Três anos se passaram desde que o Interpol lançou o introspectivo Our Love to Admire. Muito criticado por parte dos fãs, foi com a turnê de divulgação desse album que a banda veio realizar três concorridos shows no país em 2008. Satisfeitos ou não com o momento da banda, ninguém foi capaz de criticar negativamente a performance do Interpol.
Apesar da banda não ser vista como uma espécie de segunda família pelos seus integrantes (eles sempre declararam publicamente que não são amigos uns dos outros), era incrível a magia no palco e a execução perfeita de cada uma das faixas escolhidas para o repertório do show. Porém os problemas de relacionamento persistiram e acabaram resultando na saída do baixista Carlos D, logo após a finalização da gravação do auto-intitulado quarto trabalho de estúdio.
Clipe oficial de “Lights”
A primeira impressão de Interpol é que soa como uma continuação do trabalho anterior. Com melodias ainda mais suaves e obscuras, Paul Banks (vocalista/guitarrista), Daniel Kessler (guitarrista), Sam Fogarino (baterista) e – a partir de agora – David Pajo (baixista) se afastam ainda mais das empolgantes canções dos dois primeiros discos e objetos de devoção dos fãs mais antigos.
Para o bem ou mal, não me encaixo nessa categoria e continuo admirando o trabalho do melhor grupo de rock que Nova York produziu nos últimos anos. O clima arrastado das músicas pode acabar afastando definitivamente aqueles que esperavam um disco com mais pegada e que tivesse canções como “PDA” ou “Slow Hands”.
A abertura do disco fica por conta dos acordes com um leve overdrive recheado de delay, som característico da guitarra de Kessler e da identidade sonora do Interpol. A faixa “Sucess” poderia muito bem ter sido escolhida como o primeiro single, ao invés de “Lights”. Desde já, toda a suavidade que vai evaporando lentamente até se transformar em um desabafo triste transforma essa canção em uma das melhores do grupo e que chega perto de superar a faixa de abertura do disco anterior (que sim, é o meu favorito da banda). “Memory Serves” soa como um lamento sincero, contando com uma bela guitarra base como tapete para os versos de Paul Banks.
A quarta faixa é a soturna “Lights”. Quando a música foi disponibilizada na internet, a reação inicial foi de susto. “O que esperar do resto do album?”, “Estou na dúvida se gostei dessa música ou não.”, “Letra bonita, música legal, mas que clipe escroto, hein?”. A verdade é que o primeiro single do novo trabalho consegue resumir bem a atmosfera que Daniel Kessler e Paul Banks criaram para o cd.
“Barricade”
Em “Barricade” e “Safe Without” encontramos os únicos vestígios que preservam as origens e soam como primos distantes dos primeiros sucessos da banda. Não por acaso, ambas são responsáveis por alguns dos melhores momentos de Interpol (o disco e não a banda).
“Try it On” começa com um piano estranho que lembra filmes da série Além da Imaginação ou de alguma ficção científica pré-Donnie Darko, e que se repete por toda a música. E o final fica por conta da bela e com influências pink floydianas “All of the Ways” e de “The Undoing”.
São 10 faixas muito bem trabalhadas que formam um album coerente e que, mesmo sem ter grandes destaques individuais, funciona como um conjunto. Interpol pode até não ser (ainda) o melhor trabalho do Interpol, mas é um divisor de águas e conclui a direção musical que a banda passou a assumir em Our Love to Admire. Resta saber se o grupo vai sobreviver aos conflitos de ego durante a próxima turnê e conseguir lançar um disco com competência o suficiente para se reinventarem de novo.
Cena 1:
Uma banda que em 2004 era o maior prodígio das terras outrora de Portugal. Nesse ambiente quase bucolicamente nervoso, a Mombojó é agraciada com elogios poderosos de vozes que ecoam por blogsferas e publicações. Nada de Novo, o primeiro disco mostrava uma metralhadora que girava em todas direções, mas com uma empunhadura firme e tão coesa que acachapou os mais entendidos no assunto. Com Homem-Espuma eis que a banda contava com todas as ligações no lugar. Corte rápido…
Cena 2: Rafael Torres, o flautista. Infarto do miocárdio. O rock levava de maneira natural mais uma alma ao encontro dos grandes na enorme jam infernal, a banda levava a primeira alfinetada do tique taquear.
Corte com a tela amalgamando cores escuras e cinzas….
