Involuntariamente (ou não) a imprensa musical, com toda a sua exigência e suas listas de fim de ano, fez com que a qualidade de disco melhorasse exponencialmente, pois num mundo capitalista, ninguém quer ficar ‘pra trás’, mesmo que isso não tenha o mínimo sentido.
Mas, pra não contrariar os clichês da vida, isso também tem o lado ruim. Bandas competindo e ouvintes alienados. ‘Como assim, alienação nesse nosso meio? Isso não existe, Dayson.’ AHAM, sentem lá.
Do mesmo modo que reclamamos que a as redes de TV e de rádio influenciam e alienam as massas, fazendo com que eles escutem ‘aquilo que é ruim’, a NME e a Pitchfork, também fazem isso com sua cabecinha, amigo. Ou vai dizer que você não corre pra escutar aquele disco daquela banda totalmente desconhecida de obscure-dark-pop-post-hip-hop só porque alguma revista deu nota 9? E não, eu não culpo ninguém por isso. É involuntário, é necessário.
- Mas pra quê toda essa divagação? Onde o Arcade Fire entra nisso?
Então, a galera foi à loucura. Os integrantes do Radiohead são considerados deuses do Rock pra galera indie e Ok Computer é considerado o grande disco deles e talvez o melhor da história, então, se The Suburbs for realmente melhor, teremos o melhor disco da história. Nervos à flor da pele, o disco vazou e um balde de água fria é jogado num amontoado de franjas. Parabéns BBC, estragaram um ótimo disco, decepção pra muitos.
“The Suburbs”
Sabem porque todo mundo se decepcionou? A galera foi escutar o disco esperando que “Empty Room” fosse a nova “Karma Police”, esperando que Win Butler tivesse tiques espásmicos como o Thom Yorke, e é óbvio que isso não aconteceu. O Arcade Fire tem muita identidade pra querer ser comparado a qualquer banda.
- Mas então, The Suburbs é melhor ou não que Ok Computer?
Respondo a essa pergunta, que já me fizeram dezenas de vezes, mesmo que o disco só tenha vazado há um dia, assim: pra começar, o melhor disco da carreira do Radiohead é o In Rainbows, experimentalismo e apelo pop ao mesmo tempo. Genial. E na década passada, a tríade sagrada de discos é: Funeral, Neon Bible e In Rainbows, nessa ordem. E todo mundo sabe que os dois primeiros são os geniais discos do Arcade Fire. E The Suburbs? Bem, ele só não é melhor que Funeral.
Então, no mínimo, temos o melhor disco produzido desde 2004.
- Mas que tal falar sobre o disco em si?
Ok. Arcade Fire, além de uma banda, é praticamente uma família. Win é casado com Régine e é irmão do Will. Gara, Neufeld, Parry e Kingsbury são como seus filhos adotados e essa família recebe constantemente a visita do amigo Owen Pallet. O ambiente perfeito, onde a melancolia de cada integrante só é sobreposta pelo amor. Amor à vida, amor por si mesmo e aos próximos. Um ambiente onde você pode se submeter ao medo e ao sofrimento, mas que alguém, na hora exata, vai estar lá pra te resgatar.
Em The Suburbs, os irmãos Butler resolveram contar suas vidas, a infância difícil e sobre a vida nos subúrbios. E pra contar essas histórias, além das magníficas orquestrações, a banda adicionou a crueza do rock e obscuridade dos synths. Uma mistura de Depeche Mode com Neil Young, como eles mesmos dissseram.
“Ready To Start”
O disco é uma história e cada música se encaixa, montando um mosaico de nostalgias e sentimentos. As letras cheias de significado, carregam a melancolia de sempre, com fagulhas de esperança pra serem acessas.
Os destaques são as excelentes “Modern Man”, “Rococo”, “Empty Room” e “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”. Nessas quatro faixas vamos do som barroco de “Rococo” ao extremo pop com “Modern Man”.
O disco ganha pontos porque além de ser sincero e ousado, tem um apelo pop essencial, brincando com os estilos musicais sem perder a classe. E amigo, apelo pop é crucial pra qualquer grande disco ou qualquer grande banda, se não, o que seriam dos Beatles?
