Representante da nova e crescente safra de artistas folk do Brasil, Phillip Long já está com o sucessor do elogiadíssimo álbum Man on a Tightrope (2011) agendado para início de Março. Trata-se do EP Caiçara, que terá 4 faixas e produção de Eduardo Kusdra (mesmo produtor do primeiro álbum). “Eu estava pensando em lançar um disco, mas eu tenho trabalhado muito nos arranjos e decidi tomar um pouco mais de tempo para o lança-lo. Resolvi produzir esse EP para mostrar que estou vivo”, explica Phillip Long em entrevista exclusiva para o RockinPress.
“São canções que eu já havia escrito há algum tempo, em geral B-sides. São arranjadas com maior presença de violões e gaitas, e letras distantes do universo homem/mulher/amores. São de conteúdo mais pesado”, completa. Segundo o músico, as melodias e letras estão mais maduras, além de frisar que só deverá haver versão digital do material.
“How Deep Does It Go” ao vivo em 2011
As quatro faixas que estarão no EP são: “How Deep Does It Go”, “Nobody’s Happy”, “Sometimes You Win Sometimes You Lose” e “Caiçara”. Apesar do nome do álbum e da faixa serem em português, esta não será a primeira vez que ouviremos uma música de Phillip em sua língua pátria: “A escolha do nome do disco não tem nada conceitual. É uma palavra que sempre gostei, do significado e da sonoridade”, explica.
Phillip Long também é um dos participantes da coletânea Re-Trato, organizada pela Musicoteca em homenagem aos 15 anos do Los Hermanos. Trinta artistas do país foram escolhidos a dedo para reescrever uma música da banda carioca e Phillip lançará sua própria interpretação de “Sentimental” – canção presente no álbum Bloco do Eu Sozinho, de 2001. “Eu realmente modifiquei a música, mas respeitei a linha melódica. Acho que fiz algo bacana com ela. Ficou Folk mas as pessoas irão se surpreender com a diferença”, encerra o jovem músico.
O interessante de uma boa conversa de bar é a liberdade e a sinceridade que as palavras são ditas. É quase ingênuo e inocente a forma que muitos artistas se apresentam em frente a um jornalista numa mesa de bar. Geralmente, este encontro só acontece na base da confiança, e é exatamente o momento onde o jornalista deixa passar as melhores pautas, fofocas inéditas e as grandes matérias possíveis. Isto pode se tornar ainda mais complicado se a pessoa que está do outro lado da mesa é o falador Rapha Moraes, líder da banda curitibana Nuvens.
Com cinco anos de estrada e o recém lançado segundo disco, Fome de Vida, a Nuvens vem pairando por fones de ouvidos espertos e sobrevoando pessoas que gostam de um conteúdo inteligente em músicas que, em maioria, soam como um pop-alternativo gostoso e bem arranjado. Esta entrevista não foi criada para ser o que é e foi retirada do primeiro contato entre um curioso questionador com um músico animado com sua recente empreitada. Poucas edições, perguntas e respostas 100% improvisadas do momento e bastante sinceridade. Este é Rapha Moraes, da Nuvens.
O nome Nuvens reflete em quê no som da banda?
Acho que a liberdade… de não estarmos presos a um rótulo ou objetivo fechado.
Está ligado a nos permitirmos mudar, assim como elas, de acordo com o vento do momento, afinal, a arte não tem sentido se não é aquela que representa o momento que o artista está vivendo, né? Tem que ser pra valer, antes de tudo, pro artista. Porque grana, essas coisas, pintam ou não, agora o tesão e o prazer de fazer é fundamental
E isto está diretamente ligado ao nome do álbum, Fome de Vida?
Está. Por que o álbum fala desse segundo, desse instante que pode ser eternizado. Como diz a primeira frase da música “Entre o Segundo e a Eternidade”: ‘Hoje serei eternamente hoje, serei eternamente eu’. É um instante que pode valer uma vida.
E num mundo em que a gente sempre se preocupa com o olhar externo, o que dificulta muito, seja no dia a dia ou na arte assumir a sua natureza do momento e tirar o melhor dela passa a ser um prazer e um valorizar a existência enorme, porque “Nem tudo que é caos é mal nem o que é errado é ruim”.
