Minha mãe é cheia das histórias. Uma delas é da primeira vez que ela ouviu Raúl Seixas e do que ela sentiu quando presenciou algo tão fora da caixa. Outra história é de quando ela foi ao primeiro show do Zé Ramalho em São Paulo, e só tinham 10 pessoas no público.
Hoje eu acho que entendo. Ao assistir o show da banda Rafael Castro e os Monumentais não dá pra não sentir que você está na presença de uma algo incomum.
Rafael Castro e os Monumentais
A falta de normalidade já começa pelo local. O Serralheria é tipo o quintal daquela família festeira do interior que todo mundo conhece. Mesas grandes, bancos com algumas almofadas e não podemos nos esquecer, é claro, dos insetos. Note to everybody: não usar perfume quando for lá. Nem decote.
Começamos a noite com o Sambarbudo Project formado pelo fofíssissimo Marcos Lauro e seu comparsa Pedro Henrique (www.sambarbudo.com.br) com um set list sensacional incluindo Cidadão Instigado, Otto e Arctic Monkeys.
Marcos Lauro (fofo) e Pedro Henrique - Sambarbudo Project
Depois tomam o palco Eles. Rafael Castro. Os Monumentais. Talento que me faz perguntar o que está rolando por debaixo dos Lençóis Paulista. Com seu blaser marrom, seu chapéu e sua voz grave, Rafael encanta com melodias e poesias absolutamente sensacionais.
Com influências claras de Raúl Seixas e do rock nacional dos anos 70, músicas como “Amor, amor, amor”, “Apagada Luz”, “Foi porque bebi” e minha favorita “Enquanto não me Notares” mostram toda a canastrice, breguice e sem vergonhice que permeia o repertório da banda.
Rafael Castro
E enquanto eu estava absolutamente seduzida pela segunda vez, (sim, essa foi a segunda vez q eu fui ver o show deles, pra vocês terem uma idéia) me veio um sentimento de revolta, pensar que as pessoas preferem ficar em casa vendo aqueles programas bosta de domingo em vez de conhecer algo diferente, prestigiar um talento. E contei as pessoas ao meu redor… eramos 10.
P.S.: Acho importante salientar, como advogada que quase sou, que os atos descritos na música “Vou te encher de Birinight” são tipificados como crimes.
Texto: Marcos Xi Fotos: Juliana Ribeiro
Veja mais fotos aqui.
Noite carioca de final de semana é um momento sagrado de libertação dos quadris e troca de sentimentos na Lapa, e no Circo Voador. Pelo menos é o que a molecada antenada na boa música procura fazer. As atrações da casa nesta noite foram o Sobrado 112 (que são meio paulistas e meio cariocas) e o Móveis Coloniais de Acaju, que trouxe a participação especial de Mallu Magalhães para seu show.
Intenso, surpreendente e altamente dançante. O Sobrado 112 misturou pedais de distorção e efeitos ao trompete de Leandro Joaquim, e encantou com a mistura reggae/ska/samba/rock que faz – na qual eles chamam de Skapolca. Algumas canções instrumentais, outras com vocal dividido entre Leandro e Vitinho, o Sobrado aqueceu a o público e os fez tirar o pé do chão sem medo do cansaço. Os sorrisos que os músicos trocavam entre si e a animação de suas canções são a marca em suas apresentações. Satisfação de pensar na cena que se tem no Rio de Janeiro, com bandas como o Sobrado 112, Brasov, Canastra e a Go East Orkestar.
Oficialmente encerrada a turnê promocional de Co_mpl_te, essa re-volta do Móveis Coloniais de Acaju ao Circo Voador trouxe um vigor diferenciado aos apreciadores da feijoada búlgara que eles à 12 anos propõem. Com um set-list mais focado aos fãs, deram-se ao luxo de não executarem dois singles seus: “Cheia de Manha” e “Seria o Rolex” – o que não surpreendeu os presentes, já que ganharam com raridades pouco tocadas no último ano, como “Menina Moça” e “Perca Peso”, e mais algumas músicas de Idem, o primeiro álbum dos brasilienses.