A única ressalva, o único porém, é que a história de The Suburbs ficaria muito mais linda se a voz doce de Régine Chessagne aparecesse mais.
Sem mais elogios na ponta dos dedos, repito que esse (por enquanto) é o disco do ano e um dos maiores discos da história. E acredito que esse não é o clímax da carreira dos canadenses do Arcade Fire. Podem anotar, muita coisa melhor ainda virá.
King of The Beach é o terceiro disco de inéditas do Wavves e, além de nos trazer boa música, mostrou que a simplicidade sonora, se feita com real sentimento, pode ser muito mais estrondosa do que qualquer produção milionária. Quem acompanha a carreira da banda sabe que o lo-fi sempre veio em primeiro lugar nas suas composições. Isso não mudou em sua nova obra, mas o som está claramente mais limpo e seu noise punk misturado com um surf rock por vezes psicodélico logo se torna uma sinfonia para os nossos ouvidos.
Nathan Williams, frontman do Wavves e maconheiro assumido (1:20), usou a mesma fórmula em todas as músicas que compõem King of The Beach: melodias cruas, rústicas e engraçadas. O diferencial é que cada canção tem seu brilho, sua graça e seu poder grudento. Por trás das guitarras barulhentas surgem alguns efeitos eletrônicos com um pé na psicodelia e o clima óbvio do surf rock envolve cada pérola com seu manto. Tudo isso somado ao senso de humor lírico exacerbado de Nathan não podia dar errado. E não deu…
A trip começa com a faixa-título: os riffs de guitarra simplórios são o bastante para fazer a canção grudar na cabeça. O mesmo acontece com a ótima “Super Soaker”, que segue uma linha despojada e flui em um ritmo mais acelerado do noise punk. “Linus Spacehead” começa com um baixo denso que logo abre espaço para a bateria e seguidamente para a guitarra arrastada. Logo depois o ritmo muda e “When You Will Come” abre a seção das poucas faixas calmas do disco com seu arranjo fofíssimo.
“Baseball Card” relembra os tempos do lo-fi excruciante do Wavves e abre alas para a sequência imbatível de três músicas que vem logo a seguir: “Take On The World” é a mais acessível do disco com o seu refrão viajante digno de arrepios na espinha. “Post Acid”, como seu próprio nome já indica, tem seu potencial lisérgico e debilóide explorado em seus curtos e ágeis minutos. “Idiot”, a faixa mais interativa e engraçada, começa com risadas e Nathan expele os versos “laugh, I bet you laugh” com sua voz e jeito de cantar lembrando mais do que nunca Liam Gallagher nos seus tempos de glória.
Depois de tanta brincadeira sonora (o efeito da maconha devia ter passado…), Nathan resolve levar seu lado gênio finalmente à sério com “Green Eyes”, uma faixa com uma letra/desabafo genial que mescla a rara aura calma do disco com a potente. “Baby Say Goodbye” fecha o disco com uma cara incrivelmente pop e doce, mas não deixa de fora seu lado barulhento, formando o noise pop.
King of The Beach é, sem mais nem menos, um retrato de Nathan. O rapaz fala o que quer, toca o que quer, e não se preocupa em agradar ninguém. Talvez isso faça dele um rapaz solitário no fim das contas, mas quem disse que ele liga? É como ele mesmo diz em “Green Eyes”: “My, my own friends hate my guts. So what? Who gives a fuck?”.
Se analisarmos a carreira do The Roots como um todo, fica difícil rotular a banda – não que isso seja necessário ou bom. As rimas sempre estiveram encravadas na alma metamórfica do grupo vindo da Filadélfia, que ao longo de 23 anos de carreira atirou para milhares de estilos e estéticas sonoras diferentes. Em How I Got Over, o The Roots apostou em letras reflexivas e trouxe de volta o bom e velho soul; uma cara meio jazzística; e foi mais consistente nas melodias, superando a crueza seca e pesada de seu antecessor, o ótimo Rising Down.
