Enquanto boa parte da imprensa musical brasileira ainda insiste em manter seus olhos apontados para o que se desenrola no panorama internacional, um verdadeiro fenômeno tem bombardeado os quatro cantos do cenário brasileiro. No norte e o nordeste é cada vez maior a profusão de artistas mergulhados em referências ao rock alternativo dos anos 90, além de todo um conjunto de novas formas de absorver o Heavy Metal e as várias influências que dele brotam. Já o sudeste vivencia o apogeu dos “novos paulistas” – com o Rio sendo marcado por uma cena em renovação -, mantendo no sul do país uma espécie que QG para bandas afundadas nas cruas e sujas referências ao shoegaze.
Focando nessa última região e passeando entre nomes como Loomer (RS), This Lonely Crowd (PR), Medialunas (RS) e Badhoneys (RS), torna-se visível como cada vez mais surgem grupos capazes de em pouquíssimos segundos edificar gigantescos paredões sonoros de puro ruído. Enormes e quase intransponíveis concentrados de distorção que lentamente vão sendo esculpidos, revelando um catálogo mais do que rico de belas e fortes composições. Mais “novo” integrante desse exclusivo grupo, os também gaúchos do Lautmusik (que em alemão quer dizer “música alta”) encontram em grandes acúmulos de distorção a matéria-prima para dar vida a um dos trabalhos mais intensos de 2011.
“Música alta”, poucas são as bandas capazes de ostentarem um título tão coerente com o som que propagam quanto o quinteto gaúcho formado por Alessandra L. (voz), Cassio JD (guitarra), Murilo Biff (guitarra), Guilherme Nunes (baixo) e Rodrigo Prati (bateria). Entre rajadas de guitarras cacofônicas, um baixo de potência imensurável e uma bateria que está além de um mero mecanismo de condução, a sonoridade proposta pela banda aos poucos vai resultando no catálogo de 11 faixas que caracterizam Lost In The Tropics, um disco que mesmo marcado por um jogo de referências clássicas vai com parcimônia evidenciando uma naturalidade sonora própria do grupo.
Entre apontadores óbvios ao trabalho de bandas veteranas como The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine e Joy Division – além de um fundinho de Sonic Youth -, o quinteto parece mais interessado em promover um som que possa (realmente) ser chamado de seu. E se essa for a intenção da banda, eles realmente conseguiram. Contra boa parte de artistas similares (e até alguns conterrâneos) que insistem em plagiar o que é feito lá fora, o quinteto vai desde a faixa de abertura, “Afraid To Fly”, até a canção de encerramento,”Walk The Walk”, promovendo uma série de músicas movidas por um forte apelo melódico, fazendo desse oposto com as guitarras poluídas uma espécie de mistura agridoce que transpassa todo o registro.
clipe oficial de “Mai”
A sensação ao ouvir Lost In The Tropics é a de que a banda se comporta como vários artistas em apenas um. Se a faixa de abertura pende obviamente para o rock alternativo do Pixies (a linha de baixo faz lembrar alguma coisa do álbum Doolittle), logo na música seguinte, “Mai”, a banda altera as referências, apontando diretamente para um Sonic Youth pós-Dirty. Até o fechamento da obra esse constante aspecto de mutabilidade vai se desenvolvendo, como se a banda estivesse ciente de suas aspirações, porém, aproveitando de cada segundo do disco para passear e brincar em diferentes campos da música.
Ao término do trabalho – que tem todas as canções do disco cantadas em inglês – o ouvinte se sente ao mesmo tempo satisfeito e exausto, afinal, é como se a banda atravessasse duas ou talvez três décadas de música em menos de uma hora de duração. Depois de dois EPs – um lançado em 2007 e outro no ano seguinte – o quinteto gaúcho converte Lost In The Tropics em uma estreia definitiva, transformando o presente álbum não apenas em um debute de boa formatação, mas em um trabalho de tamanho fôlego e distinção que acaba por converter a Lautmusik em uma banda que você precisa ouvir o mais cedo possível, de preferência, agora.
