Escrever sobre Direito de Ser Nada, o mais recente lançamento do conjunto goiano Violins, é uma tarefa que me permite refletir sobre a tênue a distância que demarca conflituosa relação entre o exercício da crítica musical e a adoração por uma banda. Portanto, para que fique bem claro, caros leitores, desde já me posiciono dizendo que quem aqui vos escreve é, de antemão, grande simpatizante do conjunto liderado por Beto Cupertino.
Contudo, com o passar dos anos, percebi que o verdadeiro fã, longe de celebrar cegamente cada novo trabalho de seus ídolos, deve, inversamente, aprender a balancear melhor o significado dos lançamentos tentando criar uma medida a partir da diferença entre o trabalho que foi realizado e o aquele poderia ter sido feito.
As primeiras mostras do esqueleto de Direito de Ser Nada vieram à tona no final de 2010 com a divulgação do áudio de nove canções do show que a banda fez no Festival Do Sol, realizado na cidade de Natal. Para tristeza de uns e alegria de outros – estou incluído neste último grupo -, as músicas apontavam para uma ruptura com o passado recente ao adquirir uma pegada mais leve, solar e descompromissada – fato este comprovado com o lançamento virtual da bolacha realizada no dia 19 de abril.
“Medo de Dar Certo”
Um primeiro aspecto que deve ser considerado sobre o disco está no próprio anti-conceito que dá nome à empreitada: o formato conceitual adotado por Beto Cupertino para aglutinar suas composições – uma de suas grandes marcas – é abandonado em prol de um CD sem amarras temáticas. Ou pelo menos aparentemente sem amarras, uma vez que Direito de Ser Nada acaba por ser um reencontro com a temáticas do amor, alvo de preocupação do letrista, sobretudo, nos dois primeiros trabalhos da banda. Porém se a temática é habitual ao universo musical o tratamento lírico apenas atesta a imensa versatilidade de Cupertino.
Enquanto o Toque Dela, outro grande lançamento musical deste ano – mais pela música do que propriamente pelas letras – fez de Marcelo Camelo a encarnação literal de um bobo apaixonado, o letrista do Violins emociona ao captar sentimentos que fogem ao lugar comum. “Medo de Dar Certo”, a grande canção do disco, retrata o amor por seu avesso: o receio de perder a liberdade – ou ao menos uma liberdade distorcida como alerta Cupertino (a idéia de ser livre errada/separa toda gente). “Rumo de Tudo”, por sua vez, é um contraponto irônico: “pra eu me redimir do meu comportamento cínico/ e me recuperar de vez de um mau estado clínico/ me hidrate a pele com as benesses do seu suco gástrico”.
O olhar apurado e desconcertante de Beto permeia outros belos momentos do disco como em “emendo seus cortes porque não é bom inaugurar só o que pode durar”, de “Do Combate” e “perdoar é a maior das injustiças – se é tão fácil, qualquer um na rua é capaz”, da faixa “Perdoar é a Maior das Injustiças”. Musicalmente falando o disco é permeado por vários momentos primorosos como o empolgante crescente épico de “É Como Está”, a delicadeza de “Rumo de Tudo” com seus belos pianos, os metais e o ar dançante de “Nossos Embrulhos”, as paradinhas e o refrão de “O Grande Esforço” e a veia stoner de “Medo de Dar Certo”. Por outro lado, quando Direito de Ser Nada teima em revirar a ossada do passado recente o resultado é previsível e cansativo como em “Do Combate”, uma mistura piorada sem tirar nem por de “Terrorista Justo” com a grandiosidade do refrão da “Festa Universal da Queda”.
Essas queixas apenas reforçam o lamento pela ausência de grandes músicas como a excelente “Sono de Rei” – executada no Festival do Sol -, “Real Revolução” e “Ressaca” – para não citar a absurda “Constrangimento ao Diabo”, lado b que traz em um de seus versos o nome do disco. Se uma correção de rota ou um desvio completo de direção, pouco importa. Direito de Ser Nada, com seus quarenta minutos, faz jus as expectativas: emociona o fã e agrada o critico.
Depois da grande expectativa que criou-se em torno do segundo álbum solo do Marcelo Camelo finalmente, nestas últimas semanas, tivemos o prazer de ouvir o novo trabalho do cantor, que se mostra mais maduro e mais técnico em suas composições. Somente após ouvir e pensar muito sobre o álbum algumas ponderações foram feitas sobre essa obra que não é nem incrivelmente espetacular, nem de toda ruim. Com pontos altos e baixos Marcelo Camelo se mostra mais alegre, menos egocêntrico e muito mais direto.