De fato, o show tinha um frescor diferente. Além do repertório, a iluminação e as roupas dos músicos não eram tão claras – por se dizer, bem mais escuras – do que as últimas vezes no Circo; André Gonzalez (vocalista) e Xande Bursztyn (trombone) estavam endiabrados no relativamente grande palco do Circo Voador, sendo que Xande pulou no público ainda no início da apresentação e André executou alguns movimentos realmente inesperados, que foram desde a dança do ventre até outros passos caóticos, onde trocava sorrisos com o público inflamado.
Público que, alias, sofreu com a chuva que caiu antes da apresentação, fazendo a convidada da noite, Mallu Magalhães, mostrar seus dotes para uma casa quase cheia. Infantilmente, Mallu foi recebida com desrespeitosas vaias pelo público acostumado a ver correria no palco, mas rapidamente contidas por palmas e ovações – pedidas pela banda. A primeira música entre a cantora e a big band foi “Shine Yellow”, da própria Mallu, onde um desregulado som e o pouco ensaio dos músicos proporcionaram um momento infeliz entre a platéia e os destaques do tablado. Contra-baixo com o grave estourando; violão de Mallu com equalização praticamente nula; desencontro da banda com a música… Não rolou, mas ainda vinha mais por aí.
Mallu sussurrava ao microfone as letras que parecia não saber cantar. Na homenagem que prestaram aos 100 anos de Adoniram Barbosa, conseguiram até causar algum bom momento, mas ao tocarem “Aluga-se-vende” é que ficou evidente a falta de posição de Mallu entre aqueles nove homens: A guria, imóvel e tentando se manter fora de foco no canto do palco, começou a ‘cantar’ (sussurrar) a letra da música num tom desconhecido, causando uma grande estranheza no público e um olhar meio desentendido de André, tamanho o desafinado que ela resolveu mostrar na canção, precedido pelas vocalizações semelhantes àquelas mostradas no Altas Horas, ao lado de Wagner Moura e a banda Sua Mãe.
Mallu ainda subiria no palco para cantar outras duas músicas, no bis, encerrando o show com a banda ao som de “Sessarua” – cântico popular de domínio público gravada pelo Móveis para a Trama Virtual. O Móveis, com a Mallu ou sem Mallu, é grande o suficiente para encher de música qualquer noite de frio e chuva. A alegria é cantar e fazer parte dessa grande bagunça festiva, com ou sem Mallu.
*O Móveis toca gratuitamente na UFF de Niterói, na quinta feira, dia 12/08, junto com a Tereza e mais duas bandas. Mais um projeto da Ponte Plural. Informações aqui.
O trânsito de São Paulo pode causar fusões de fúria incontida em monges beneditinos, se não for entendido e manipulado como uma força independente da natureza matrixniana. Nessa última quinta feira (05/08), particularmente ele parecia envolto em ódio tectônico, tamanha a quantidade de carros que aglomeravam-se e pulsavam na veia aberta que era a Avenida Europa, localização do Museu de Imagem e Som (MIS) durante o início da noite. Os milhares de passantes motorizados que acotovelavam pneus no asfalto, em sua maioria desatentos para a aura beatificada que rondava aquele quarteirão, mas quando se estacionava o carro em frente ao museu já podia-se sentir uma pureza de ar.
Talvez esse fosse realmente o objetivo final do evento realizado nessa quinta feira. O ABSOLUT CREATIONS(patrocinada por uma famosa marca de vodka) e seu festival Rojo Nova, há uma semana atrás mostrou aos paulistanos o trabalho caótico do diretor Spike Jonze (com o curta “I’m Here”). Dessa vez a noite teria colorações e imagens lisergicamente pacificadoras de alma…
Já na entrada do MIS, suas pilastras brancas colocadas lado a lado e formando um corredor, deixam a impressão no ar que estamos entrando em outro mundo. Milimetricamente dispostas como se fossem flores de concreto que recebem os iluminados. E não é pretensão hypesteriana dizer que as pesssoas presentes ao show da cantora SÓLEY e o grupo SIG FANG BOUS (projeto solo do criador da sensacional banda islandesa SEABEAR, Sidri Mar Sigfusson) foram merecedoras do adjetivo apenas dado à Daniel Torrance. Mesmo porque existia um clima sacro no ar interno do museu, talvez devido à presença de um certo reverendo…..