Osvaldo Lenine Macedo Pimentel ou como acabou conhecido em boa parte do país, Lenine, é de longe um dos personagens mais notórios da música brasileira. Do nascimento musical pouco badalado no começo dos anos 80 para a aceitação do público e (principalmente) da crítica ao longo de toda a década de 1990, o pernambucano de Recife foi lentamente solidificando uma das mais imponentes discografias e carreiras que se desenvolveram ao longo das últimas décadas, quebrando qualquer tipo de barreira comercial ou radiofônica para em diversas vezes manter um profundo e conexo diálogo com o grande público.
Mantendo a boa forma de seus primeiros (e elogiados) lançamentos, como Olho de Peixe de 1993 e O Dia em que Faremos Contato de 1997, Lenine apresenta agora seu mais novo registro de estúdio, Chão, um trabalho que (in)voluntariamente surge para reforçar a imagem do cantor e compositor como um dos mais relevantes e inovadores de nossa música. Menos óbvio que o anterior trabalho do músico – Labiata, de 2008, álbum que acabou gerando expectativas mediante sua posição pós-Acústico MTV -, o presente disco transpira um profundo toque de inovação, com o pernambucano materializando uma soma de elementos que se desvencilham das obviedades da MPB e percorrem caminhos quase experimentais.
Essencialmente metafórico e carregado de subjetividades, o registro se solidifica inteiro no bem posicionado jogo de versos que conectam o músico (e os personagens de suas letras) diretamente ao chão que dá título ao trabalho. O resultado desse emprego hábil de distintas exposições líricas – em sua maioria afundada em uma intensa camada de melancolia – acaba resultando em um trabalho forte, em alguns momentos até soturno, com o cantor abandonando quase por completo qualquer tipo de ligação com o mesmo tipo de música suingada e abrasileirada de outrora, caminhando assim em um terreno novo, e por que não, instigante.
Dos passos acelerados em chão de pedra que delimitam a faixa título, passando pela respiração sufocante de “Se Não For Amor, Eu Cegue” até o som da derrubada de uma árvore em “Envergo Mas Não Quebro”, grande parte do que garante beleza e inovação ao disco vem diretamente da captação de ruídos e sons naturais que acabam entrecortando o registro. Orgânico em todos seus aspectos, Chão se desenvolve como um projeto vivo, como se todos os elementos que brotam da terra dessem formas ao catálogo de 10 composições que caracterizam o disco. Um jogo de faixas que estão para muito além de meros aglutinados sonoros, mas sim, canções dotadas de vida própria e uma unidade musical única.
Oposto das anteriores obras do músico, o recente trabalho parece manter como seu elemento central e de distinção a unidade entre suas canções. Cada faixa presente no disco não está ali à toa, pelo contrário, faz parte de uma trama maior, como se todas as composições presentes no registro fossem parte de uma única e extensa faixa, uma música de exatos 28:05 minutos – algo pequeno perto da extensão dos anteriores trabalhos do compositor. Dessa forma, o álbum exige uma audição apurada do princípio ao fim, como se a máxima compreensão do registro estivesse no todo e não em suas divisões.
Estranho observar, que mesmo ausente de bateria em toda sua extensão é possível passearmos por todo o registro sem que a carência de tal elemento acabe se manifestando. Algo facilmente explicado pela grandiosidade de outros elementos que acabam se concentrando no interior do registro. Embora seja de fato um trabalho complexo, talvez a maior obra do cantor até o presente momento, nomear Chão como o registro máximo do músico talvez seja um erro, afinal, como bem aprendemos, a obra de Lenine é sempre marcada pela rotatividade e suas constantes evoluções, com o presente álbum sendo apenas uma abertura para outras futuras obras tão memoráveis quanto esta.
Cleber Facchi é a principal cabeça pensante do Miojo Indie
Ouça: “Sambinha Bom”, “Baby, I’m Sure” e “Olha Só, Moreno”
Foram dois anos desde que o segundo disco chegou aos ouvidos brasileiros e dois que mudaram a vida da jovem cantora. Agora estabelecida no Rio de Janeiro, frequentadora do Baixo Gávea, dos supermercados de Copacabana e das praias cariocas, Mallu vem assimilando a rotina de seu namorado e transformando esses momentos em música cada vez mais plural, mais brasileira. Não que seja um Caetano lançando um novo Cê, ou um Marcelo trabalhando num novo 4, mas sim uma mulher ainda descobrindo novas formas de trabalhar e mostrar seu trabalho.