Além do charme melódico, aqui marcado por pianos doces que são ao mesmo tempo levados por batidas firmes, o disco conta com a presença ilustre de exemplos de genialidade como Joanna Newsom e exemplos de bons cristãos (blergh…) como o Monsters of Folk. As melodias marcadas pelo jazz, funk (o real) e principalmente pelo soul nos refrões fizeram deste um álbum não só para ser ouvido, mas também para ser refletido. Tamanha genialidade e experiência não poderiam transformar essa façanha em nada menos que o melhor disco da banda (na opinião do pobre redator que vos fala)…
O teclados leves de “A Peace of Light” abrem o disco na companhia das vozes maravilhosas de Amber, Angel e Haley do Dirty Projectors, que lançou um dos melhores álbuns do ano passado. A doce introdução abre os caminhos para a entrada da grandiosa “Walk Alone”, uma das melhores do disco que canta a solidão em versos como “work alone, sleep alone, eat alone…”. Logo depois vem “Dear God 2.0”, que conta com a presença do Monsters of Folk e de trechos da linda “Dear God”, música presente no primeiro e gostoso disco da banda. A batida, fiel à faixa original, é abraçada por teclados tristonhos e um ritmo aconchegante. Um dos pontos mais altos da bolacha.
“Now or Never” traz uma cara mais alegre e ensolarada com suas mensagens positivistas. Logo depois vem a ótima faixa-título, deixando claro que o soul ainda é uma das maiores paixões da banda. “Right On”, a faixa mais bela do disco, traz Joanna Newsom entoando lindamente os versos de sua música “Book of Right-On”, presente em seu debut. John Legend (blergh… [2]) é quem toma conta do refrão soul de “Doin’ It Again”, levada por ecos de sua voz e por um piano simplório que abre alas para as rimas rápidas e certeiras de Black Thought, Mc do The Roots. A batida engraçada, repetitiva e simples “Web 20/20” é o bastante para fazer da música uma das melhores do disco, que fecha com a nostálgica “Hustla”, faixa que caberia perfeitamente no último disco da banda com seu sintetizador denso, o já comentado Rising Down.
Depois de um espetáculo como este disco, o The Roots se consagra de vez como um dos melhores grupos de hip-hop da história da música. Se o disco de 2008 (talvez o favorito dos fãs) se chama Rising Down, o nome perfeito para essa nova façanha do Roots é Rising Up. Sempre crescendo, crescendo, crescendo…
jun 23rd 10
Postador por Andressa Muniz em Álbuns, Resenhas
Dizem que a expressão mais sincera da música enquanto arte ocorre quando se consegue unir a qualidade sonora à qualidade poética, sem perder a espontaneidade. Bem, se não dizem isso, eu estou dizendo agora e uso como exemplo o Apanhador Só.
A banda gaúcha, já muito elogiada web afora, enfim lançou seu primeiro disco em abril deste ano. Se os dois primeiros EPs foram uma mostra da identidade da banda, este primeiro LP é uma confirmação dessa identidade e uma demonstração de um som multifacetado, cuja mensagem se renova a cada audição.
Apanhador Só, o álbum, apóia-se principalmente no rock, na MPB e no pop, mas a sonoridade não se limita a isso, com influências que passam pelo folk, samba, country e, em certo momento, pelo tango. Embora as canções soem pop e digeríveis, o som é recheado de um experimentalismo sutil, calcado principalmente no uso de sucata como instrumentos improvisados, como a recorrente roda de bicicleta, que já se tornou um ícone da banda.
Apesar da identidade forte, Apanhador Só, assim como qualquer outra banda, não está livre de clichês. Quase todas as canções caem no lugar-comum universal chamado amor. Mas até esse clichê é retratado de um modo único, com versos que parecem resultado de um encontro entre a literatura de cordel e o realismo fantástico. Situações cotidianas são contadas através de um fluxo de consciência quase constante, com neologismos, versos soltos, rimas inteligentes e uma poética simples, mas longe de ser simplista.
“Maria Augusta”
O rock suave, apoiado por diversas outras influências, é complementado pelos versos peculiares de Alexandre Kumpinski – que já pode ser considerado um dos letristas mais brilhantes da nova safra da música brasileira –, que receberam contribuições do poeta Diego Grando. O resultado é um retrato pitoresco de uma versão mágica da realidade.