O trecho “Tudo que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela” cantado em “Ô ô” define exatamente qual é o tom da obra: sobre ela, para ela e por ela. O Toque Dela no violão dele é visível, trazendo de volta um Camelo que não víamos desde as grandes composições românticas dos Los Hermanos. Parece que apesar dos prós e contras, Mallu fez um bem ao compositor, fazendo-o composições muito mais alegres, ajudando inclusive em um trabalho de percussão muito mais visível e consistente. Não deixa de ser um Sou, as características do cantor estão todas lá, mas muito mais exuberantes.
O álbum já abre com a ótima “A Noite” uma das – se não – a melhor música do álbum. Com uma percussão muito bem trabalhada numa belíssima marchinha orquestrada, que acompanhada pela voz de Camelo passa um sentimento gostoso e agradável, pontuado pelo solo de metal. A música é seguida pelo primeiro single do álbum, a já conhecido “Ô ô”. A música é singela e criada para grudar de tal forma em nossos ouvidos. A letra é bem repetida (e meio desconexa), com melodia bem marcada, deixa evidente que foi feita para ser “aquela que todos vão cantar”.
“Tudo o que você quiser” é uma declaração muito singela do autor em busca de um recomeço com a/uma amada. Destaque para os pratos que acompanham com ternura e discrição a melodia e ao fim dividem espaço com um melodioso acordeão de Marcelo Jeneci – companheiro de arranjos do Camelo em boa parte do álbum. Na sequência somos presenteados com a ótima “Acostumar”, outra que é bem chiclete com repetições sonoras nos versos, mas que é incrivelmente aconchegante e com ótimo um solo de guitarra.
“Pretinha” lindamente lembra as composições do cantor no Los Hermanos. A música como diz Camelo é “Pra a gente se perder, amor”. Muito gostosa e divertida de se ouvir. “Pretinha” é seguida pela igualmente fofa “Três Dias” que deveria na realidade se chamar “Minas Gerais”. A música é manhosa, com uma bateria discreta, fazendo muito carinho aos ouvidos.
A segunda parte dá lugar a um álbum nem tão interessante assim, a pontualidade meio que é perdida e em alguns pontos quando é encontrada é atrapalhada com maestria por outros fatores técnicos. A bossa de “Pra te acalmar” tem uma melodia já bem batida na música brasileira e uma letra nem um pouco criativa, fazendo parecer ter sido tirada de algum lugar. Em “Vermelho” uma letra e melodia muito inteligentes (bem a lá Los Hermanos), encontramos um Camelo e metais igualmente perdidos, botando tudo a perder.
“Despedida” é também outra que pode ser muito bem encontrada no repertório de qualquer grande compositor brasileiro (não por acaso foi gravada primeiro por Maria Rita), com uma letra e uma melodia já bem batidas e executadas de uma forma nada interessante. O álbum tem seu desfecho com a mediana “Meu amor é teu” uma grande declaração de Camelo a Ela, mas que nem de longe remete ao brilhantismo das primeiras músicas do álbum.
A pergunta que inevitavelmente fica é: porque Marcelo Camelo que sempre teve uma originalidade de se admirar deixou suas influências transparecerem muito mais do que sua própria obra? Mostrar maturidade e crescimento em técnica não quer dizer copiar grandes nomes e clássicas melodias da música brasileira, a maturidade poderia ser própria e se mostraria muito mais interessante.
On No On é o novo projeto de Filipe Consoline, prolífico músico paulista que já nos agraciou com um cd e um EP no incrível mono.tune, um álbum com a Labmusica e Venus Volts, além de singles aleatórios com a mesma VV. É interessante ver a mutação e variação de gêneros e gostos de Filipe em curso com suas bandas. Sem deixar de ser ele, impondo sua marca e variando sempre no foco.
Polyamory foi composto em pouco mais de um mês, após Filipe constatar seus problemas com o café, assim, no meio da rua. No mesmo dia já estava em seu quarto-estúdio dando os primeiros acordes de guitarra das 6 músicas que compõem o EP. É engraçada a forma de trabalho e acabamento que Filipe dá as músicas, fazendo-as parecer que são singles únicos, ao mesmo tempo iguais e diferentes de si, somente amarradas pelo clima. Todas poderiam soar como faixa de abertura ou encerramento do cd, talvez por isso Consoline teve tantas dificuldades de organizar a ordem das faixas para o lançamento.
