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Saudades e Despedidas: Transmissor – Nacional

Álbum: Nacional

Artista: Transmissor

Lançamento: 9/08/2011

Selo: Independente

Ouça: melodybox.com.br/transmissorband

Rockometro: 8,5

Sim, sim! Isso é sentimento de verdade! É sincero aquilo que você sente no limiar de “Hoje”, faixa que encerra este bonito álbum. O que seus ouvidos escutam é um belo apanhado de canções criadas por pessoas que se colocaram dentro das músicas, interpretando-as com a alma e sentimento, gerando letras que correspondem aos seus anseios naturais momentâneos e arranjos que exploram a qualidade e versatilidade dos músicos.

Nacional, nome do segundo disco dos mineiros do Transmissor, mostra uma banda inspirada e ainda mais unida, dando mais espaço para composições coletivas. Jennifer Souza ganhou mais destaque com sua voz doce, servindo como interlocutora entre o ouvinte e o cantor em quase todas as faixas, mesmo quando faz apenas acompanhamento no fundo. Os arranjos passaram a ter guias fundamentais baseadas nos teclados, xilofones, metalofones e piano – sem contar o adicional luxuoso de instrumentos de sopro em algumas faixas. Todo o processo foi levado como quem cuida de um filho e essa beleza e cuidado fica expresso logo na primeira ouvida no disco.

Jennifer se superou nas composições, com letras mais duras e trocando saudades por despedidas, assim como Thiago Correa canta na já citada “Hoje”. Thiago, alias, divide a composição de “Traz o Sol Pro Meu Lado da Rua” com a lenda Vander Lee, criando para o álbum uma canção legitimamente folk, ainda que recheada por xilofones e violinos, mas guiada pelo bom e velho violão.

Não negando as influências, a versão de “Nada Será Como Antes” – parceria de Milton Nascimento com Ronaldo Bastos que figurou no primeiro disco do Clube da Esquina – ganha guitarra e bateria mais pesada, meio que atualizando a música para os tempos atuais. Os vocais dobrados de Thiago e Jennifer traduzem a mensagem que a música passa, como se fosse o pensamento de um casal, ‘cada um ao seu canto’ – e esse é um artifício que a banda usa magistralmente desde o disco de estreia, colocando backvocals em momentos que a letra se direciona para um casal, como uma resposta a cada frase dita.

“Dois Dias”, “Bonina” e “Só se For Domingo” são a linha de frente do álbum: canções fáceis, altamente assobiáveis, feitas para aproximar o público e fazê-lo se encaixar no álbum, como um abre alas para um belo desfile de músicas apaixonantes.

A grande dica para este disco é não tentar procurar um novo Sociedade do Crivo Mutuo e sim enxergar uma banda mais democrática, mais unida, com ideias fluindo de todos os lados. Além disso, as faixas funcionam muito melhor se você ouvi-las com sua própria ordem ou em separado, prestando bastante atenção nos detalhes mínimos que a banda se propõe a fazer – “Dessa Vez”, “Longe Daqui” e “Outra Ela” são bons exemplos de músicas que deve-se escutar em separado.

Nacional é um bonito álbum feito para pessoas de coração aberto, ferido ou vazio. Relacionamentos terminam, mas a música sempre fica para nos contar uma nova história de amor, até o fim ou até a próxima faixa.

O Português e o Plural no Brasil; Vinicius Castro – Jogo de Palavras

Álbum: Jogo de Palavras

Artista: Vinicius Castro

Lançamento: 25/11/2010

Selo: Independente

Ouça: viniciuscastro.com.br

Rockometro: 8

Vinicius Castro é um jovem cantor de ritmos plurais que atualmente se reserva no Rio, mas é nascido em Recife e já rodou o país absorvendo novas culturas e estilos – que de algum jeito foram despejados em sua música verde e amarela. Jogo de Palavras é um trabalho totalmente autoral, com foco nas letras e destaque nos arranjos.

Vinicius decidiu organizar as palavras com a gramática em baixo do braço, pontuando as frases com fáceis rimas cantáveis e trabalhando o recheio com letras que o transformam em um professor de português. As melodias são formadas por intrincadas montagens melódicas criadas pelo próprio jovem músico, transformando Vinicius num incrível e versátil compositor e arranjador, que transita facilmente entre o blues, a MPB e o ritmo que sua voz achar mais relevante.

A variedade de estilos realmente chama a atenção e cada música parece ser tirada de uma época, de uma pessoa diferente. A começar pela faixa de abertura, “A Sentença”: um legítimo tango argentino – com sua bateria rufada, acordeom e piano – e uma incrível letra-aula de português, numa jogada ao mesmo tempo irônica e desafiadora. Uma forma diferente e gramaticamente bem explicada sobre um fim de relacionamento.