Clipe de “A Felicidade Mora em uma Encruzilhada”
Como compositor as músicas estão diretamente ligadas ao seu pensamento e sua vida atual. Fome de Tudo seria então, um diário seu com trilha sonora?
Começou assim, na verdade: eu compus umas 3 músicas que retratavam muito o meu momento e eu percebi que elas tinham algum em comum que unia elas que é essa “Fome de Vida”, essa entrega à vida, ao que não temos controle e que dá beleza as coisas. Aí paramos, juntos, a banda toda pra definir o conceito do álbum e que caminho seguir. Algumas canções continuaram surgindo espontaneamente e outras surgiram da bagagem de pesquisa. Li 3 livros na época que deram conteúdo pra várias das músicas,
que são “O poder do mito”, de Joseph Campbell, “A alma Imoral”, de Nilton Bonder, e “O lobo da estepe”, de Herman Hesse. São livros que tem muita sintonia. Falam, de certa forma, dessa tensão entre alma e corpo, e que é através dela que a vida se dá.
A idéia de que não somos só o lobo ou o homem, mas que somos muito mais que isso é nos permitir ser sem medo, viver e não sobreviver. Tem uma idéia de um livro – que agora não lembro qual é – que diz mais ou menos assim: “um coração trancafiado é como um homem que faz uma viagem de navio pelo mundo inteiro com todas as suas belezas, mas trancado no porão, sem ver nada”. Acho que o disco é um pouco disso… dessa busca pra sair do porão, mas sem medo de assumir o que somos nos momentos em que vivemos.
Incomoda quando alguém rotula de pop?
Não, porque não temos problemas com o pop. Tem aquele pop descartável baseado nas fórmulas básicas sem preocupações estéticas ou de letra e tem o pop que nasce independente do resultado comercial mas que é pop por natureza, na canção, melodia. Tem o lado bom que chega nas pessoas e acho que nós nos encontramos num caminho do meio aí. Tem bastante pop no nosso som, mas ao mesmo tempo não dá pra dizer que é um som óbvio. É super reflexivo e representa nosso momento. Quem sabe num 3º disco, podemos ver uma evolução desse caminho mais pro rock? Ou algo bem diferente? Quem sabe é a vida e o tempo.
Mas vocês acabaram de lançar esse disco, pensar em outro já sem trabalhar 100% nesse é meio estranho…
Sim, mas nem pensamos em outro.Só citei a idéia de dizer dos momentos mesmo que esse disco é um retrato fiel do momento, é ele que vivemos agora e será durante um bom tempo. Eu acabo me alongando demais com assuntos referentes ao disco. É sempre muito intenso pois as músicas representaram muito meu momento, mudanças, transformações, idéias novas, riscos. Paixões, etc. Foi uma entrega grande nas canções. E ah, tem muito de rock nele também! Muitos riffs, solos, momentos instrumentais que lembram o rock progressivo e foi algo que a gente se permitiu: músicas longas.
Ao que posso ver, pela sua empolgação, Fome de Vida é seu filho. O xodó que fica no meio da prateleira, em cima da televisão…
É… mais ou menos. A gente sempre acha que dá pra fazer melhor. Nesse instante não consigo ouvir muito ele, mas a gente tirou o nosso melhor e eu acredito muito na proposta, na idéia. Estamos felizes como banda. Fizemos exatamente o que queríamos, junto com o Alvaro Alencar que produziu comigo o disco. Mas é aquela velha e conhecida história: você acaba de fazer um disco e com isso vem idéias novas, coisas que faria assim ou assado… porque é um trampo que modifica muito o ser humano ali também. Então a gente nunca é o mesmo que aquele que começou o processo do disco.
Curiosidade: Peguei uma semana de férias e estava na praia. Botaram o disco e eu sem saber ouvi e curti bastante! Depois de um tempo sem ouvir… esses momentos são bons. É bom estar feliz com um trabalho concluído. E principalmente, a banda estar feliz. Foi um processo coletivo muito legal, que inclui lidar com as diferenças e convergências. Crescimento humano e artístico enormes.