O nome do álbum e da banda foram escolidos dias antes do lançamento oficial, sendo que a faixa de abertura, “Things I Like”, só entrou na dead-line da meta. A faixa, alias, deverá ser o clipe oficial do álbum, brigando com “Pea Tea”, que tem o tema que define bem a origem da banda. Já a divertida faixa título parece emendar um refrão atrás do outro. Para quem não sabe, “Polyamory” significa “dividir seu coração em vários pedaços, sem quebrá-lo”, o que reflete bem o momento que ele está passando pessoalmente.
Mas as melhores definitivamente são “Out of The Blue” e “Everylasting Cliche”. Ambas contém vocais doces, em melodias suaves, flutuando em cima de guitarras hora distorcidas, ora dissonantes, propostas num arranjo instigante e bem trabalhado. Alias, todas as músicas e instrumentos foram compostos e gravados pelo próprio Filipe Consoline em seu quarto, com excessão da bateria, que foi feita no Red Mob Studios, em São Paulo. “My Love Is Gone When I’m Satisfied” encerra o álbum de maneira colante e direta – um bom reflexo da proposta do ep.
Filipe, ajudado por Cifas, André e Marina, deverá começar a apresentar o On No On ao vivo a partir de final de abril/ início de maio deste ano. Talvez uma lapidada ali e mais investimento nas canções densaa aqui fariam da bolacha algo muito hipnotizante. No geral, é um bom registro de canções bonitas e feitas quase que expontaneamente. Válido para fim de tarde e pessoas querendo se destrair. O Ep pode ser baixado gratuitamente na Trama Virtual ou ouvido no Bandcamp.
fev 23rd 11
Postador por Jairo Borges em Álbuns, Resenhas
2011 mal começou e o hype já está aí novamente! Os responsáveis por “fazer escola” no New Rave australiano e tirar o mofo dos synths estão de volta e, acredite se quiser, orgânicos como nunca estiveram. Parece que o Cut Copy não estava satisfeito só com os títulos de New Rave e Synthpop, e resolveu investir dessa vez em algo que conversa muito mais com o Indie Rock, sem perder sua grande ligação com a música eletrônica.
Zonoscope é daquelas obras que, logo de cara, mostra que a proposta é instigar o ouvinte. Cheio de influências e ritmos, porém com muito mais cara de pop que experimental, o Cut Copy diz logo que a ideia é fazer musica para dançar sim, só que dessa vez explorando novos horizontes. Os fãs que esperavam algo mais pista como “Feel The Love” e “Hearts on Fire” são obrigados a esperar até a faixa quatro, onde a banda mostra muito mais a sua identidade.
O álbum já abre com a contagiante “Need You Now” e sua introdução no sintetizador e no pandeiro te convidando a dançar sem parar pelos próximos 60 minutos. A música tem um daqueles refrãos grudentos e bem piegas que só o Cut Copy está autorizado a fazer, os ecos, a vibe “New Order”, está tudo lá. Zonoscope não perde em momento algum a identidade com os anos 80, só que aqui menos declarada que em Ghost Colours.
“Take me Over” tem uma pegada completamente diferente de tudo que já vi a banda fazer, porém não podia soar melhor. A mistura do som da banda com uns tambores e uns riffs bem divertidos, dão um ar bem descontraído à musica que propõe ao ouvinte ir para outra realidade. “Where I’m Going” que vem na sequência é igualmente divertida e tem menos ainda cara de Cut Copy. Com uma guitarra que permeia algo meio anos 60, a música parece um grande devaneio do autor, acompanhado de vários “uhhh”, “oh”, “Yeahh” e trechos que se repetem continuamente.
Em “Pharaohs & Pyramids” é onde enxergamos pela primeira vez claramente a banda e onde, digamos, a fôrma anos 80 começa a exagerar. A música é salva apenas por alguns trechos com cara de dubstep. E não para por aí, parece que “Blink And You’ll Miss A Revolution”, que vem logo na sequência, faz o combo da breguice com sua antecessora. Nessa já conseguimos enxergar um pouco mais da nova proposta da banda, porém o meloso refrão é uma coisa que realmente não dá para fazer vista grossa.