Cena 3: Marcello Campello deixa a banda. Quando todo mundo achou que os garotos prodígios recifenses iriam buscar alternativas baratas, eis que com uma molecagem madura a banda se fecha ainda mais no círculo de amizade que desde sempre tiveram. Romperam com a gravadora Trama e começaram a tomar conta de tudo que fazia da banda uma liga metálica de adamantium. E veja bem meu emotivo leitor, passar por todos esses percalços e produzir, gravar, ensaiar, fazer shows e ainda por cima distribuir gratuitamente um dos melhores discos do ano é tarefa para quem tem poderes mutantes dignos de Stan Lee.
É assim que deve-se olhar o disco da banda Mombojó, lançado em julho de 2010, Amigo do Tempo. Uma confraria de comparsas e muitos convidados que dentro de onze faixas trazem a modernidade recheada de cores sépias de tempos passados. Não existe comparação com nada ou nenhum trabalho desse ano, além das citações de estilos e bandas que influenciaram o Mombojó (entre eles High Llamas, Stereolab e a inglesa Laetitia Sadier). De uma fluidez que há tempos eu não conseguia ouvir, Amigo do Tempo não á apenas um disco, é acalento feito de nuvens para almas em interrogação.
As canções até podem ser tachadas como as mais simples dos três trabalhos da banda, exemplo na faixa de abertura “Entre a União e a Saudade”. Duas palavras que calariam fundo dentro do ventrículo de qualquer pessoa quando passa por tudo o que a banda passou.
Mas esse caldo amargo como boldo de lei, produz duas das frases mais bem sacadas do disco (“triste quando alguém desiste e não insiste em acertar” e sinto não ser dos mais saudosistas, qualquer caminho sou eu”) tudo embalado em um arranjo que mistura tábuas de esmeraldas e low-fi. E por favor não imaginar que essa melodia tenha sido escrita por Rodrigo Amarante, é uma praia muito mais lisérgica que as canções do hermano.
As participações especiais que haviam começado na primeira faixa com a presença de Guizado, em “Antimonotonia” ganham cores mais rap ploquianas. Queóps Negão nos vocais e Pupillo (Nação Zumbi) na programação. E ainda Rafael Fonseca nos violinos, trazem para essa faixa a definição perfeita de tempo e execução. Começa como um iê-iê-iê simples, mas ao fundo as cordas dão o tom mais universal que se completa com as mudanças dignas de qualquer disco do Gorillaz. Em ritmo de filme Pulp, a banda destila uma linha que transpassa a garagem e termina em um funk metálico.
Mesmo sendo mais universal que os discos anteriores, a pegada da banda está mais viva do que nunca em “Passarinho Colorido”. A aceleração e desconexos riffs formam uma cadeia cíclica que com a letra inicialmente matemática torna-se cheia de lirismo. Tempo e velocidade andam juntas dentro dessa canção. A calma de “Justamente” é uma deslizante ligação iônica de gooves e lisergia contida que salva. E aqui sempre cabe o clichê de que escrever rock em português é difícil, mas a sequência que vem à seguir com “Qualquer Conclusão” e “Praia da Solidão”, mostra que na verdade a dificuldade é inversamente proporcional à maestria do acerto, seja no suingue low-fi de ….Conclusão ou na balada malemolente na ….Praia.
E mesmo sendo uma das mais tocadas nas rádios (aqui sempre ouvia na 107.3, “casa do Garagem…”), a letra de “Casa Caiada” é confessionalmente visceral. Se a definição de construção dada por Chico Buarque à uma canção vale, eis aí um exemplo de sônica arquitetura. Mas o oito marca a camisa do craque e assim é “Aumenta o Volume”. Uma veia exposta garageira com beleza clássica, digna de clip com animação.
Clipe de “Papapa”
Nesse becker sonoro, o eletrônico devoniano se mistura com a bossa acelerada, cores metálicas quimicamente costuradas com um “mutante furry animal”, mostram que uma banda pode com o passar do tempo e dos fatos que são sorrateiramente colocados na trama, fazer um disco que soe tão brasileiro e do mundo. O lisérgico, o batuque e a garagem em completa sincronia. “Amigo do Tempo” (Michael Jackson aparece aqui…) e “Papapa” mostram isso.