Vinicius passa ainda mais segurança cantando com sua veia nordestina com “Carcaça”, com seus ensinamentos pop em “Pecado Original” e na sentimental “Sangramento”, que encerra o disco. Destaques para o legítimo MPB de “Cara Metade”, a cantiga infantil “Dos Pés a Cabeça” e no estonteante samba irônico “Bala Perdida” – que tem outra das letras mais incríveis que você possa ouvir na nova leva da MPB brasileira. O disco ainda guarda excelentes momentos com “Blues da Solidão”, “Marca” e no dueto-briga de “Casa ao Revés”, que tem participação de Luiza Sales, Ana Luiza e Clara Rescala.


“Blues da Solidão”

Em alguns momentos, você começa a imaginar como outros cantores poderiam inserir as canções de Vinicius em seu repertório. Em Jogo de Palavras, a versatilidade predominante abre caminho para que desde Dominguinhos até Vanessa da Matta poderem re-interpretar uma canção do rapaz. Talvez isso se dê ao fato da voz nasal de Vinicius Castro, que dificulta um pouco a audição do disco. O fato de ter colocado de “A Sentença” para abrir o disco (faixa que tem a voz nasal mais aparente) também implica numa re-audição do álbum para se acostumar e realmente prestar atenção nos detalhes de arranjo e letra do álbum.

Assim que ouvi este petardo pela primeira vez, instintivamente acreditei que sobra qualidade nas letras de Vinicius Castro e falte um pouco de real sentimento e entrega às canções do jovem compositor. Um dia, ao questioná-lo sobre isso, fui surpreendido pela seguinte resposta: “Você pode gostar mais de algo que seja mais caído pra emoção e eu curto o que é mais racional. Afinal, Jogo de Palavras e não Jogo de emoções!”. E lá se foi o meu argumento…

De Volta Ao Ponto Que Partimos: The Baggios – The Baggios

Álbum: The Baggios

Artista: The Baggios

Lançamento: 8/07/2011

Selo: Vigilante

Baixe: thebaggios.com.br

Rockometro: 7

Energético, ruidoso e rápido. The Who, Rolling Stones e Led Zeppelin. Duas pessoas, baixo e bateria, cheio de riffs rasgantes. Toda semelhança com o White Stripes não é mera coincidência. O primeiro disco da dupla sergipana The Baggios, lançado virtualmente pela Vigilante, mostra uma banda com rockers entre os anos 60 e o bem conhecido indie dos anos 00. É quase como se a dupla brasileira estivesse fazendo as músicas que alguma grande banda da década passada tocasse, pegando todos aqueles riffs de guitarras indies, pesadas e viciantes e misturando com uma grande inspiração nacional – vindo de um vocal digno de Raul Seixas.

Logo nas primeiras faixas, fica fácil perceber que este não é um disco fácil, “quieto”, feito para animar a noite: é muito mais “barulhento” e enérgico do que isso. Porém, toda melodia indie muito bem tracejada pelos riffs de guitarra, que são literalmente acompanhados pelo vocal, acaba parecendo um repeteco sonoro logo no início do auto-intitulado disco.  Assim, faixas como “O Azar Me Consome” e “Aqui Vou Eu” soam quase iguais a “Pare Repare” e “Não Estou Aqui”, respectivamente. Mas é na sexta faixa que o disco começa a realmente acontecer. A presença de trompetes inesperados, gaitas e tons musicais diferentes deixam que músicas como “Oh Cigana” (com aquele pé afundado no White Stripes) e “Quanto mais eu rezo” (com um vocal quase lo-fi colocado num rock simples, indie e até dançante) soem grandes, bem compostas.

Foto: Sara Regis

Então, vem o que talvez seja a melhor e a mais dançante. “Morro da Saudade” tem todos os bons elementos que uma música bacana deve ter: guitarras meio country, gaitas, baterias dançantes estilo baile dos anos 60, tudo muito bem acompanhado do grande vocal do Hélio Flanders, do Vanguart. O lado sentimental e reflexivo aparece forte na faixa “Meu Eu”, outra grande pérola. Talvez seja nesta música que a letra ganhe verdadeiro destaque, entrando em perfeita sintonia com as com guitarras doídas e compenetradas. E assim termina o disco (já que as duas últimas faixas não têm relevância alguma -  são apenas mais exemplos desse rock’n’roll Rolling Stones com vocais “seixeanos”)

A simplicidade e sinceridade das letras ganham relevo num background influenciado pelo já conhecido rock inglês e norte americano, que não provoca surpresas, mas mesmo assim te faz ater-se com carinho. Afinal de contas, qual banda de rock dos anos 00 não reconhece o poder da música do seu século – e pensa em colocar pelo menos um tracejado musical dela na sua própria música?