O interlúdio “Strange Nostalgia For The Future” é coisa rara de se ver. Tem um quê de Chillwave que lembra muito o último álbum do Ratatat abrindo caminho para a igualmente incrível “This Is All We’ve Got”. As duas também mostram um Cut Copy até então escondido e com um eletrônico que flerta muito com o Psicodélico e o Dreampop. “Alisa” tem os melhores riffs e mostra um sensato equilíbrio entre o eletrônico e o indie rock.
“Hanging Onto Every Heartbeat” é mais do mesmo, bem retro, com um refrão bem marcado e muito harmônico, porém nada mais do que isso. Nas duas músicas finais a banda recupera sua proposta inicial de fazer uma percussão diferente e à mistura a ritmos já conhecidos da banda. “Corner Of The Sky” e “Sun God” apresentam alguns elementos tribais fáceis de identificar em qualquer banda australiana, e que nesta última se perduram por 15 minutos de puro tribal beat e muitos sintetizadores.
No resumo é isso, se tem uma banda que nunca decepciona a cada lançamento é o Cut Copy, por mostrar não só o que já fazem muito bem, mas pelo interesse contínuo em inovar. Zonoscope tem uma perna e um braço no experimentalismo, mas mostra de longe que a banda amadureceu e está fazendo um som muito mais interessante e menos segregativo.
Seria difícil enumerar as várias bandas que o Gang of Four influenciou ao longo de sua conturbada trajetória. Mais que difícil, seria um grande desperdício do tempo do leitor começar a mencionar as mesmas coisas que todas as críticas que o divertido Content recebeu. O que importa se o guitarrista Andy Gill influenciou tanto o Chili Peppers, que chegou até mesmo a produzir o disco de estréia da banda? As informações sobre o passado e a forma como o Gang of Four moldou toda uma geração de bandas não importam tanto. O que interessa é saber o que que a banda tem para mostrar depois de uma pausa de 16 anos desde o último lançamento de inéditas.
Quando “reapareceram” em 2004, a banda foi logo reconhecida como a responsável por todo o movimento indie rock que explodia no mundo todo. Alex Kapranos e seus fãs tiveram o seu momento “Luke Skywalker, i`m your father” quando Jon King (vocalista), Andy Gill (guitarrista), Dave Allen (baixista) e Hugo Burnham (baterista) reataram e fizeram uma pequena tour, que chegou até a passar pelo Brasil. O Gang of Four podia até parecer um pouco deslocado e desatualizado, mas para quem tem verdadeiras porradas dançantes como “Damaged Goods” no repertório e um guitarrista com um swing infernal como Gill, não seria difícil recuperar o tempo perdido e mostrar o motivo de serem considerados os pais do indie rock.
Mais de cinco anos se passaram desde aqueles shows até o lançamento de Content. Com uma formação diferente (a cozinha agora é formada por Thomas McNeice e Mark Heaney, baixo e bateria respectivamente) os cinquentões ingleses se mostram em forma com 11 canções dançantes com aqueles três minutinhos sempre eficientes para agitar qualquer público. Apesar do destaque ficar por conta da guitarra quente de Andy Gill, os grooves da cozinha não deixam a desejar em momento algum. Com destaque especial para “You`ll Never Pay For the Farm” (que nos faz pensar se o Offspring também não foi uma das várias bandas influenciadas pelo quarteto) e “I Can See From Far Away”. Mas é até injusto querer dividir as atenções quando o guitarrista aparece tão inspirado e fazendo milhares de riffs pegajosas e que serviriam de base para composições de John Frusciante e Tom Morello, dois mestres no assunto de criar riffs. Basta ouvir “I Party All the Time” e entender de onde vinha toda aquela fúria funky dos primeiros discos do Chili Peppers.
Fácil de ouvir e gostar, Content é daqueles cd`s que funcionam para passar o tempo até surgir algo mais energético e animado: descartável como a maioria dos trabalhos indies atuais (The Suburbs do Arcade Fire e High Violet do The National são as raras exceções). Recheado de pérolas animadas como “Who Am I?” e “Do As I Say” (a voz lembrando o Iggy Pop é sensacional), o Gang of Four faz um disco que mantém o título de pais do indie rock e que se está longe de ser um clássico inesquecível, pelo menos não vai causar nenhum tipo de reação negativa junto aqueles que ainda não se converteram ao lado negro da força.