Amigo do Tempo provavelmente é um daqueles discos que serão atemporais, pois muito antes da mistura se sons e ritmos algo dentro do ser humano move mais. Emoção é o que faz canções memoráveis e esse disco é assim. Por isso ao final da audição dessa nova bolacha da Mombojó, se nada acontecer dentro de seu peito, procure Dorothy. A estrada até o homem atrás da cortina para recuperar teu coração é longa.
Aproveitando da minha prerrogativa editorial dentro deste sítio, gostaria de quebrar o protocolo e exibir as minhas próprias conclusões sobre a tão comentada nova empreitada do Arcade Fire, The Suburbs. Minha opinião vai contra a já apresentada resenha de nosso humilde companheiro Dayson Ruan, e por isso achei importante mostrar novas visões da bolacha em nossas linhas.
The Suburbs é um álbum ímpar na discografia dos canadenses, onde buscaram algo além do som próprio que criaram e incorporaram influências diferentes, como Bruce Springsteen e Nick Cave (algo que já indicavam em Neon Bible). Em troca, simplificaram as orquestrações de Owen Pallett, reduzindo-a a poucos momentos – como a ótima “The Suburbs” e na repetitiva “Rococo”.
Violões também ganharam mais espaço e um princípio eletrônico talvez mostre a nova direção que o grupo quer tomar, basta ouvir os detalhes da boa “Ready To Start”, o final de “We Used To Wait” e a repetição linear de “Half Lights II” e “Sprawl II”. Repetição, aliás, acaba se tornando a tônica de um álbum marcado pela confusão entre usar uma fórmula mais pop (como em “Modern Man”) e experimentalismos pouco convincentes e sem detalhes marcantes, como esperamos do Arcade Fire.
“The Suburbs” Ao Vivo
Explicando melhor, basta pegar a guitarrada rock n’ roll de “Empty Room” (e os gritos lotados de reverb – talvez para tampar a pouca potência de voz de Régine) e a retilínea e desgostosa “Mouth of May”: Músicas retas, sem direção e não tão fracas quanto a infinita repetição de “City With No Children” e “Half Light I”. Esse marasmo sonoro se arrasta até “Suburban War”, que até tem uma boa intenção em sua guitarra, mas o riff se repete de tal forma que acaba perdendo o gosto.
As letras também se confundem. Ora geniais, ora sem muito conteúdo, não deixa de ser interessantes olhando pelo conjunto, mas em separado é passível de se ter algumas decepções. As 16 canções tornam o disco uma incógnita: atrativo para quem olha nas prateleiras e cansativo para quem o ouve inteiro.
As inexplicáveis 8 capas selecionadas para o lançamento e ainda a seleção de mídias a ouvir o álbum primeiro (lembrando que começou pela influente NME, passando por BBC, onde foi feito o tal comentário com Radiohead e interpretado erradamente por essas terras brasileiras) mantendo a banda na mídia o tempo inteiro, criando uma possibilidade de venda ainda maior.
“We Used To Wait”
Quem disse que isso não foi uma excelente jogada da gravadora? Agora o porque precisou disso? Será que eles mesmos não sentiram que o álbum tem todo esse potencial e resolveram investir em divulgação para ter uma boa resposta? Eu acredito em mídia comprada, ainda mais pelo fato de todos os locais que ouviram o álbum primeira, falaram muito bem da bolacha, de encher a boca e arregalar o olho.
“We Used To Wait” e “Ready To Start” ainda guarda uma boa lembrança de um Arcade Fire de guitarras viajantes, baterias pulsantes e refrões gritáveis. Mas tudo acaba preso num círculo vicioso dos arranjos e a bolacha finda sendo realmente o subúrbio da discografia do Arcade Fire: Mais pobre melodicamente e com faixas demais por hora de disco.
Involuntariamente (ou não) a imprensa musical, com toda a sua exigência e suas listas de fim de ano, fez com que a qualidade de disco melhorasse exponencialmente, pois num mundo capitalista, ninguém quer ficar ‘pra trás’, mesmo que isso não tenha o mínimo sentido.
Mas, pra não contrariar os clichês da vida, isso também tem o lado ruim. Bandas competindo e ouvintes alienados. ‘Como assim, alienação nesse nosso meio? Isso não existe, Dayson.’ AHAM, sentem lá.
