voz muito açucarada começa a enjoar. Mas daí você se lembra que são músicas de ninar para gente grande. Nada de estresse. É um álbum inocente.

A linha vocal segue sem muita variação, suave, talvez herança da Bossa Nova – porque já a “Bosta Nova” remete a um “Xou da Xuxa” esquizofrênico – “Vou explodir de tanta alegria” é uma passagem hilária e deprimente. Cai como uma Cidra no Ano Novo, só que muito mais forte.

Na “Música Para Colocar Naquele Som Com Despertador” temos um bom resumo do ser Lulina, letra boa, parece otimista nas primeiras palavras para em seguida descer a ladeira numa deprê feita de monotonia. Em “Poesia”, a risada é triste. E o sonho é bem agridoce. Vai saber se esse sonho é brisa de baseado na “Balada do Paulista”, né meu? Essa música é ótima. Até porque hoje em dia todo mundo se ofende muito fácil por muito pouco e muita gente deve ter tido vontade de mandar a Lulina se fuder, assim como a própria nos manda em “Subtexto”. Finalmente, “Bichinho do sono” tem a lisergia de um estado de transição – nos efeitos dela realmente se pode ouvir a voz do pequeno ser – e ajuda a voltar para a toca do coelho, para Lulilândia, para o mundo imaginado que conhecemos, mas do qual perdemos a chave no meio do caminho.

E como “a vida é desfazer Nós”, aqui eu me desfaço de vocês, vocês de mim e nós de Lulina, ela cheia de nós na cabeça e nós todos cheios de minhocas e sonhos entorpecidos.

Humanish @ Teatro Paiol, Curitiba-PR 25/06/2011

Texto por Felipe Gollnick, do site parceiro Defenestrando
Fotos por Leco de Souza

Dia 25 de junho, sábado pós-Corpus Christi, oito horas da noite. Clima ameno e noite agradável em Curitiba. Do lado de fora do Teatro Paiol, uma fila de vários metros premeditava o show de lançamento do álbum de estréia do Humanish, que começaria ali dentro em poucos instantes. Com a entrada franca mas restrita a convidados e, pelo visto, grandes fãs, a casa estava repleta de um clima familiar e agradável.

Ponto turístico de Curitiba e marco da vida artística da cidade, o Paiol é um teatro pequeno. Em uma sala circular em formato de anfiteatro, o público fica muito perto do palco: gera-se uma sensação de proximidade e intimidade com o artista. Por lá já passaram grandes nomes da música nacional, como Toquinho e Vinícius no show de inauguração do local. Logo na entrada, cada pessoa que chegava recebia uma raspadinha. Quem tivesse sorte poderia ganhar o recém-lançado disco físico do Humanish, walkmans com a fita do mesmo disco ou até mesmo LPs selecionados pelos integrantes da banda.

Quando a banda veio ao palco, nenhuma palavra de Oi ou qualquer coisa do tipo. Também nem precisava. A primeira nota da guitarra de Marano, um dos vocalistas, fez as honras por ele. E o show começou com tudo, pesado, denso. O som estava mal regulado no começo, mas já na segunda música ficou tudo certo. Cabelo caindo nos olhos, Allan Yokohama tocava a outra guitarra, cantava berrando e se entregava ao show. Balançava o corpo com energia e não perdia a linha de seus riffs. O show do Humanish parece muito entranhado: seus integrantes estão ali, fazendo aquilo de corpo e alma, sentindo suas músicas e as entregando de coração a quem quiser gostar delas. É genuíno. E há ainda o fato de eles estarem tocando no Paiol, o que, segundo o próprio Marano, é uma emoção e uma honra. Chega a ser encantador ver os caras ali.

Pelo lado técnico, o Humanish se configura de uma forma diferente: não há baixista. Os graves alternam entre os sintetizadores de Igor Ribeiro e as guitarras cheias de efeito de Yokohama. Dá uma dinâmica diferente ao show, tanto no aspecto sonoro quanto até mesmo no visual – e é sempre bacana saber que é possível fugir do convencional formato guitarra-baixo-bateria sem nenhum prejuízo. Nas baquetas, Fabiano Ferronato, fazendo caretas, balança o corpo, toca com força e dá peso ao som. A banda ainda contou com várias participações especiais durante a apresentação, destacando-se a do produtor Carlos Trilha nos teclados (que além desse disco, produziu dois álbuns de Renato Russo e chegou a tocar com a Legião Urbana nos shows).