Apesar dos preços acessíveis (R$ 80,00 a inteira e R$ 40,00 a meia entrada), o número de pessoas era reduzido dentro do espaço. Obviamente que shows com o início marcado para as dezenove e trinta da noite em uma quinta feira, não são os mais procurados pelas audiências. E mesmo as atrações sendo expoentes de uma safra brilhante da sempre surpreendente Islândia, o clima era intimista e quase bucólico.
Poucas pessoas tomavam bebidas destiladas em canudinhos que aspiravam diferentes cores rodeadas de cubos de gelo transpirando um caleidoscópio de movimentos dentro dos copos. Para cada boca, uma cor específica e início de uma experiência sensorial que apenas terminaria com o último acorde.
O show realizado dentro do pequeno auditório, revela logo na entrada sua condição de experiência ludovicana. Assentos simetricamente dispostos e rodeados por degraus que permitiam armadilhas ao caminhar, esperavam sorridentes o descanso dos corpos da platéia que já colocava-se em seus lugares.
Tudo com tanta calma e silêncio, que nem ao menos parecia que em minutos entraríamos no mundo de dois músicos que tem em sua gênese musical o mesmo núcleo (Sóley e Sidri são comparsas no Seabear) e que são idolatrados pelos fãs da banda, devido à mistura lisérgica de acordes com tonalidades variantes entre a experimentação e o palatável (e por que não dizer pop, afinal de contas essa palavra quando bem realizada pode gerar maravilhas).
Mas quando separados, esses dois super gêmeos da liga islandesa da justiça (que ainda conta com a participação de Björk e Sigur Rós) revelam uma faceta muito mais complexa e de talento ímpar dentro do mundo dos sons. São sonetos decassílabos reverberados dentro de uma difusão sensorial que não contém apenas um sentido exposto como osso solto. Tanto no show de Sóley, quanto a banda Sig Fang Bous a experiência sensorial é completa.
E tudo inicia-se com quase uma hora de atraso, por meio de um olho postado no telão ao fundo. Como uma instalação de Andy Warhol, onde não existem diálogos e apenas uma imagem que lentamente realiza movimentos pleonásticos, o verde íris que recobre uma retina vedada por uma lente de contato, intimida. Esfinge que encara a platéia como se indagasse à todos se estão ou não preparados. Ao mesmo tempo que desafia, esse olho é um aviso para que não apenas os ouvidos fossem utilizados. Na presença de poucas luzes dentro do palco, seus olhos necessitavam permanecer atentos.
Sóley entra vagarosamente no palco, como uma menina em seu primeiro dia no colégio, apenas munida de seus óculos cartunescos. Para, olha ao redor e dá boa noite em inglês. Inicia então uma série de frases em sua língua nativa que parece ter sido retirada de algum filme de ficção científica. Mas se existe uma característica no dialeto islandês, essa é a métrica poética que as sílabas apresentam. Todas as frases que são ditas parecem claves de sol. Isso explica a beleza nas composições que mesmo cantadas em inglês, possuem o sotaque de nascimento. Ela apresenta-se e inicia o show, ao fundo uma projeção que revela um caminho.
As luzes vão diminuindo até o momento em que apenas pode-se ver a paisagem bucólica sendo percorrida pela câmera. Por instantes a figura anatômica da cantora desaparece e ressoam pelo ar os tímbres vocais que de imediato lembram Björk, tanto que em várias notas mais altas a semelhança é palpável. Mas Sóley como mostrado na projeção percorre outro caminho. E com um passe de mágica da menina maga que por muitas vezes parece perdida dentro do espaço do palco, estamos imersos dentro do som.