Do mesmo modo que reclamamos que a as redes de TV e de rádio influenciam e alienam as massas, fazendo com que eles escutem ‘aquilo que é ruim’, a NME e a Pitchfork, também fazem isso com sua cabecinha, amigo. Ou vai dizer que você não corre pra escutar aquele disco daquela banda totalmente desconhecida de obscure-dark-pop-post-hip-hop só porque alguma revista deu nota 9? E não, eu não culpo ninguém por isso. É involuntário, é necessário.
- Mas pra quê toda essa divagação? Onde o Arcade Fire entra nisso?
Então, a galera foi à loucura. Os integrantes do Radiohead são considerados deuses do Rock pra galera indie e Ok Computer é considerado o grande disco deles e talvez o melhor da história, então, se The Suburbs for realmente melhor, teremos o melhor disco da história. Nervos à flor da pele, o disco vazou e um balde de água fria é jogado num amontoado de franjas. Parabéns BBC, estragaram um ótimo disco, decepção pra muitos.
“The Suburbs”
Sabem porque todo mundo se decepcionou? A galera foi escutar o disco esperando que “Empty Room” fosse a nova “Karma Police”, esperando que Win Butler tivesse tiques espásmicos como o Thom Yorke, e é óbvio que isso não aconteceu. O Arcade Fire tem muita identidade pra querer ser comparado a qualquer banda.
- Mas então, The Suburbs é melhor ou não que Ok Computer?
Respondo a essa pergunta, que já me fizeram dezenas de vezes, mesmo que o disco só tenha vazado há um dia, assim: pra começar, o melhor disco da carreira do Radiohead é o In Rainbows, experimentalismo e apelo pop ao mesmo tempo. Genial. E na década passada, a tríade sagrada de discos é: Funeral, Neon Bible e In Rainbows, nessa ordem. E todo mundo sabe que os dois primeiros são os geniais discos do Arcade Fire. E The Suburbs? Bem, ele só não é melhor que Funeral.
Então, no mínimo, temos o melhor disco produzido desde 2004.
- Mas que tal falar sobre o disco em si?
Ok. Arcade Fire, além de uma banda, é praticamente uma família. Win é casado com Régine e é irmão do Will. Gara, Neufeld, Parry e Kingsbury são como seus filhos adotados e essa família recebe constantemente a visita do amigo Owen Pallet. O ambiente perfeito, onde a melancolia de cada integrante só é sobreposta pelo amor. Amor à vida, amor por si mesmo e aos próximos. Um ambiente onde você pode se submeter ao medo e ao sofrimento, mas que alguém, na hora exata, vai estar lá pra te resgatar.
Em The Suburbs, os irmãos Butler resolveram contar suas vidas, a infância difícil e sobre a vida nos subúrbios. E pra contar essas histórias, além das magníficas orquestrações, a banda adicionou a crueza do rock e obscuridade dos synths. Uma mistura de Depeche Mode com Neil Young, como eles mesmos dissseram.
“Ready To Start”
O disco é uma história e cada música se encaixa, montando um mosaico de nostalgias e sentimentos. As letras cheias de significado, carregam a melancolia de sempre, com fagulhas de esperança pra serem acessas.
Os destaques são as excelentes “Modern Man”, “Rococo”, “Empty Room” e “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”. Nessas quatro faixas vamos do som barroco de “Rococo” ao extremo pop com “Modern Man”.
O disco ganha pontos porque além de ser sincero e ousado, tem um apelo pop essencial, brincando com os estilos musicais sem perder a classe. E amigo, apelo pop é crucial pra qualquer grande disco ou qualquer grande banda, se não, o que seriam dos Beatles?
A única ressalva, o único porém, é que a história de The Suburbs ficaria muito mais linda se a voz doce de Régine Chessagne aparecesse mais.
Sem mais elogios na ponta dos dedos, repito que esse (por enquanto) é o disco do ano e um dos maiores discos da história. E acredito que esse não é o clímax da carreira dos canadenses do Arcade Fire. Podem anotar, muita coisa melhor ainda virá.
King of The Beach é o terceiro disco de inéditas do Wavves e, além de nos trazer boa música, mostrou que a simplicidade sonora, se feita com real sentimento, pode ser muito mais estrondosa do que qualquer produção milionária. Quem acompanha a carreira da banda sabe que o lo-fi sempre veio em primeiro lugar nas suas composições. Isso não mudou em sua nova obra, mas o som está claramente mais limpo e seu noise punk misturado com um surf rock por vezes psicodélico logo se torna uma sinfonia para os nossos ouvidos.