O público estava ganho desde o começo do show: muitas palmas e gritos efusivos ao final de cada música. E, depois de cada execução, os aplausos só aumentavam. Muita gente balançando a cabeça e cantando todas as letras, e repetindo as expressões de emoção de Marano e Yokohama. Cada música finalizada parecia uma conquista, como se fossem partes significativas de um grande objetivo a ser alcançado – seja ele o duro parto de álbum inteiro ou a superação de uma história musical meio complicada. Ao final do show, dava para ver em cada músico a sensação de dever cumprido (ou até mesmo de alívio). Que o diga Yokohama, que depois de a banda ter encerrado o bis com “The one”, ergueu sua guitarra para o alto e gritou: “Tá lançada essa porra!”

Um grande show, evidenciando uma grande banda. Pesado, gostoso, emocionante. Dá-lhe Humanish.

Um Disco Para Dias Nublados: Cícero – Canções de Apartamento

Álbum: Canções de Apartamento

Artista: Cícero

Lançamento: 22/06/2011

Selo: Independente

Ouça: Facebook

Rockometro: 9/10

É difícil não associar o trabalho de Cícero à sua ex-banda, a Alice. Até porque quem escutou o Anteluz e o histórico Ruído, conhece bem aquela voz sofrida que se sobrepunha as 3 guitarras que a Alice se desafiava a criar e reger. Porém, o hiato sonoro entre Ruído (2007) e Canções de Apartamento, seu primeiro disco solo, cultivou certa curiosidade sobre qual destino se focaria o talento de Cícero Lins.

Ao cortar seu sobrenome, Cícero também lapidou os ruídos de guitarras e passou a andar mais solto, acompanhado apenas de seu violão e utilizando do suporte de Paulo Marinho (bateria) e Bruno Schulz (acordeon/piano/coro), para 3 anos após o fim da Alice e dezenas de discotecagens na noite carioca depois, lançar suas canções de apartamento ao mundo e novamente se sentir na correria de uma banda independente e sofrer para saber a opinião das pessoas e da imprensa sobre seu novo filho.

Climático, o disco é feito para se ouvir com atenção, deixando ecoar no ouvido e virar docemente a trilha sonora do seu dia. É brilhante. Uma viagem ao interior de uma mente que parece expressar-se perfeitamente em letras sentimentais, melodias densas e vocal tristonho. Por vezes, soa como as cantigas melosas de Milton Nascimento, a sensibilidade triste de Rodrigo Amarante e até como a pseudo-rockeiragem de Caetano Veloso. Ao mesmo tempo, você sente pulsar aquele timbre, passagem ou composição que a Alice usou para conquistar fãs até hoje.

Ouvindo o disco, você sente que está dentro de um apartamento, onde a bateria ecoa e a voz sobressai de maneira independente da música. Em “Cecília e os Balões”, o tracejado do violão, o barulho de fundo e pequenos detalhes deixam a música mais real, como se Cícero tocasse ao seu lado e o convidasse para dividir os vocais e suas angústias. “João e o Pé de feijão” carrega uma surpreendente e explícita semelhança com “O Último Dia”, de Paulinho Moska, como se fosse uma versão ainda mais sofrida e experimental daquela música escrita para uma série global.

A abertura do disco, “Tempo de Pipa”, é talvez a canção mais perseverante e a que menos se encaixa com a tristeza incrustada no restante do álbum, mesmo assim é maravilhosa. Talvez, a melhor junto com “Ensaio Sobre Ela”. Canção com um acordeon doce em companhia de um violão bossa-nova, um dedilhado simples na guitarra e bateria baseada num samba de fim de tarde. Das letras, simples palavras que usadas com certo sentimento, traduziram a beleza e por vezes a ironia que Cícero quer mostrar. “Açúcar ou Adoçante” é, junto com seu nome, a provável melhor amostra desse denso repertório de palavras tristonhas e realísticas. “Laia Laia” e “Ponto Cego” sepultam a sua incerteza sobre a beleza de Canções de Apartamento.

Por vezes o silêncio faz bem: aguça a curiosidade e surpreende na volta. Utilizando desses simples pontos é que Cícero compôs a nova trilha sonora dos dias nublados, o som da dúvida em um relacionamento, o ruído e o silêncio do seu apartamento e as canções para voltar para casa. É inverno. Sinta-se completo. Sinta-se entendido.

Teatro Mágico, Maglore, Tereza, Gloom e Mr. Jungle @ Festival Fora do Eixo, Circo Voador-RJ 17/06/2011

Texto: Marcos Xi
Fotos por Juliana Ribeiro
Mais fotos na nossa Fanpage

Tereza

Foi bem como vi o Circo Voador naquela sexta que eu queria sempre ver os shows independentes no Brasil. A lona verde e branca da Lapa estava abarrotada, não para ver uma banda internacional hypada qualquer, mas sim para prestigiar cinco bandas independentes e esforçadas que vieram de várias regiões do país para se apresentar no Festival Fora do Eixo Rio de Janeiro.