Na verdade nesse instante nossos corpos estão em outro lugar dentro da projeção, rodeados de sons mágicos que misturam bases pré gravadas podendo ser às vezes apenas palmas marcando a melodia. Ela usa as nuances eletrônicas com canções que percorrem os caminhos do clássico a mais doce melodia infanto juvenil (como no caso da canção “”Rabbit”"). Mas não são apenas as notas lindamente tocadas que emocionam a platéia, Sóley encanta quando timidamente conta histórias sobre a estadia em São Paulo ou a composição de uma canção inédita (vídeo abaixo).
A experiência é completa, ouvidos, olhos, sorrisos e almas são levados em estado de pura eletrônica lisergia hipnótica, que por muitas vezes conseguem marejar os mais experientes olhos. Mesmo sendo um show curto, transportou a todos para um outro lugar muito distante do espaço pequeno do teatro. Levados em nuvens de ébano e marfim por caminhos cheios de sorrisos tímidos e óculos cartunescos irressistíveis.
Mas não bastava chegar ao sublime, era necessário manter-se. Entra em cena então Sidri Mar Sigfusson. Ele e a menina que à pouco havia levado as almas na platéia para um passeio juntam-se e mostram o porque da banda Seabear ser catapultada como uma das mais talentosas dentro do cenário, inclusive com canções colocadas como trilha sonora de seriados famosos.
“Cold Summer” torna-se inesquecível dentro da metade do show. Não havia uma intensidade messiânica dentro da apresentação, muito menos a necessidade de destilar hits. Apenas simples notas que fundiam um pouco cada pedaço de corpo e ventrículos por entre os entrecantos de cada acorde. Tudo isso desencadeando um dos momentos mais bonitos da noite que você acompanha agora….
Após a pausa de quinze minutos, entra em cena a SIG FANG BOUS. O quarteto complementado por Sóley no piano mostra que é possível a mistura de referências diversas dentro de canções, o que para qualquer ouvido desatento soaria como um pop rock acima da média. Engana-se quem tentar decifrar o som da banda por esse caminho, afinal de contas existem referências nítidas ao som de Fleetwood Mac (o SFB já regravou “”Landslide”" da banda americana), Neil Young e Radiohead. Mas também não adianta relacionar o som da banda islandesa com as suas referências diretas. Mesmo o guitarrista da banda lembrando-me muito Johnny Greenwod e a busca incessante pelo efeito de pedal perfeito.
As canções da banda transitam em uma faixa que percorre o mais puro e cerebral pop universal e isso não é pejorativo ou diminutivo do som. Durante todo o ano de 2009 vimos uma banda como o Phoenix tornar-se venerada pela mistura de canções que eram poderosamente sonoras dento do gênero inaugurado pelos Strokes em 2000. O rock dito alternativo levado para o lado do mais acessível e riffeiramente grudento. Canções com o apelo do gênero, mas com uma alta concentração de sinapses inteligentes, mas com o SFB o jogo atinge um outro patamar….
Não existem saídas pleonásmicas para as canções, um refrão que começa inicialmente comum não terminará encontrando a próxima estrofe, mas sim uma conjunção assimétrica de novas notas que possuem um poder de confundir os ouvidos tão grande quanto o de hipnotizar. Diferente de músicas que à duras penas tentam parecer inteligentes despejando uma britadeira de lisergia envolta em guitarras e distorções. As canções do projeto solo de Sidri possuem vida própria as vezes, pois tem-se a impressão em vários momentos que a banda deixa-se levar por onde a ordem dada pelos acordes à leva. Sem amarras ou cartas marcadas.