Pitanga, em sua primeira ouvida, é claramente influenciada pelo detalhismo nos arranjos de Marcelo Camelo, produtor e namorado da jovem, gerando inclusive comparações prévias principalmente com Toque Dela, recente álbum solo de Marcelo (ouça “Cena” e “Velha e Louca”). Mas basta algumas ouvidas a mais que logo se descobre que ali, definitivamente, existe aquela Mallu jovem, usando o banjo, melodias vocais com espaços entre uma palavra e outra, o assobio característico, voz por vezes rouca, em outras doce, de afinação peculiar, entre outros detalhes.
(foto por Marcelo Camelo)
Existe uma mudança de preferências e estilos nas músicas. O folk, que a tornou uma figura pública, agora se esconde por trás de pianos adocicados, percussões baseadas em inúmeros tipos de chocalhos e barulhos distintos, que enchem nossos ouvidos e escondem os violões simples que antes ouvíamos (ouça “Highly Sensitive” e “Lonely”). O principal trabalho de Marcelo e Victor Rice (co-produtor e arranjador) neste disco é elevar os arranjos e criar novas opções de trabalho, ajudando a formar um novo vínculo sonoro para a cantora e sua nova fase, lapidando suas canções para algo além do simples folk que um dia já lhe foi veiculado.
A realidade é que estes arranjos apontam uma maturidade musical e confiança maior no trabalho. Um sentimento de poder se arriscar mais facilmente, provavelmente pela companhia de seu amado, tomou a gravação vocal do disco e transformou em memoráveis momentos que vão além da voz emotiva para a surpresa: Mallu alcançou novos tons agudos ainda não explorados e acabou proporcionando os melhores momentos do disco, exatamente em passagens vocais que um dia já foram tão criticadas (ouça “Sambinha Bom” e “Olha Só, Moreno”).
A guitarra estridente agora aparece apenas em viagens dentro do arranjo – muito pela influência que o produtor Kassin inseriu nos ouvidos brasileiros através de suas produções – e somente como acompanhamento (ouça “Velha e louca” e “Youhuhu”). Os solos de guitarra, para não dizer que foram abolidos, aparecem trocados por passagens simples e abafadas no violão ou metais. Neste ponto, o rock se mistura com o folk e o folk se torna rock, fazendo as músicas do disco ganhar cara própria e amadurecendo o estilo que a pequena lançou em 2008.
“Velha e Louca” versão voz e banjo para a Revista Alfa
Ao contrário do segundo trabalho solo de Camelo, o piano é usado de maneira decisiva em Pitanga. Em “In The Morning”, as teclas – que por vezes parecem tortas, desafinadas – dão o ar que uma música de ninar precisa, que ao se juntarem com os efeitos de brinquedos infantis, nos remetem à crianças e nossa infância, num dos mais belos momentos do disco. A faixa de encerramento, “Cais”, é uma curta camada sonora inebriante, sentimental, solitária e surpreendente, criada através de sinos, piano, microfonia de guitarra e uma voz calma e contemplativa. Basicamente, um post-rock à brasileira.
A facilidade que Mallu tem de conseguir exprimir seus sentimentos nas letras, colocando-as diretamente em palavras de fácil entendimento pode, inclusive, assustar. “Velha e Louca” não foi escolhida para ser o primeiro single do disco por puro acaso. Nesta canção, Mallu Magalhães demonstra em frases como “pode falar que eu não ligo / agora amigo / eu to em outra“ ou “pode falar que eu nem ligo / agora eu sigo o meu nariz” a afirmação de entrada em uma nova fase, desquite por críticas vazias, e inclui até a sua paixão pela moda.
Esta também é a canção que mais se aproxima do clima e arranjos de Toque Dela, o que marca a participação maior de Marcelo Camelo, junto com “Baby, I’m Sure”, faixa que Camelo empresta sua voz para o backing vocal do refrão. A influencia do namorado também é facilmente impressa nas letras do álbum – quando não totalmente diretas. Duas faixas do disco se referem a alguém como Moreno (“Youhuhu” e “Olha só, Moreno”), assim como Marcelo sempre se refere à sua musa como Morena – fora o fato de algumas melodias vocais se embrenharem no jeito espaçado que Camelo gosta de cantar. O tempo curto das músicas, os timbres intimistas e a preocupação em deixar as canções mais objetivas, nem que isto custe um refrão ou base, também é marca que seu namorado soube impor.