Ainda esquentando o público e abrindo as portas da casa, a Mr. Jungle impregnou no palco uma energia contagiante, fora do comum, trazida de Roraima, terra natal do quarteto. Ainda que o público estivesse chegando, aos poucos alguém ia batendo o pézinho ou balançando a cabeça no blues/hardrock que a banda propõe. Não foi difícil ver pessoas chegando na barraquinha de itens independentes, depois do show, perguntando qual era o nome da banda e se tem cd para vender.

A Gloom, representante do Centro-Oeste brasileiro, chegou já com alguns fãs no pé do palco e com as letras na ponta da língua. Rapidamente conquistaram outras pessoas que estavam ali pelas outras bandas e foram enchendo a pista do Circo música a música. O primeiro e auto-intitulado álbum da Gloom é tocado quase que perfeitamente ao vivo, causando o melhor efeito que uma banda pode querer de um público: que todos dancem!

Maglore

Já com público cativo e a moral de ter tocado no mesmo Circo Voador um mês antes, a Maglore fez aquilo que se acostumou a ver em cada apresentação que faz pelo país: conquistar e trazer o público presente para eles. A cada canção, mais e mais pessoas chegavam perto do palco para ver a banda, chegando a um momento onde se via o Circo cheio de gente sorrindo, balançando a cabeça, perguntando qual é o nome da banda ou rindo do grupo de fanáticos que pulavam, dançavam e inventavam coreografias para as músicas da Maglore no canto direito do palco.

Cada vez mais coesos e certeiros, a banda Tereza já pegou um Circo Voador faltando espaço para andar e dançar. O público – que misturou os fãs da Tereza, Maglore e a massa gigante que veio pela banda seguinte – acabou ficando um tanto impossibilitada de dançar e assistiu o lançamento do single de ‘A Cidade Pega Fogo’ com olhos fixados na performance de Vinícius, o vocalista da banda. Um pouco mais focado em cantar perfeitamente e não errar os efeitos no synth, sua presença de palco acabou um tanto prejudicada, mas a banda compensou com impressionantes arranjos. É o Tereza cada vez melhor.

O Teatro Mágico

Maior nome da noite, O Teatro Mágico já tinha ganho o público antes mesmo de Daniel Domingues (um dos criadores da Ponte Plural, organizadora do Festival) anunciar a entrada da banda. No Rio, essa foi a última vez que o show do álbum Segundo Ato foi apresentado. Esta turnê, eleita pela Folha como o melhor show de 2010, perde a força quando você já assistiu alguma vez. A apresentação é dividida em 3 atos onde, principalmente no primeiro, as palavras, arranjos, músicas, danças e atuações são repetidas, com pequenas reagrupamentos das músicas. Salvo as duas músicas inéditas que a banda executou pela primeira vez na história, a apresentação fica com aquele gosto de ‘já vi isso’ ou ‘ele falou exatamente isso na outra vez e agora vai acontecer isso’ – até as piadas são as mesmas. Por parte do público, um show a parte aconteceu, como já era previsto.

Acima de tudo, ainda me vejo desnorteado em lembrar aquele público que nem cabia embaixo da lona do Circo e teve que se contentar com o telão do lado de fora. A banquinha do Teatro Mágico abarrotada, a vendinha de cds independentes oferecendo raridades do Superguidis e do Ronei Jorge a incríveis 8 reais, enquanto se esgotavam os cds da Maglore e da Gloom. O indie carioca é chic. Compra cd barato, lota show sem precisar de um mainstream fechando e ainda se apresenta na mais histórica e representativa casa de show brasileira: o Circo Voador.

A Banda Mais Bonita da Cidade @ Teatro Rival, Cinelândia-RJ 12/06/2011

Ok. Vou assumir que cheguei atrasado, bem no meio do show d’A Banda Mais Bonita da Cidade, no Rio de Janeiro, e por isso não me senti apto a fazer uma resenha aguçada sobre as belezas e as incertezas da noite. Porém, nossa sempre espertíssima fotógrafa Juliana Ribeiro chegou pontualmente no local marcado e registrou com belíssimas fotos o que a noite proporcionou para os que foram conferir quais as outras canções, além de “Oração”, o grupo mais comentado do último mês tem para oferecer.

Então para não desonrar o compromisso, segue abaixo, algumas amostras das fotos do show de Ana Larouse e Leo Fressato, e d”A Banda Mais Bonita da Cidade. Em nossa página do Facebook você encontra outros belos registros fotográficos da primeira apresentação dos curitibanos em terras cariocas. (Aproveita e clica em curtir na página)

(mais…)

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