Outra diferença é a intensidade matemática que a banda de apoio possui. Muitas vezes parecem em transe e tocando mantras xamânicos, que sempre encaixam-se na melodia do violão de Sidri. Outras vezes destoam da linha reta e fazem voltas sinuosas cheias de distorções e tempos cortados de bateria e baixo. Isso tudo apenas reforça a idéia de que a beleza das canções está no momento da descontrução das mesmas, em um local onde a platéia é capaz de sentir cada pedaço de seu corpo ser absorvido pelas melodias.
O show dessa quinta afirmou certezas e fez novos admiradores. Não foi necessário um palco de 360º, parafernálias eletrônicas, coreografias ensaiadas antes com a platéia. Sons profundamente belos como agulhas quentes que marcam uma pele deixando marcas de vida para sempre e algumas imagens foram necessárias para que a experiência fosse completa. Arrebatados pelos ouvidos, levados pelos olhos e salvos pela fusão de alma com a beleza das notas, todos nós saímos do MIS nessa quinta um pouco mais humanos. E por que não usar a palavra felizes…..
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ago 1st 10
Postador por Virginia Serra em Resenhas, Shows
A noite começou agitada. Não sei porque cargas d’aguas achei que assistir A Centopéia Humana antes do meu primeiro trabalho de cobertura jornalística musical seria uma boa idéia. Não foi.
Mas isso não vem ao caso não é mesmo? Ontem, 31 de julho de 2010, aniversário de sete anos do Outs, lá estava eu pra ver o show de Café, Cigarros e Materiais Elétricos, Pain in the Brain e Aurélio e Seus Cometas.
Café, Cigarros e Materiais Elétricos
A primeira banda a tomar o palco foi Café, Cigarros e Materiais Elétricos. Integrantes um pouco mais velhos, claramente mais experientes, mostraram um rock de boa qualidade e entreteve a platéia ao ponto de propiciar uma dança da bundinha ao som de “Play That Funky Music”. Não tinha como negar o talento dos musicos, principalmente do baterista. Eis que estou escrevendo esse texto e descubro que o vocalista é chefe de um amigo meu. Continuando…
Depois veio a Pain in the Brain, pain de fato. Não é o estilo de música que me apetece, rock pesado, gritos guturais, integrantes de cabelos compridos precisando urgentemente de um shampoo anti-frizz, mas enfim, o escasso público da casa pareceu curtir. O que me sobrou do show foi um ouvido chiando.
Finalmente, lá pelas altas horas da madrugada entra a clara estrela da noite. Aurélio e Seus Cometas. Acho que agora entendo o porque do nome da banda… e me refiro ao sentido astronômico da coisa. Logo de cara o vocalista já vai chamando o público, distribuido preguiçosamente no já pequeno espaço da casa, para perto do palco. Não que fosse necessário. A presença da banda é magnética. O carisma exalado do vocalista de cabelos vermelhos é contagiante. Não nego que sorri o show inteiro e não porque, no meio do show, Emir constatou que seu zíper estava aberto.
Aurélio e seus Cometas
A banda, é formada por Emir (guitarra e vocal), Pedro Nogueira (baixo) e Mogli Kid (bateria). Fundada em 2006, gravaram dois discos, A Incrível História de Aurélio & Seus Cometas e O Clube dos Descontentes.
O momento alto da noite com certeza foi quando tocaram seu maior sucesso, que dá nome ao segundo disco, “O Clube dos Descontentes”, com direito a coro do público e tudo. E olha, se o entusiasmo do público presente servir de amostragem, a banda fará muito sucesso.
Três anos se passaram desde que o Interpol lançou o introspectivo Our Love to Admire. Muito criticado por parte dos fãs, foi com a turnê de divulgação desse album que a banda veio realizar três concorridos shows no país em 2008. Satisfeitos ou não com o momento da banda, ninguém foi capaz de criticar negativamente a performance do Interpol.
Apesar da banda não ser vista como uma espécie de segunda família pelos seus integrantes (eles sempre declararam publicamente que não são amigos uns dos outros), era incrível a magia no palco e a execução perfeita de cada uma das faixas escolhidas para o repertório do show. Porém os problemas de relacionamento persistiram e acabaram resultando na saída do baixista Carlos D, logo após a finalização da gravação do auto-intitulado quarto trabalho de estúdio.