 

Entorpecidos de Sonhos na Lulilândia: Lulina – Cristalina

Álbum: Cristalina

Artista: Lulina

Lançamento: 9/10/2009

Selo: YB Music

Site Oficial: lulilandia.wordpress.com

Rockometro: 8/10

Quando criança, sonhamos em ser grandes – olhamos para nós mesmos no futuro e nos vemos como alguém que chegou a algum lugar. Mas e quando uma pessoa, certo dia, se depara com o lugar-nenhum do espelho ao invés de todo aquele mundo criado na infância? Muitas vezes acaba por inebriar-se na própria desolação e tenta transformar a fumaça em algodão-doce, numa volta ao pequeno que nunca deixou de ser.

É isso que Lulina faz. Acende uma luzinha embaixo da cabana de cobertor e sussurra causos, faz chacota, conta fábulas fofas e, às vezes, grotescas. Cristalina (2009), seu álbum de “estréia” – entre aspas porque passou por um processo muito interessante até ser cristalizado de fato – traz músicas primeiramente gravadas em plays caseiros, com o laptop Hermeto (Pascal?), compostas no chão da sala entre cervejas e amigos, durante domingos de febre ou noites fúnebres. Aqui, essas músicas soam limpas, “perfeitas”, perdem um pouco da inocência doce e tosca de algumas gravações precárias.

Fazer uma resenha desse álbum é tarefa ingrata porque o retrato aéreo da Lulilândia já foi registrado por Xico Sá, que certamente a entende muito melhor do que eu. Eles falam a mesma língua (reparem nas letras dela e na resenha dele). Mas não custa tentar olhar por um ângulo diferente – entre a luz e a sombra da toca do coelho. E como em todo sonho ou realidade inebriada, não vou ater-me a sequências. Cristalina é um disco para ser lido como uma fábula, ouvido como uma trilha sonora alternativa para o filme “Onde Vivem os Monstros”, de Spike Jonze, degustado como o bolo de chocolate feito pela sua avó.

Em “Do You Remember, Laura?”, a moça parece uma criança lendo a redação na escola. Ca-da sí-la-ba pronunciada com ênfase, num encaixe de lego na melodia. Já é grande, mas fala como criança. Até para quem odeia esse estilo de música a nostalgia venta gelada pela porta dos fundos. “Jerry Lewis” soa bonitinha como Belle & Sebastian. Porém, as doenças do senhor Lewis, seus 28 quilos a mais e sua decadência derradeira – toda essa desgraça condensada – acabam tão dissonantes da melodia de acordes maiores que dá vontade de rir.

Esse contraste entre letra e melodia é o mais interessante do álbum, sem dúvida. “13 de Junho” segue a linha divertida, assim como “O Príncipe”, que quase cai no brega com um solo de teclado de gosto duvidoso. Avaliar se os timbres são intencionais para tirar sarro ou se no fundo há um desejo de soar conceitual e contemporâneo fica a critério do ouvinte. Aposto na primeira opção.


Clipe de “Nós”

“Sangue de ET” é outra com uma letra muito boa, uma “hemodiálise de aliens pra deixar todo mundo normal”. O tecladinho de efeitos alienígenas enche um pouco às vezes, mas vale dentro desse contexto extraterrestre. Mais doenças em “Biebs”, quando a pobre Lulina não sabe se dormiu ou morreu com bolhas na pleura. “No café eu parei de respirar e comecei a formigar”. Se não fossem as melodias alegres, esse álbum seria fúnebre. E com mais 30% de doenças, poderia acabar em “Doutores da Alegria”. A dose do remédio foi na medida.

Percebemos que “Criar minhocas é um negócio lucrativo” para nossa Alice tupiniquim. Pessoas com cabeça de televisão e seus “Argumentos” numa nuvem de poluição a inebriam e invadem seus sonhos. Mas o onírico acaba em “Narcolepsia” – acorda, atende o telefone, trabalha – todos os imperativos estão contra você. “Mi Gostar Musga” é uma dor de cotovelo amorosa da qual se esquece rápido, enquanto o banjo da “Margarida” dura um dia de sol no parque. A certa altura, a voz muito açucarada começa a enjoar. Mas daí você se lembra que são músicas de ninar para gente grande. Nada de estresse. É um álbum inocente.

A linha vocal segue sem muita variação, suave, talvez herança da Bossa Nova – porque já a “Bosta Nova” remete a um “Xou da Xuxa” esquizofrênico – “Vou explodir de tanta alegria” é uma passagem hilária e deprimente. Cai como uma Cidra no Ano Novo, só que muito mais forte.