Foto por Marcelo Elias. Agência de notícia Gazeta do Povo
Alias, a banda já tá no segundo disco e já tem uma certa estrada. Essa grande exposição da cena curitibana e todas as novidades que tem aparecido nela ajudam/atrapalham em que a vida da Nuvens?
Acho que só ajudam. Curitiba está num bom momento. Muita gente talentosa discutindo arte e cultura, lutando pelos direitos, criando e formando público. É bom fazer parte disso. Temos muitos amigos aqui e é bom ser fã de um amigo. Além disso, quando se tem uma troca de idéias, é construtivo, sempre muito bom.
Mas você acha que o espaço para shows, as casa, os shows covers e as baladas tem permitido as bandas trabalharem e formarem seu público como deveria formar?
Eu acho que em todo lugar essa é uma das grandes lutas. O cover nunca vai morrer, assim como as casas desse segmento. Eu, falando de Curitiba, tenho uma visão otimista. Vejo que tudo vem acontecendo, desde internet, qualidade de estrutura de algumas casas, gente a fim de fazer… isso tudo tem ajudado e eu vejo o público daqui evoluindo junto com as bandas. É toda uma história né? Desde Blindagem e tantos outros artistas que tem sua parte pra chegar nesse momento, mas eu vejo sim um público interessado. O ponto é que é tudo muito segmentado. Quando eu falo isso, falo de um segmento, não da grande massa. Essa, pra chegar nela são outros quinhentos. Mas falando da Nuvens, que tenho conhecimento de causa, o nosso público tem crescido e se ampliado constantemente. Gente nova, interessada e super a fim. A internet é uma grande aliada nesse processo. Lançamos o disco no Paiol. Lotamos 2 sessões de público de verdade. Gente que conheceu a banda e foi atrás. Pra mim, é claro que é uma evolução da banda,. mas também muito do público – que está mudando rapidamente.
Você acha que a Nuvens não é mais banda para tocar, por exemplo, no Wonka ou no Peppers, por exemplo?
Não vejo assim, mesmo. Acho que cada caso é um caso. Estamos conversando sempre com a galera e abertos as coisas. Não vejo esses bares que você citou como menores do que outros, pelo contrário. São fundamentais pra música da cidade. Lá que muitas bandas tocam, inclusive a gente. São eles que sustentam todo o esquema da cidade, como um todo. Tem que juntar essas casas, teatros e shows na rua.
As coisas andam prolíficas demais por Curitiba. Você poderia apontar agora qual será a próxima banda curitibana que as pessoas devem ficar de olho?
Posso, apesar de ser redundante pro RockinPress, mas pra mim a banda curitibana que mais escuto e curto no momento é o Humanish. Um puta disco e um puta show.
As vezes pode parecer uma seita. Talvez um grupo de fiéis urrando suas verdades para um público inflamado que levanta as mãos aos céus como quem pedisse a benção que aquelas músicas parecem distribuir. Um show do Medulla é algo realmente diferente, uma experiência incomum feita para se sentir. Aqueles caras sabem dizer cada palavra e disferir cada golpe na bateria com o sentimento certo.
Não à toa, a banda tem algo a dizer, uma opinião para o futuro, e se baseia na verdade para seguir seus pensamentos. Eles fazem parte de um seleto e extremamente reduzido grupo de músicos que não entraram nesse mundo para criar músicas para menininhas e tocar acordes simplesmente para fazer dançar. A questão aqui é outra, mais profunda e interessante. O próprio Edu K, homem que desde sua época áurea na frente do DeFalla era tratado como alguém muito a frente do seu tempo, escreveu certa vez que o Medulla “não é a mais nova salvação do rock. Eles vieram para destruir e construir tudo de novo em cima dos escombros.”
Mais quem quer ouvir e enxergar isso? Quem quer entender o que o Medulla é, quer e será? Aproveitamos o lançamento do novo clipe da banda na programação da MTV para arrancar os planos, opiniões e mensagem que o Medulla tem a dizer. Confira abaixo o clipe de “Movimento Barraco”, o novo integrante, o novo compacto e todas as novidades da banda carioca Medulla em nossa entrevista.
O que é o Movimento Barraco?