Clipe oficial de “Lights”
A primeira impressão de Interpol é que soa como uma continuação do trabalho anterior. Com melodias ainda mais suaves e obscuras, Paul Banks (vocalista/guitarrista), Daniel Kessler (guitarrista), Sam Fogarino (baterista) e – a partir de agora – David Pajo (baixista) se afastam ainda mais das empolgantes canções dos dois primeiros discos e objetos de devoção dos fãs mais antigos.
Para o bem ou mal, não me encaixo nessa categoria e continuo admirando o trabalho do melhor grupo de rock que Nova York produziu nos últimos anos. O clima arrastado das músicas pode acabar afastando definitivamente aqueles que esperavam um disco com mais pegada e que tivesse canções como “PDA” ou “Slow Hands”.
A abertura do disco fica por conta dos acordes com um leve overdrive recheado de delay, som característico da guitarra de Kessler e da identidade sonora do Interpol. A faixa “Sucess” poderia muito bem ter sido escolhida como o primeiro single, ao invés de “Lights”. Desde já, toda a suavidade que vai evaporando lentamente até se transformar em um desabafo triste transforma essa canção em uma das melhores do grupo e que chega perto de superar a faixa de abertura do disco anterior (que sim, é o meu favorito da banda). “Memory Serves” soa como um lamento sincero, contando com uma bela guitarra base como tapete para os versos de Paul Banks.
A quarta faixa é a soturna “Lights”. Quando a música foi disponibilizada na internet, a reação inicial foi de susto. “O que esperar do resto do album?”, “Estou na dúvida se gostei dessa música ou não.”, “Letra bonita, música legal, mas que clipe escroto, hein?”. A verdade é que o primeiro single do novo trabalho consegue resumir bem a atmosfera que Daniel Kessler e Paul Banks criaram para o cd.
“Barricade”
Em “Barricade” e “Safe Without” encontramos os únicos vestígios que preservam as origens e soam como primos distantes dos primeiros sucessos da banda. Não por acaso, ambas são responsáveis por alguns dos melhores momentos de Interpol (o disco e não a banda).
“Try it On” começa com um piano estranho que lembra filmes da série Além da Imaginação ou de alguma ficção científica pré-Donnie Darko, e que se repete por toda a música. E o final fica por conta da bela e com influências pink floydianas “All of the Ways” e de “The Undoing”.
São 10 faixas muito bem trabalhadas que formam um album coerente e que, mesmo sem ter grandes destaques individuais, funciona como um conjunto. Interpol pode até não ser (ainda) o melhor trabalho do Interpol, mas é um divisor de águas e conclui a direção musical que a banda passou a assumir em Our Love to Admire. Resta saber se o grupo vai sobreviver aos conflitos de ego durante a próxima turnê e conseguir lançar um disco com competência o suficiente para se reinventarem de novo.
Cena 1:
Uma banda que em 2004 era o maior prodígio das terras outrora de Portugal. Nesse ambiente quase bucolicamente nervoso, a Mombojó é agraciada com elogios poderosos de vozes que ecoam por blogsferas e publicações. Nada de Novo, o primeiro disco mostrava uma metralhadora que girava em todas direções, mas com uma empunhadura firme e tão coesa que acachapou os mais entendidos no assunto. Com Homem-Espuma eis que a banda contava com todas as ligações no lugar. Corte rápido…
Cena 2: Rafael Torres, o flautista. Infarto do miocárdio. O rock levava de maneira natural mais uma alma ao encontro dos grandes na enorme jam infernal, a banda levava a primeira alfinetada do tique taquear.
Corte com a tela amalgamando cores escuras e cinzas….