Na “Música Para Colocar Naquele Som Com Despertador” temos um bom resumo do ser Lulina, letra boa, parece otimista nas primeiras palavras para em seguida descer a ladeira numa deprê feita de monotonia. Em “Poesia”, a risada é triste. E o sonho é bem agridoce. Vai saber se esse sonho é brisa de baseado na “Balada do Paulista”, né meu? Essa música é ótima. Até porque hoje em dia todo mundo se ofende muito fácil por muito pouco e muita gente deve ter tido vontade de mandar a Lulina se fuder, assim como a própria nos manda em “Subtexto”. Finalmente, “Bichinho do sono” tem a lisergia de um estado de transição – nos efeitos dela realmente se pode ouvir a voz do pequeno ser – e ajuda a voltar para a toca do coelho, para Lulilândia, para o mundo imaginado que conhecemos, mas do qual perdemos a chave no meio do caminho.

E como “a vida é desfazer Nós”, aqui eu me desfaço de vocês, vocês de mim e nós de Lulina, ela cheia de nós na cabeça e nós todos cheios de minhocas e sonhos entorpecidos.

Um Disco Para Dias Nublados: Cícero – Canções de Apartamento

Álbum: Canções de Apartamento

Artista: Cícero

Lançamento: 22/06/2011

Selo: Independente

Ouça: Facebook

Rockometro: 9/10

É difícil não associar o trabalho de Cícero à sua ex-banda, a Alice. Até porque quem escutou o Anteluz e o histórico Ruído, conhece bem aquela voz sofrida que se sobrepunha as 3 guitarras que a Alice se desafiava a criar e reger. Porém, o hiato sonoro entre Ruído (2007) e Canções de Apartamento, seu primeiro disco solo, cultivou certa curiosidade sobre qual destino se focaria o talento de Cícero Lins.

Ao cortar seu sobrenome, Cícero também lapidou os ruídos de guitarras e passou a andar mais solto, acompanhado apenas de seu violão e utilizando do suporte de Paulo Marinho (bateria) e Bruno Schulz (acordeon/piano/coro), para 3 anos após o fim da Alice e dezenas de discotecagens na noite carioca depois, lançar suas canções de apartamento ao mundo e novamente se sentir na correria de uma banda independente e sofrer para saber a opinião das pessoas e da imprensa sobre seu novo filho.

Climático, o disco é feito para se ouvir com atenção, deixando ecoar no ouvido e virar docemente a trilha sonora do seu dia. É brilhante. Uma viagem ao interior de uma mente que parece expressar-se perfeitamente em letras sentimentais, melodias densas e vocal tristonho. Por vezes, soa como as cantigas melosas de Milton Nascimento, a sensibilidade triste de Rodrigo Amarante e até como a pseudo-rockeiragem de Caetano Veloso. Ao mesmo tempo, você sente pulsar aquele timbre, passagem ou composição que a Alice usou para conquistar fãs até hoje.

Ouvindo o disco, você sente que está dentro de um apartamento, onde a bateria ecoa e a voz sobressai de maneira independente da música. Em “Cecília e os Balões”, o tracejado do violão, o barulho de fundo e pequenos detalhes deixam a música mais real, como se Cícero tocasse ao seu lado e o convidasse para dividir os vocais e suas angústias. “João e o Pé de feijão” carrega uma surpreendente e explícita semelhança com “O Último Dia”, de Paulinho Moska, como se fosse uma versão ainda mais sofrida e experimental daquela música escrita para uma série global.

A abertura do disco, “Tempo de Pipa”, é talvez a canção mais perseverante e a que menos se encaixa com a tristeza incrustada no restante do álbum, mesmo assim é maravilhosa. Talvez, a melhor junto com “Ensaio Sobre Ela”. Canção com um acordeon doce em companhia de um violão bossa-nova, um dedilhado simples na guitarra e bateria baseada num samba de fim de tarde. Das letras, simples palavras que usadas com certo sentimento, traduziram a beleza e por vezes a ironia que Cícero quer mostrar. “Açúcar ou Adoçante” é, junto com seu nome, a provável melhor amostra desse denso repertório de palavras tristonhas e realísticas. “Laia Laia” e “Ponto Cego” sepultam a sua incerteza sobre a beleza de Canções de Apartamento.

Por vezes o silêncio faz bem: aguça a curiosidade e surpreende na volta. Utilizando desses simples pontos é que Cícero compôs a nova trilha sonora dos dias nublados, o som da dúvida em um relacionamento, o ruído e o silêncio do seu apartamento e as canções para voltar para casa. É inverno. Sinta-se completo. Sinta-se entendido.

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