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Rancore e R.Sigma @ Sérgio Porto, Botafogo-RJ 24/08/2011

Texto: Marcos Xi
Fotos: Juliana Ribeiro
Mais Fotos: Facebook.com/RockinPress

O Rancore e o R.Sigma são bandas irmãs. Ambas sobem ao palco concentradas e sentindo a música correr por entre seus dedos, condensando a força e transformando-a em sentimento. Nesta quarta, o representante carioca e a representante paulista, se apresentaram no Espaço Sérgio Porto com a missão de passar a sua mensagem da maneira mais clara possível, deixando o público flutuar sobre as palavras e sentir a música pulsar.

A noite vinha com o nome do Rancore, pois era o lançamento oficial de Seiva, terceiro álbum de inéditas da banda, lançado recentemente pela Deck. Por isso, a banda resolveu desfilar o álbum na integra e em sua ordem original, encerrando a apresentação com 3 faixas de Liberta, álbum anterior. Teco já segura o microfone sorrindo, seguro de que bons momentos se esticarão durante o tempo que os amplificadores estiverem ligados.

O show empolga. Passa uma sensação bonita e uma eterna vontade de gritar, pular no palco e cantar junto com a banda. Todos os músicos dominam com maestria as músicas e seus arranjos, tornando uma banda bastante segura e inteligente, procurando sempre fugir da mesmice dos arranjos pops e transformando-os em novidades. Metade do Seiva poderia ser de singles. A outra metade nunca será compreendida por quem só escuta música como hobby, sem saber o que é sentimento.

Apesar dos arranjos serem executados da maneira exata como consta no álbum, algumas músicas se destacam, como “Transa” e outras perdem força como “Mulher” e principalmente “5:20”, que não combina com o clima e começa de maneira arrastada, estranhando o público. Alias, os fãs presentes não parecem ter ouvido o Seiva o bastante e permaneceram tímidos durante o show, inclusive na porrada “Escravo Espiritual”, Já nas faixas de Liberta a roda de pogo e os coros do público acabaram empolgando ainda mais o Teco, mantendo seu sorriso até o fim da última música.

Logo em seguida, o R.Sigma toma seu lugar. Todos estão com calças cortadas como shorts, sem camisa e com uma marca de mão vermelha no peito, na altura do coração. Esta marca só é feita pela vocalista Castello-Branco, que entra em palco só após o início do show, totalmente pilhado e com sua mão esquerda ainda suja de tinta, passando um pouco da cor vermelha para a bermuda desbotada. É como um ritual, uma passagem de sentimento ou uma forma de tocar um ao outro. Faz sentido com o que vemos no palco.

A banda é inquieta. Não deixa um arranjo antigo em versão normal, trabalhando nele cada vez mais e fazendo uma lapidação cada vez maior, trocando os ritmos, os solos e as passagens. Uma eterna renovação do mesmo repertório, que aos poucos vai dando espaço para canções além das presentes no álbum Reflita-Se e no EP Borboletas. Uma primeira amostra do novo trabalho entrou no repertório do show e mostrou já o interesse da banda em trabalhar em novas texturas de guitarra com repetidores sonoros. Interessante.

O show, além de ter sido aberto pelo Rancore, também foi o que arrastou mais público. A união dentro da banda surpreende, decidindo cada acorde, passagem ou jam com apenas olhares e intuição. A certa altura do show, Castello-Branco já participava do arranjo de bateria, desistindo quando conseguiu quebrar uma baqueta tocando chimbal. O público ainda ficou pedindo “Furacão”, último single da banda, mas não deu tempo, o horário já pedia o fim da apresentação.

Uma noite para gritar e presenciar. O peso e a velocidade, os não rótulos e força, não impedem o sentimento de imperar dentro de um mesmo recinto, de uma mesma música, ou em algumas palavras. Foi bem bonito.

Saudades e Despedidas: Transmissor – Nacional

Álbum: Nacional

Artista: Transmissor

Lançamento: 9/08/2011

Selo: Independente

Ouça: melodybox.com.br/transmissorband

Rockometro: 8,5

Sim, sim! Isso é sentimento de verdade! É sincero aquilo que você sente no limiar de “Hoje”, faixa que encerra este bonito álbum. O que seus ouvidos escutam é um belo apanhado de canções criadas por pessoas que se colocaram dentro das músicas, interpretando-as com a alma e sentimento, gerando letras que correspondem aos seus anseios naturais momentâneos e arranjos que exploram a qualidade e versatilidade dos músicos.