Cena 3: Marcello Campello deixa a banda. Quando todo mundo achou que os garotos prodígios recifenses iriam buscar alternativas baratas, eis que com uma molecagem madura a banda se fecha ainda mais no círculo de amizade que desde sempre tiveram. Romperam com a gravadora Trama e começaram a tomar conta de tudo que fazia da banda uma liga metálica de adamantium. E veja bem meu emotivo leitor, passar por todos esses percalços e produzir, gravar, ensaiar, fazer shows e ainda por cima distribuir gratuitamente um dos melhores discos do ano é tarefa para quem tem poderes mutantes dignos de Stan Lee.
É assim que deve-se olhar o disco da banda Mombojó, lançado em julho de 2010, Amigo do Tempo. Uma confraria de comparsas e muitos convidados que dentro de onze faixas trazem a modernidade recheada de cores sépias de tempos passados. Não existe comparação com nada ou nenhum trabalho desse ano, além das citações de estilos e bandas que influenciaram o Mombojó (entre eles High Llamas, Stereolab e a inglesa Laetitia Sadier). De uma fluidez que há tempos eu não conseguia ouvir, Amigo do Tempo não á apenas um disco, é acalento feito de nuvens para almas em interrogação.
As canções até podem ser tachadas como as mais simples dos três trabalhos da banda, exemplo na faixa de abertura “Entre a União e a Saudade”. Duas palavras que calariam fundo dentro do ventrículo de qualquer pessoa quando passa por tudo o que a banda passou.
Mas esse caldo amargo como boldo de lei, produz duas das frases mais bem sacadas do disco (“triste quando alguém desiste e não insiste em acertar” e sinto não ser dos mais saudosistas, qualquer caminho sou eu”) tudo embalado em um arranjo que mistura tábuas de esmeraldas e low-fi. E por favor não imaginar que essa melodia tenha sido escrita por Rodrigo Amarante, é uma praia muito mais lisérgica que as canções do hermano.
As participações especiais que haviam começado na primeira faixa com a presença de Guizado, em “Antimonotonia” ganham cores mais rap ploquianas. Queóps Negão nos vocais e Pupillo (Nação Zumbi) na programação. E ainda Rafael Fonseca nos violinos, trazem para essa faixa a definição perfeita de tempo e execução. Começa como um iê-iê-iê simples, mas ao fundo as cordas dão o tom mais universal que se completa com as mudanças dignas de qualquer disco do Gorillaz. Em ritmo de filme Pulp, a banda destila uma linha que transpassa a garagem e termina em um funk metálico.
Mesmo sendo mais universal que os discos anteriores, a pegada da banda está mais viva do que nunca em “Passarinho Colorido”. A aceleração e desconexos riffs formam uma cadeia cíclica que com a letra inicialmente matemática torna-se cheia de lirismo. Tempo e velocidade andam juntas dentro dessa canção. A calma de “Justamente” é uma deslizante ligação iônica de gooves e lisergia contida que salva. E aqui sempre cabe o clichê de que escrever rock em português é difícil, mas a sequência que vem à seguir com “Qualquer Conclusão” e “Praia da Solidão”, mostra que na verdade a dificuldade é inversamente proporcional à maestria do acerto, seja no suingue low-fi de ….Conclusão ou na balada malemolente na ….Praia.
E mesmo sendo uma das mais tocadas nas rádios (aqui sempre ouvia na 107.3, “casa do Garagem…”), a letra de “Casa Caiada” é confessionalmente visceral. Se a definição de construção dada por Chico Buarque à uma canção vale, eis aí um exemplo de sônica arquitetura. Mas o oito marca a camisa do craque e assim é “Aumenta o Volume”. Uma veia exposta garageira com beleza clássica, digna de clip com animação.
Clipe de “Papapa”
Nesse becker sonoro, o eletrônico devoniano se mistura com a bossa acelerada, cores metálicas quimicamente costuradas com um “mutante furry animal”, mostram que uma banda pode com o passar do tempo e dos fatos que são sorrateiramente colocados na trama, fazer um disco que soe tão brasileiro e do mundo. O lisérgico, o batuque e a garagem em completa sincronia. “Amigo do Tempo” (Michael Jackson aparece aqui…) e “Papapa” mostram isso.