(Foto por Marcelo Camelo)
A ala samba do disco, apesar de ter timidamente duas canções, traz o memorável momento musical chamado “Sambinha Bom” e toda a sua importância dentro do contexto do álbum. Se a canção, tranquilamente o melhor momento de Pitanga, não for escolhida como single, assim como “Versinho Número 1” não foi no álbum passado, deixaremos de ver pela tevê o momento em que uma cantora jovem de folk sobe ao estandarte de mulher da MPB, marcando de vez a transição dentro da sua curta, porém vitoriosa carreira.
E é bem isso que esse álbum representa: a transição da jovem promessa para a mulher da música brasileira, que como poucos consegue se reinventar e mudar o pensamento das pessoas. O que preocupa é o tempo que esta transição está demorando – já vindo do álbum anterior – e quando ela vai se estabelecer. Dizer que é um álbum maduro ainda é precipitado, até porque o estilo das músicas acabou de ser modificado e sabe-se lá como irá influenciar as próximas canções, porém mostra um bom caminho e metas a serem seguidas.
Pode parecer aquela história que até hoje sombreia o Live Through This, segundo disco da banda americana Hole, liderada por Courtney Love e composto enquanto ela ainda era casada com Kurt Cobain, gênio que um dia liderou o Nirvana. Ali, dizem que Kurt deu a voz (oficialmente), o caminho, guitarras e até composições para que Courtney fizesse um álbum que marcasse a banda e abrisse um novo caminho pela frente (em seguida a banda lançou Celebrity Skin e explodiu no mundo). Se os ventos fortes da inspiração baterem na janela daquele prédio da Zona Sul carioca, deveremos ouvir um novo Cê, um novo 4, ou melhor, um histórico disco da Mallu Magalhães em alguns anos.
Ouça: “Abril”, “Querques Souvenirs” e “Uma Tarde Inteira”
Lembro bem da primeira vez que ouvi as canções de Jan Felipe, a pouco mais de um ano. Roberto Pardal, líder da banda pernambucana Team.Radio (que também lançou álbum novo essa semana), estava num agitado papo comigo onde discutíamos a escassez de bandas no país com certos estilos, como o triphop. Não que o produto final de Jan possa ser colocado nesse nicho, porque com certeza passa por essa área, mas Jan consegue desenvolver sua música de uma forma diferente do que as batidas pesadas e tristes do gênero, misturando línguas e estilos no mesmo fone de ouvido. E que seu fone seja stereo, por favor.
Não sei como ele chegou nesse consenso final de seu estilo, talvez com influencia de sua antiga banda, a densa Brisa – que chegou até a emplacar a música “Quatro” na trilha do filme cult-simbolismo Apenas Uma Vez, quando a banda já tinha inclusive acabado – mas o que ouvimos é um som detalhado, diferente e que explica o porque dos 4 anos de gravação e composição do trabalho. Abril, o primeiro álbum do cantor franco-carioca contém 10 faixas autorais, cantadas em português, francês e inglês, e contém guitarras legitimamente rocks em cima de batidas e teclados clássicos do triphop. Essa deliciosa mistura mostrou seu resultado esta semana, quando a faixa de abertura, “Vive um Mundo Aqui”, finalmente veio a público para encerrar a saga de gravação do álbum.
Ouvindo toda a bolacha na ordem, é fácil encontrar explicações do porque canções demoraram cerca de 6 meses para serem compostas, arranjadas, gravadas e divulgadas: Jan aplica-se em entreter o ouvinte com novidades dentro das próprias músicas. Não há overdubs e cada transição, base ou refrão ganha elementos diferentes para que não haja repetição, vide “Our Last Surprise”, faixa que conta com vocais do francês Pery Sodré. Cheia de guitarras guia e riffs assobiáveis, a música rapidamente convida o ouvinte a cantar junto a frase “So Bad”, como numa música pop qualquer, mas executada sob uma base totalmente sombria e evocando um lado mais denso de nossos corações.