Essa música foi escrita pelo Dudu, iluminado numa conversa com o compositor Ludi Um…eles imaginavam um despertar do povo diante de tantos absurdos…a música expõe personagens comuns desse caos.
As pessoas que gostam e entendem a banda se sentem parte do que vivemos, e a música acabou dando voz a essa relação.
O clipe seria uma retrospectiva do que a banda já passou até hoje?
há um tempo nós mirávamos um vídeo clipe onde ficasse aparente a vibração dos shows e os encontros que fizemos durante esse período de compactos. Esse vídeo é uma homenagem aos nossos “camaradas”.
O que são os símbolos e números que aparecem no decorrer do vídeo? Significam algo?
Os símbolos se repetem de diversas formas no clipe, mas o principal deles é o Medulla.
No mais, considerem como um termômetro do clipe. Este termômetro pode indicar um momento precisamente, ou indicar o que não está à vista dos olhos e até das lentes. (Cironak)
Agora a banda tem 7 integrantes. Como se dará a entrada de Bruno Cinorak na banda?
A entrada do Cironak no Medulla tem sido muito honesta e natural. Está com a gente desde os 16 anos de idade, veio de SP pro RJ com a gente. Hoje com 19 de idade, vem conquistando o merecimento e cada vez mais espaço dentro do Medulla; com suas ideias, seu envolvimento e sua busca por sabedoria e informação. esses 4 requisitos são necessários para ingressar na nossa sociedade, que é muito fraternal e acolhedora, porém bastante exigente. E o Bruno cada dia mais nos surpreende, as vezes até vai além demais o que na pior das hipóteses acaba sendo muito inspirador para todo o trabalho.
Playbotton (foto por AP Facchini)
Playbutton. Vi que bandas passaram a usar como lançamento e vocês vão começar a trabalhar com essa nova tecnologia. O que é e porque o escolheram?
O Playbutton é uma mídia nova-iorquina que consiste num botton com a arte da banda, que tem um player de mp3 de conteúdo inalterável (afinal é um disco não um pen drive). No exterior artistas como Belle and Sebastian, TheXX, Extreme e ATOM já usam o Playbutton como mídia expressiva, agora nós do Medulla, convidados pela SeloFan, estamos lançando o primeiro Playbutton no Brasil.
Com esse lançamento entramos na segunda fase do Capital Erótico. Ele contém as 4 tracks do compacto mais uma faixa bônus de “I was a monster”.
Tínhamos uma gravação antiga, de quando ainda estávamos fazendo a música…Era uma gravação muito ruim, feita com microfone de karaokê…só tem bumbo, caixa e contra-tempo…Ficou nas mãos do Cironak o dever de piorar as coisas…a música parece derreter os falantes…………………the death of the Terminator.
O caminho que traçamos na ideologia dos compactos, nos fez buscar novas iniciativas no mercado independente no mundo todo. Esse mercado tem mostrado soluções para grandes empresas, não só da música.
Optamos pelo PlayButton por trazer um relacionamento com o fã, sendo um acessório e um produto de música inalterável e por meio disso acabamos com a oportunidade de sermos os pioneiros dessa midia no Brasil em nossas fucking hands.
Quem produz e quando será lançado o quarto compacto? Já tem nome?
Vamos fazer o último compacto dessa série (ainda sem nome) com o Patrick Laplan. Ele é um produtor muito talentoso, toca muitos instrumentos e desde o nosso primeiro encontro, como baixista no álbum “O Fim da Trégua”, temos nos alimentado de uma troca muito rica de influências e visões. Depois de algumas noites regadas a cafeína chegamos ao repertório e já estamos trabalhando nas prés. Pra quem quiser conhecer melhor o trabalho do Patrick nós aconselhamos uma visita longa ao bandpage do seu projeto “Eskimo”
O próximo compacto já está em fase de pré-produção e virá para encerrar um ciclo. Explique melhor o que ele vem para encerrar.
Estamos numa campanha de 4 Compactos que antecedem o 2º álbum da banda. Durante essa campanha lançamos todos os compactos em mídias diferentes, sendo
- CMPCT I 2008 – AKIRA (internet);
- CMPCT II 2009 – Talking Machine (fita cassete);
- CMPCT III 2010 – Capital Erótico (venda vitual – pleimo.com/medulla e playbutton);
- CMPCT IV 2011 – Ainda sem nome.