Amigo do Tempo provavelmente é um daqueles discos que serão atemporais, pois muito antes da mistura se sons e ritmos algo dentro do ser humano move mais. Emoção é o que faz canções memoráveis e esse disco é assim. Por isso ao final da audição dessa nova bolacha da Mombojó, se nada acontecer dentro de seu peito, procure Dorothy. A estrada até o homem atrás da cortina para recuperar teu coração é longa.
Aproveitando da minha prerrogativa editorial dentro deste sítio, gostaria de quebrar o protocolo e exibir as minhas próprias conclusões sobre a tão comentada nova empreitada do Arcade Fire, The Suburbs. Minha opinião vai contra a já apresentada resenha de nosso humilde companheiro Dayson Ruan, e por isso achei importante mostrar novas visões da bolacha em nossas linhas.
The Suburbs é um álbum ímpar na discografia dos canadenses, onde buscaram algo além do som próprio que criaram e incorporaram influências diferentes, como Bruce Springsteen e Nick Cave (algo que já indicavam em Neon Bible). Em troca, simplificaram as orquestrações de Owen Pallett, reduzindo-a a poucos momentos – como a ótima “The Suburbs” e na repetitiva “Rococo”.
Violões também ganharam mais espaço e um princípio eletrônico talvez mostre a nova direção que o grupo quer tomar, basta ouvir os detalhes da boa “Ready To Start”, o final de “We Used To Wait” e a repetição linear de “Half Lights II” e “Sprawl II”. Repetição, aliás, acaba se tornando a tônica de um álbum marcado pela confusão entre usar uma fórmula mais pop (como em “Modern Man”) e experimentalismos pouco convincentes e sem detalhes marcantes, como esperamos do Arcade Fire.
“The Suburbs” Ao Vivo
Explicando melhor, basta pegar a guitarrada rock n’ roll de “Empty Room” (e os gritos lotados de reverb – talvez para tampar a pouca potência de voz de Régine) e a retilínea e desgostosa “Mouth of May”: Músicas retas, sem direção e não tão fracas quanto a infinita repetição de “City With No Children” e “Half Light I”. Esse marasmo sonoro se arrasta até “Suburban War”, que até tem uma boa intenção em sua guitarra, mas o riff se repete de tal forma que acaba perdendo o gosto.
As letras também se confundem. Ora geniais, ora sem muito conteúdo, não deixa de ser interessantes olhando pelo conjunto, mas em separado é passível de se ter algumas decepções. As 16 canções tornam o disco uma incógnita: atrativo para quem olha nas prateleiras e cansativo para quem o ouve inteiro.
As inexplicáveis 8 capas selecionadas para o lançamento e ainda a seleção de mídias a ouvir o álbum primeiro (lembrando que começou pela influente NME, passando por BBC, onde foi feito o tal comentário com Radiohead e interpretado erradamente por essas terras brasileiras) mantendo a banda na mídia o tempo inteiro, criando uma possibilidade de venda ainda maior.
“We Used To Wait”
Quem disse que isso não foi uma excelente jogada da gravadora? Agora o porque precisou disso? Será que eles mesmos não sentiram que o álbum tem todo esse potencial e resolveram investir em divulgação para ter uma boa resposta? Eu acredito em mídia comprada, ainda mais pelo fato de todos os locais que ouviram o álbum primeira, falaram muito bem da bolacha, de encher a boca e arregalar o olho.
“We Used To Wait” e “Ready To Start” ainda guarda uma boa lembrança de um Arcade Fire de guitarras viajantes, baterias pulsantes e refrões gritáveis. Mas tudo acaba preso num círculo vicioso dos arranjos e a bolacha finda sendo realmente o subúrbio da discografia do Arcade Fire: Mais pobre melodicamente e com faixas demais por hora de disco.