A faixa título e dona do primeiro clipe, “Abril”, apresenta um duelo de violões e vozes belíssimo, onde o sentimento da música é reconhecido desde o primeiro acorde até o último suspiro da convidada Mariana Albuquerque. Mais interessante é pensar que essa qualidade sonora de gravação vem do quarto de Jan, local que virou estúdio e vem sendo o cenário para suas canções. Jan produz, grava, arranja, programa, compõe e toca todos os instrumentos do álbum. Sua voz doce e os sensíveis apelos pop das canções surpreendem ainda mais. “Uma Tarde Inteira” e “Essa Demora” descrevem bem o lado mais acessível do álbum, menos densos e mais animados, inclusive, causando a surpresa – que tanto parece ser o elemento sonoro principal do trabalho do músico.
A canção de encerramento, “Assim Como”, é talvez uma das melhores músicas do álbum, apesar de sua versão em francês – um eterno b-side que poucos conheceram – ser ainda mais cativante, fazendo par com a irmã “Querques Souvenirs”, definida facilmente como uma canção definitiva e apaixonante. Ouvir este disco inteiro é como um filme cult triste, regado a sensualidade, algum suspense ou desespero e cenas em slowmotion. Rapidamente você entende onde as músicas querem te tocar e o sentimento rapidamente te consome. A música de Jan não faz parte da trilha sonora que acompanha o mocinho.
Hoje ficará difícil alguém conseguir assistir shows da banda de Jan Felipe. A França o chamou de volta no meio deste ano e poucos shows nas terras cariocas aconteceram. Quem viu, viu. A música continuou. Do quarto dele para o seu quarto, para o seu fone, para o seu dia. Quem sabe onde mais essa música se encaixa? É tão bom ver que nem um oceano nos afasta da boa música, que nasceu no Brasil, mas com gosto de universal e com todo sentimento.
Boss in Drama – Pure Gold Rockometro: 7,5 | Selo: Vigilante | Ouça
Banhado em ouro e em boas canções dançantes, Péricles Martins lançou essa semana seu primeiro full álbum. O álbum surpreende. O pés não pararam de bater no chão até o término do disco, mas a todo momento temos aquela impressão de ‘já ouvi isso em algum lugar’. As influencias estão ali na cara do ouvinte, o que para muitos se torna um convite. Sorte nossa que não precisamos ouvir a voz forçada de Péricles durante todo o disco: Christel Escosa pontua metade do álbum com seus backs bem colocados, enquanto que Laura Taylor (do Bonde do Rolê) coloca toda sua pegada em “Let Me Be”. Um álbum dançante de um artista que ainda é uma promessa.
Infelizmente, o primeiro trabalho solo de Lirinha, Lira, já começou errado: Caiu no erro primário de divulgar o download de suas músicas em baixa qualidade e ainda com tags erradas. O jeito de cantar que o tornou conhecido no Cordel do Fogo Encantado ainda está lá, mas agora as bases estão mais densas, mais rock e menos percussivas. As letras, como sempre, são um caso a parte, sendo o grande destaque do álbum. Em resumo, é uma boa coletânea sonora e bem mais fácil de ser assimilada e as estelares participações especiais (Otto, Luisa Maita, Fernando Catatau e vários outros) ajudam bastante aqueles que não se importam muito com uma música em baixa qualidade sonora. É uma boa segunda chance para aqueles que nunca conseguiram engolir aquele som grave do Cordel, mas curtem uma letra com conteúdo poético.
Uma rápida ouvida no álbum é o suficiente para chegar a conclusão: é um disco longo demais, com mais de uma hora de duração, o que acaba atrapalhando a inteligencia do som para dar lugar a incomoda vontade de pular de faixa, até o final. Não que as músicas sejam ruins, mas talvez o conjunto da obra dá a entender que não é tão legal assim juntar todos os sinths e acessórios raros que o Astronauta arrumou para gravar esse disco. O álbum é todo analógico, com influência do eletrônico na década de 70 e 80 (e pode por aí uma boa dose de Kraftwerk e New Order), o que resume as batidas a simplórias sequências repetitivas. Mesmo sendo o Astronauta Pinguim realmente quer, o que parece é que o disco está 40 anos parado no tempo – e lá ele ficou.