Nacional, nome do segundo disco dos mineiros do Transmissor, mostra uma banda inspirada e ainda mais unida, dando mais espaço para composições coletivas. Jennifer Souza ganhou mais destaque com sua voz doce, servindo como interlocutora entre o ouvinte e o cantor em quase todas as faixas, mesmo quando faz apenas acompanhamento no fundo. Os arranjos passaram a ter guias fundamentais baseadas nos teclados, xilofones, metalofones e piano – sem contar o adicional luxuoso de instrumentos de sopro em algumas faixas. Todo o processo foi levado como quem cuida de um filho e essa beleza e cuidado fica expresso logo na primeira ouvida no disco.

Jennifer se superou nas composições, com letras mais duras e trocando saudades por despedidas, assim como Thiago Correa canta na já citada “Hoje”. Thiago, alias, divide a composição de “Traz o Sol Pro Meu Lado da Rua” com a lenda Vander Lee, criando para o álbum uma canção legitimamente folk, ainda que recheada por xilofones e violinos, mas guiada pelo bom e velho violão.

Não negando as influências, a versão de “Nada Será Como Antes” – parceria de Milton Nascimento com Ronaldo Bastos que figurou no primeiro disco do Clube da Esquina – ganha guitarra e bateria mais pesada, meio que atualizando a música para os tempos atuais. Os vocais dobrados de Thiago e Jennifer traduzem a mensagem que a música passa, como se fosse o pensamento de um casal, ‘cada um ao seu canto’ – e esse é um artifício que a banda usa magistralmente desde o disco de estreia, colocando backvocals em momentos que a letra se direciona para um casal, como uma resposta a cada frase dita.

“Dois Dias”, “Bonina” e “Só se For Domingo” são a linha de frente do álbum: canções fáceis, altamente assobiáveis, feitas para aproximar o público e fazê-lo se encaixar no álbum, como um abre alas para um belo desfile de músicas apaixonantes.

A grande dica para este disco é não tentar procurar um novo Sociedade do Crivo Mutuo e sim enxergar uma banda mais democrática, mais unida, com ideias fluindo de todos os lados. Além disso, as faixas funcionam muito melhor se você ouvi-las com sua própria ordem ou em separado, prestando bastante atenção nos detalhes mínimos que a banda se propõe a fazer – “Dessa Vez”, “Longe Daqui” e “Outra Ela” são bons exemplos de músicas que deve-se escutar em separado.

Nacional é um bonito álbum feito para pessoas de coração aberto, ferido ou vazio. Relacionamentos terminam, mas a música sempre fica para nos contar uma nova história de amor, até o fim ou até a próxima faixa.

R.Sigma, Dorgas, Wannabe Jalva e Eskimo @ R.Sigma+1, Espaço Acústica, Praça Tiradentes-RJ 28/07/2011

Dorgas (foto por Pedro Souza)

Eu estava conversando com o Titi (@TomateMaravilha) e o Felipe Puperi (guitarra e voz do Wannabe Jalva) e chegamos a uma conclusão: público é foda. Noite agradável de quinta-feira. Temperatura amena, sem transito no caminho e com promessa de um evento lindo. No lineup, bandas que por si só já dizem muita coisa na cena atual. No público, bandas, produtores, imprensa e amigos. Estava ali quem realmente se interessava por uma cena mais intensa, fervorosa e sabe o sentimento e realização de ver uma casa cheia de pessoas para ver bandas indies.

Os fãs é que faltaram dar as caras. Os que querem conhecer novos sons – que era a proposta do evento – não compareceram. Foram poucos gatos pingados dispostos a ver as disparidades da cena independentes, os improvisos e a magia de subir no palco e tocar com uma boa iluminação, um som com qualidade e, quem sabe, um público insandecido. O Dorgas, atração de abertura, parece não ter entendido o clima do lugar e tocou suas músicas enquanto lutava com problemas técnicos. A banda parecia murcha e encerrou seu show quando a fonte da guitarra de Gabriel Guerra quebrou, terminando com o ânimo dos outros músicos. As novas músicas começam e tomar, de vez, conta dos shows.

Eskimo (foto por Pedro Souza)

Já o Wannabe Jalva estava cheio de energia, simpático e atencioso. Só faltou ter baterista, pois Fernando Paulista teve problemas pessoais e voltou correndo para sua cidade natal. O músico ainda tentou embarcar e pegar o show da noite, o que acabou não acontencendo, sepultando o primeiro show da Wannabe Jalva em terras cariocas. Poderiam ter voltado para casa mais cedo, mas a banda preferiu ficar na cidade e acompanhar o evento, como todo bom músico deveria fazer.