É a campanha de busca por outros mundos no conceito da exposição de tudo que nós vemos, vimemos, cremos e sentimos em forma de arte.
Medulla Ao Vivo
Qual é a missão/filosofia/mensagem musical que a Medulla tomou para si?
Somos um corpo, ficamos os últimos 5 anos motivando nossos fãs a entenderem nosso comprometimento artístico. As gerações foram parando aos poucos de pensar, resistir e propor…o futuro era agora, já não temos tempo para planejar..uns participam, outros parasitam…escolhemos nosso lado.
O que é essencial em uma banda para se fazer uma música com sentimento?
Sentir man. A gente vive um momento de crise mental na geração 2.000. A facilidade para produzir “arte” hoje em dia causa um estopim na “cultura da celebridade”. Fica fácil entender o que precisa ser feito para ter uma banda de sucesso. Existe um desespero muito grande em recuperar o glamour do rock star, mas não a mentalidade dos grandes nomes da música. É preciso se desprender da carne e fazer música sem medo.
A grosso modo falando: olhe para os lados e reflita; não é sobre o que você vê, mas sobre o que você percebe dentro do que você vê.
Tenho visto algumas pessoas reclamando da cena carioca em entrevistas ou em conversas informais. O que é a cena carioca atualmente?
Existe hoje um ar de vamos voltar aos velhos tempos…O Rio vive um momento de muita movimentação política por conta da Copa e Olimpíadas. Novas casas estão abrindo, como o StudioRj…onde o Medulla toca com o Eskimo no dia 12/outubro…Vemos artistas independentes cariocas concorrerem a prêmios na Multishow e MTV e ouvimos na rádio um entusiasmo com os artistas locais.
Fomos convidados pelo Grupo Sal, para participar da nova temporada do Experimente da Multishow…é ótimo poder ser uma das bandas do Rio…junto com B Negão, Thalma de Freitas, Tono entre outros.
Fama ou liberdade? O independente é realmente independente ou a dependência é que gera a insegurança?
Hoje o mercado independente e o “grande mercado” mídias se misturam pelo envolvimento dos artistas. Os artistas apresentaram pro mercado novas formas de gerar grana e interesse do público…e fica bem visível a corrida que as gravadoras, grandes festivais, rádios, canais de tv, etc…estão para fazer parte também desse, até então, “sistema paralelo”.
Esse papo de fama sem liberdade é um conceito americano que colocaram na sua cabeça.
Já era noite quando eu saí da redação do site em direção a um pequeno estúdio na Barra da Tijuca. Eu seria a primeira pessoa que sabia o que é um acorde dissonante a assistir um ensaio do Dorgas. Garanto que me esforcei para tentar achar a porção adolescente que os jovens músicos deveriam ter em suas canções. Intrigado com o ato falho, resolvi entrevistá-los de maneira mais impessoal, e talvez até mais dura, arrancando-lhes os porquês desta surpreendente técnica musical. O resultado foi quatro homens decididos a brincar de Jukebox pelo resto da vida.
A pracinha onde se localiza o estúdio, em frente aos prédios e casas de luxo da Barra, lembra as fotos promo oficiais da banda – de fato, elas foram tiradas lá. Toda a minha ‘maneiragem’ e tentativa de deixar a banda desconfortável acabou resultando em uma amizade. A sinceridade e quase ingenuidade de Gabriel Guerra (Guitarra, teclados e voz), Cassius Augusto (Baixo, teclado e voz), Eduardo Verdeja (Guitarra) e Lucas Freire (Bateria e percussão) acabaram comovendo o entrevistador. O papo que começou às 21 horas e duraria apenas 60 minutos, acabou às 8 e 15 da manhã numa outra praça em Botafogo. O gravador já estava esquecido no bolso desde que acabou a bateria quando marcava 1 hora e 28 minutos de entrevista.
Vídeo quase inédito de Intro+”Salisme”, na final do Festival NMB
Botaram nome de Dorgas, porrada de nome de música estranha… Como vocês querem se levar a sério com esses nomes?