Nathan Williams, frontman do Wavves e maconheiro assumido (1:20), usou a mesma fórmula em todas as músicas que compõem King of The Beach: melodias cruas, rústicas e engraçadas. O diferencial é que cada canção tem seu brilho, sua graça e seu poder grudento. Por trás das guitarras barulhentas surgem alguns efeitos eletrônicos com um pé na psicodelia e o clima óbvio do surf rock envolve cada pérola com seu manto. Tudo isso somado ao senso de humor lírico exacerbado de Nathan não podia dar errado. E não deu…
A trip começa com a faixa-título: os riffs de guitarra simplórios são o bastante para fazer a canção grudar na cabeça. O mesmo acontece com a ótima “Super Soaker”, que segue uma linha despojada e flui em um ritmo mais acelerado do noise punk. “Linus Spacehead” começa com um baixo denso que logo abre espaço para a bateria e seguidamente para a guitarra arrastada. Logo depois o ritmo muda e “When You Will Come” abre a seção das poucas faixas calmas do disco com seu arranjo fofíssimo.
“Baseball Card” relembra os tempos do lo-fi excruciante do Wavves e abre alas para a sequência imbatível de três músicas que vem logo a seguir: “Take On The World” é a mais acessível do disco com o seu refrão viajante digno de arrepios na espinha. “Post Acid”, como seu próprio nome já indica, tem seu potencial lisérgico e debilóide explorado em seus curtos e ágeis minutos. “Idiot”, a faixa mais interativa e engraçada, começa com risadas e Nathan expele os versos “laugh, I bet you laugh” com sua voz e jeito de cantar lembrando mais do que nunca Liam Gallagher nos seus tempos de glória.
Depois de tanta brincadeira sonora (o efeito da maconha devia ter passado…), Nathan resolve levar seu lado gênio finalmente à sério com “Green Eyes”, uma faixa com uma letra/desabafo genial que mescla a rara aura calma do disco com a potente. “Baby Say Goodbye” fecha o disco com uma cara incrivelmente pop e doce, mas não deixa de fora seu lado barulhento, formando o noise pop.
King of The Beach é, sem mais nem menos, um retrato de Nathan. O rapaz fala o que quer, toca o que quer, e não se preocupa em agradar ninguém. Talvez isso faça dele um rapaz solitário no fim das contas, mas quem disse que ele liga? É como ele mesmo diz em “Green Eyes”: “My, my own friends hate my guts. So what? Who gives a fuck?”.
Se analisarmos a carreira do The Roots como um todo, fica difícil rotular a banda – não que isso seja necessário ou bom. As rimas sempre estiveram encravadas na alma metamórfica do grupo vindo da Filadélfia, que ao longo de 23 anos de carreira atirou para milhares de estilos e estéticas sonoras diferentes. Em How I Got Over, o The Roots apostou em letras reflexivas e trouxe de volta o bom e velho soul; uma cara meio jazzística; e foi mais consistente nas melodias, superando a crueza seca e pesada de seu antecessor, o ótimo Rising Down.
Além do charme melódico, aqui marcado por pianos doces que são ao mesmo tempo levados por batidas firmes, o disco conta com a presença ilustre de exemplos de genialidade como Joanna Newsom e exemplos de bons cristãos (blergh…) como o Monsters of Folk. As melodias marcadas pelo jazz, funk (o real) e principalmente pelo soul nos refrões fizeram deste um álbum não só para ser ouvido, mas também para ser refletido. Tamanha genialidade e experiência não poderiam transformar essa façanha em nada menos que o melhor disco da banda (na opinião do pobre redator que vos fala)…
O teclados leves de “A Peace of Light” abrem o disco na companhia das vozes maravilhosas de Amber, Angel e Haley do Dirty Projectors, que lançou um dos melhores álbuns do ano passado. A doce introdução abre os caminhos para a entrada da grandiosa “Walk Alone”, uma das melhores do disco que canta a solidão em versos como “work alone, sleep alone, eat alone…”. Logo depois vem “Dear God 2.0”, que conta com a presença do Monsters of Folk e de trechos da linda “Dear God”, música presente no primeiro e gostoso disco da banda. A batida, fiel à faixa original, é abraçada por teclados tristonhos e um ritmo aconchegante. Um dos pontos mais altos da bolacha.