Com a falta, quem subiu ao palco na sequencia do Dorgas foi o Eskimo, trazendo meia tonelada de equipamentos, praticamente. Violões, guitarras, cavaco, inúmeros pedais e teclas, acabaram por dificultar a vida do técnico de som e trazer muita microfonia aos ouvidos. Patrick Laplan colocou seu baixo no talo e por vezes tapou o volume vocal e da bateria. As músicas são algo quase pagode e perto do metal, sem muito poder definir o ponto determinante com um simples rótulo. Os arranjos são a cereja de um bolo sonoro doce, como o vocal de Cauê Nardi, mas com recheio surpresa, dependendo de onde a música irá te levar.

R.Sigma (foto por Pedro Souza)

Sobre a última banda, posso encher a boca e dizer com gosto: O R.Sigma foi belo. Tanto quanto eles me deixaram na primeira vez que os vi ao vivo, tanto como todos os shows da banda. É incrível o sentimento real que cada acorde torto das guitarras passa, cada movimento quase coreografado do vocalista Castello-Branco consegue exprimir de ser corpo; cada improviso que a banda insere em suas músicas. Tudo é muito interessante, acompanhado por um tímido coro que, ao diminuir a música, torna-se mais fácil de entender.

Castello-Branco canta como se recitasse um mantra ao mesmo tempo que estivesse possuído pelo espírito da música, sem se intimidar nas improvisações inesperadas que a banda consegue criar. Interessante como olhares e sentimento momentâneo decidem a duração dos solos e consequentemente das músicas, fazendo com que cada show seja algo único, confirmando o porque da promoção do evento em dar entrada vip para quem não conhecer o som da R.Sigma. Eu não estou enchendo a boca para falar isso porque eles são os donos do evento. Estou dizendo que o que eu vi foi realmente algo sincero e verdadeiro, como o discurso sobre a cena independente que Tomás Troia (guitarra) e Castello-Branco declamaram.

Verdadeiros são aqueles que estiveram lá, acreditaram no evento e nas bandas. Deram a sua contribuição. Sei que muita gente vai dizer que estava sem dinheiro, que a mãe morreu, que tinha que trabalhar no dia seguinte ou que foi levado por um disco voador. Foda-se. O evento tem várias edições já prontas e marcadas, com bandas tão legais quanto tiveram nesta noite e tenho certeza que você não vai se arrepender de presenciar shows tão legais quanto os que eu já vi/verei no R.Sigma+1.

O Português e o Plural no Brasil; Vinicius Castro – Jogo de Palavras

Álbum: Jogo de Palavras

Artista: Vinicius Castro

Lançamento: 25/11/2010

Selo: Independente

Ouça: viniciuscastro.com.br

Rockometro: 8

Vinicius Castro é um jovem cantor de ritmos plurais que atualmente se reserva no Rio, mas é nascido em Recife e já rodou o país absorvendo novas culturas e estilos – que de algum jeito foram despejados em sua música verde e amarela. Jogo de Palavras é um trabalho totalmente autoral, com foco nas letras e destaque nos arranjos.

Vinicius decidiu organizar as palavras com a gramática em baixo do braço, pontuando as frases com fáceis rimas cantáveis e trabalhando o recheio com letras que o transformam em um professor de português. As melodias são formadas por intrincadas montagens melódicas criadas pelo próprio jovem músico, transformando Vinicius num incrível e versátil compositor e arranjador, que transita facilmente entre o blues, a MPB e o ritmo que sua voz achar mais relevante.

A variedade de estilos realmente chama a atenção e cada música parece ser tirada de uma época, de uma pessoa diferente. A começar pela faixa de abertura, “A Sentença”: um legítimo tango argentino – com sua bateria rufada, acordeom e piano – e uma incrível letra-aula de português, numa jogada ao mesmo tempo irônica e desafiadora. Uma forma diferente e gramaticamente bem explicada sobre um fim de relacionamento.