As particularidades poéticas podem ser vistas em sua melhor forma em “Balão-de-Vira-Mundo”, que parece retratar um mundo à parte, onde a fantasia é embalada por uma sonoridade densa, com uma guitarra pesada que ultrapassa a fronteira para flertar com o tango argentino.
A poesia toma ares mais populares em “Maria Augusta”, que soa quase como uma cantiga de amor. O quase hit aparece aqui em uma versão mais intensa, com as linhas de baixo excepcionais combinadas a guitarras mais marcantes, que garantem um clima quase dançante, mas sem perder a ligação com a MPB. Esse vínculo entre o rock e a MPB se faz mais marcante em “Pouco Importa” que, não por acaso, é a faixa que mais usa da herança ‘hermanística’ do indie rock contemporâneo.
As linhas de baixo e os riffs espertos que marcam o som do Apanhador são combinadas a uma quebra de ritmo e a metáforas quase irônicas na animada “Prédio”. As tão comentadas linhas de baixo, aliás, ganham um clima denso com guitarras mais presentes e unem-se a versos melancólicos em “Nescafé”, que explora com excelência as rimas inteligentes e cria um jogo fonético sutil.
Mostrando que o Rio Grande do Sul produz mais do que apenas bandas de rock cru, Apanhador Só combina com muita harmonia a leveza poética com a intensidade do rock e a facilidade do pop. O resultado é um pop inteligente e lírico na sua forma mais elementar: música popular.
Rockometro: 6,8 (melhora a medida que se repetem as audições)
Sou o cara grunge do Rock in Press. Maldito hippie sujo. Aquele cara podrão e farofeiro que em pleno tempos de bandas como Muse e Arctic Monkeys, ainda respiro os anos 90 e nomes como Pearl Jam, Nirvana, Alice in Chains, Soundgarden e Stone Temple Pilots (que sei que não é grunge mas é da mesma época).
Depois de uma curta e conturbada temporada na super banda Velvet Revolver, o problemático Scott Weiland se reuniu com os antigos parceiros e acabaram fazendo uma turnê que resultou no fraco Stone Temple Pilots.
O sexto album de estúdio da banda consegue mostrar o que eles tem de melhor: a voz de Weiland e as batidas pulsantes das músicas. Infelizmente o melhor do STP se torna repetitivo demais e que só ganha forças em canções individuais como o single “Between the Lines” ou na riff irada de “Hazy Daze” (que mesmo sendo um clichê do hard rock, consegue agradar bastante. é o velho mais do mesmo que todo mundo ama).
A cada nova audição o album soa melhor, mas quem é que quer insistir num disco que soou ruim no primeiro contato? E o STP ainda esbarra no problema das músicas serem bem parecidas, culpa da grande quantidade de solos, frases e riffs que a banda despeja sem dó ao longo de suas canções.
Clipe de “Between the Lines”
Apesar disso, Scott Weiland e companhia conseguiram chegar perto de repetir o sucesso de faixas como “Big Bang Baby” no primeiro single. Se tem uma música que facilmente irá aparecer na minha lista de melhores do ano, ela tem o nome de “Between the Lines”. Bateria agressiva e extremamente pegajosa. Mais cara de sucesso impossível. Nem mesmo o fato dela soar como uma mescla de tudo que a banda já fez de bom no passado com “Stay Away” do Nirvana, tira os méritos do single.
Outras músicas como “Hickory Dichotomy” e a radiofônica “Dare if You Dare” também cumprem o papel de evitar uma catástrofe completa na segunda reunião mais aguardada de 2010. A primeira é a do Soundgarden. Conservador? Imagina.
Sei bem que o CheFí tem um posicionamento muito bem definido para o site e foram raras as oportunidades que outros estilos de música brotam nas páginas do RinP (que hoje em dia são muito concorridas), mas é preciso lembrar e dizer sempre que os indies de plantão não nasceram sabendo tocar os seus acordes e canções bonitinhas.
Durante muito tempo tiveram que frequentar a escola de dinossauros como o Stone Temple Pilots e outras bandas antigas para que um dia chegassem ao ponto em que se encontram hoje em dia. Pena que o novo trabalho dos “velhinhos” não coopera com o ditado de que panela velha é que faz comida boa.