“Now or Never” traz uma cara mais alegre e ensolarada com suas mensagens positivistas. Logo depois vem a ótima faixa-título, deixando claro que o soul ainda é uma das maiores paixões da banda. “Right On”, a faixa mais bela do disco, traz Joanna Newsom entoando lindamente os versos de sua música “Book of Right-On”, presente em seu debut. John Legend (blergh… [2]) é quem toma conta do refrão soul de “Doin’ It Again”, levada por ecos de sua voz e por um piano simplório que abre alas para as rimas rápidas e certeiras de Black Thought, Mc do The Roots. A batida engraçada, repetitiva e simples “Web 20/20” é o bastante para fazer da música uma das melhores do disco, que fecha com a nostálgica “Hustla”, faixa que caberia perfeitamente no último disco da banda com seu sintetizador denso, o já comentado Rising Down.
Depois de um espetáculo como este disco, o The Roots se consagra de vez como um dos melhores grupos de hip-hop da história da música. Se o disco de 2008 (talvez o favorito dos fãs) se chama Rising Down, o nome perfeito para essa nova façanha do Roots é Rising Up. Sempre crescendo, crescendo, crescendo…
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jun 23rd 10
Postador por Andressa Muniz em Resenhas, Álbuns
Dizem que a expressão mais sincera da música enquanto arte ocorre quando se consegue unir a qualidade sonora à qualidade poética, sem perder a espontaneidade. Bem, se não dizem isso, eu estou dizendo agora e uso como exemplo o Apanhador Só.
A banda gaúcha, já muito elogiada web afora, enfim lançou seu primeiro disco em abril deste ano. Se os dois primeiros EPs foram uma mostra da identidade da banda, este primeiro LP é uma confirmação dessa identidade e uma demonstração de um som multifacetado, cuja mensagem se renova a cada audição.
Apanhador Só, o álbum, apóia-se principalmente no rock, na MPB e no pop, mas a sonoridade não se limita a isso, com influências que passam pelo folk, samba, country e, em certo momento, pelo tango. Embora as canções soem pop e digeríveis, o som é recheado de um experimentalismo sutil, calcado principalmente no uso de sucata como instrumentos improvisados, como a recorrente roda de bicicleta, que já se tornou um ícone da banda.
Apesar da identidade forte, Apanhador Só, assim como qualquer outra banda, não está livre de clichês. Quase todas as canções caem no lugar-comum universal chamado amor. Mas até esse clichê é retratado de um modo único, com versos que parecem resultado de um encontro entre a literatura de cordel e o realismo fantástico. Situações cotidianas são contadas através de um fluxo de consciência quase constante, com neologismos, versos soltos, rimas inteligentes e uma poética simples, mas longe de ser simplista.
“Maria Augusta”
O rock suave, apoiado por diversas outras influências, é complementado pelos versos peculiares de Alexandre Kumpinski – que já pode ser considerado um dos letristas mais brilhantes da nova safra da música brasileira –, que receberam contribuições do poeta Diego Grando. O resultado é um retrato pitoresco de uma versão mágica da realidade.
As particularidades poéticas podem ser vistas em sua melhor forma em “Balão-de-Vira-Mundo”, que parece retratar um mundo à parte, onde a fantasia é embalada por uma sonoridade densa, com uma guitarra pesada que ultrapassa a fronteira para flertar com o tango argentino.
A poesia toma ares mais populares em “Maria Augusta”, que soa quase como uma cantiga de amor. O quase hit aparece aqui em uma versão mais intensa, com as linhas de baixo excepcionais combinadas a guitarras mais marcantes, que garantem um clima quase dançante, mas sem perder a ligação com a MPB. Esse vínculo entre o rock e a MPB se faz mais marcante em “Pouco Importa” que, não por acaso, é a faixa que mais usa da herança ‘hermanística’ do indie rock contemporâneo.
As linhas de baixo e os riffs espertos que marcam o som do Apanhador são combinadas a uma quebra de ritmo e a metáforas quase irônicas na animada “Prédio”. As tão comentadas linhas de baixo, aliás, ganham um clima denso com guitarras mais presentes e unem-se a versos melancólicos em “Nescafé”, que explora com excelência as rimas inteligentes e cria um jogo fonético sutil.
Mostrando que o Rio Grande do Sul produz mais do que apenas bandas de rock cru, Apanhador Só combina com muita harmonia a leveza poética com a intensidade do rock e a facilidade do pop. O resultado é um pop inteligente e lírico na sua forma mais elementar: música popular.