Vinicius passa ainda mais segurança cantando com sua veia nordestina com “Carcaça”, com seus ensinamentos pop em “Pecado Original” e na sentimental “Sangramento”, que encerra o disco. Destaques para o legítimo MPB de “Cara Metade”, a cantiga infantil “Dos Pés a Cabeça” e no estonteante samba irônico “Bala Perdida” – que tem outra das letras mais incríveis que você possa ouvir na nova leva da MPB brasileira. O disco ainda guarda excelentes momentos com “Blues da Solidão”, “Marca” e no dueto-briga de “Casa ao Revés”, que tem participação de Luiza Sales, Ana Luiza e Clara Rescala.


“Blues da Solidão”

Em alguns momentos, você começa a imaginar como outros cantores poderiam inserir as canções de Vinicius em seu repertório. Em Jogo de Palavras, a versatilidade predominante abre caminho para que desde Dominguinhos até Vanessa da Matta poderem re-interpretar uma canção do rapaz. Talvez isso se dê ao fato da voz nasal de Vinicius Castro, que dificulta um pouco a audição do disco. O fato de ter colocado de “A Sentença” para abrir o disco (faixa que tem a voz nasal mais aparente) também implica numa re-audição do álbum para se acostumar e realmente prestar atenção nos detalhes de arranjo e letra do álbum.

Assim que ouvi este petardo pela primeira vez, instintivamente acreditei que sobra qualidade nas letras de Vinicius Castro e falte um pouco de real sentimento e entrega às canções do jovem compositor. Um dia, ao questioná-lo sobre isso, fui surpreendido pela seguinte resposta: “Você pode gostar mais de algo que seja mais caído pra emoção e eu curto o que é mais racional. Afinal, Jogo de Palavras e não Jogo de emoções!”. E lá se foi o meu argumento…

De Volta Ao Ponto Que Partimos: The Baggios – The Baggios

Álbum: The Baggios

Artista: The Baggios

Lançamento: 8/07/2011

Selo: Vigilante

Baixe: thebaggios.com.br

Rockometro: 7

Energético, ruidoso e rápido. The Who, Rolling Stones e Led Zeppelin. Duas pessoas, baixo e bateria, cheio de riffs rasgantes. Toda semelhança com o White Stripes não é mera coincidência. O primeiro disco da dupla sergipana The Baggios, lançado virtualmente pela Vigilante, mostra uma banda com rockers entre os anos 60 e o bem conhecido indie dos anos 00. É quase como se a dupla brasileira estivesse fazendo as músicas que alguma grande banda da década passada tocasse, pegando todos aqueles riffs de guitarras indies, pesadas e viciantes e misturando com uma grande inspiração nacional – vindo de um vocal digno de Raul Seixas.

Logo nas primeiras faixas, fica fácil perceber que este não é um disco fácil, “quieto”, feito para animar a noite: é muito mais “barulhento” e enérgico do que isso. Porém, toda melodia indie muito bem tracejada pelos riffs de guitarra, que são literalmente acompanhados pelo vocal, acaba parecendo um repeteco sonoro logo no início do auto-intitulado disco.  Assim, faixas como “O Azar Me Consome” e “Aqui Vou Eu” soam quase iguais a “Pare Repare” e “Não Estou Aqui”, respectivamente. Mas é na sexta faixa que o disco começa a realmente acontecer. A presença de trompetes inesperados, gaitas e tons musicais diferentes deixam que músicas como “Oh Cigana” (com aquele pé afundado no White Stripes) e “Quanto mais eu rezo” (com um vocal quase lo-fi colocado num rock simples, indie e até dançante) soem grandes, bem compostas.

Foto: Sara Regis

Então, vem o que talvez seja a melhor e a mais dançante. “Morro da Saudade” tem todos os bons elementos que uma música bacana deve ter: guitarras meio country, gaitas, baterias dançantes estilo baile dos anos 60, tudo muito bem acompanhado do grande vocal do Hélio Flanders, do Vanguart. O lado sentimental e reflexivo aparece forte na faixa “Meu Eu”, outra grande pérola. Talvez seja nesta música que a letra ganhe verdadeiro destaque, entrando em perfeita sintonia com as com guitarras doídas e compenetradas. E assim termina o disco (já que as duas últimas faixas não têm relevância alguma -  são apenas mais exemplos desse rock’n’roll Rolling Stones com vocais “seixeanos”)

A simplicidade e sinceridade das letras ganham relevo num background influenciado pelo já conhecido rock inglês e norte americano, que não provoca surpresas, mas mesmo assim te faz ater-se com carinho. Afinal de contas, qual banda de rock dos anos 00 não reconhece o poder da música do seu século – e pensa em colocar pelo menos um tracejado musical dela na sua própria música?

 

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