Verdeja: Não tivemos essa intenção: “Bora fazer essa banda aqui e tal, o nome é Dorgas… Depois a gente muda…” E o ‘depois a gente muda’, não mudou. A gente foi rindo, rindo, rindo e ficou. Lucas: Durante a gravação do primeiro EP, a gente ainda falava assim: “vamos pensar em um nome…” Isso é bacana, porque, quando você tem um nome ridículo como Dorgas, “Loxhanxha”, “Grangongon”, você abre o preço da dúvida. As pessoas entram pra ouvir nosso som, tipo… “tomar no cu, esse caras não são uma banda”… Cassius: Nego olha o nome e pensa: “vou ouvir essa parada porque deve ser um anarco-punk ridículo”, mas o cara clica ali e fala “porra, é uma parada bem trabalhada!”. Guerra: É, e eu gosto disso. As pessoas vão lá ao show, vão com a menor expectativa, e aí a gente tem que, com o nosso trabalho, gerar surpresas. Cassius: E sobre a questão de se levar a sério… A gente nunca teria uma banda com um nome sério, com nomes de músicas sérias… A gente não é assim, sabe. Esse é o nosso jeito de se levar a sério.
Então o Dorgas usa o ‘fator surpresa’…
Guerra: Exatamente. Lucas: E usa o fator ‘a gente’, a intenção é ser a gente. Essa porra chegou na zoeira e já fizemos um ano… Cassius: Não é uma zoeira estudada, é uma zoeira natural. Guerra: Mas também não é nenhuma regra. Nós mesmos podemos nos dar nomes sérios.
Porque Verdeja Music? É um disco mais voltado ao Eduardo Verdeja? (mais…)
Curitiba, Rio, Salvador, Recife, São Paulo, Goiania, Porto Alegre, Cuiabá e Brasília. As capitais do rock são bem conhecidas pelo circuito independente brasileiro e acabam sendo o território central para novas bandas começarem suas andanças. Mas o Brasil e todas as suas 26 capitais e o Distrito Federal tem sempre aquela surpresinha guardada do Oiapoque ao Chuí, do Acre ao Sergipe.
Justamente no menor estado brasileiro é que nasceu uma das mais empolgantes bandas dessa ótima safra de jovens com pé nos anos 60 e 70 que ouvimos por aí. Nantes é o fruto de um misto de Brian Wilson e uma magia sonora incrementada nos coros altamente cantáveis e grudentos que criados por Arthur Matos, o vocalista, violeiro e nosso entrevistado de hoje:
Começando, como foi esse papo de a banda iniciar e já estar abrindo para os Mutantes?
A banda nasceu em 2007 de uma idéia minha e do Lelo (baixo). Nós já tinhamos tocado em outra banda, mas não deu certo, ai resolvemos botar pra frente esse novo projeto. Convidamos Ravy (bateria, voz). O Rafael (teclado, voz) veio depois, pois tinhamos outro tecladista antes dele assim como com o Fabrício (guitarra, voz). Na época decidimos não fazer shows enquanto não tivessemos nenhum material gravado. Foi ai que surguiu o EP Tempo, lançado em setembro de 2008. Rolou uma repercussão legal no EP, o que nos levou a tocar no aniversário de uma rádio pública daqui, no mesmo palco que os Mutantes! Esse foi o nosso terceiro show, imagine… Depois disso, fizemos um tour pelo nordeste no meio do ano passado e começamos a trabalhar nas músicas desse disco, Alvorada.
Antes Daysleepers e agora Nantes. Vi em algumas matérias que só o nome mudou. Mas o que em si tornou-se diferente dentro da banda nessa nova fase do quinteto?
A mudança do nome foi uma decisão nossa, por estarmos buscando uma visualização maior no cenário independente com o disco que iremos lançar agora, o Alvorada. Achamos o nome “Daysleepers” muito complicado de se falar e escrever, ai resolvemos mudar para um nome mais simples e fácil. A banda nunca esteve tão entrosada e focada como nesses tempos. Estamos ensaianado bastante para o lançamento do disco e consequentemente alguns shows fora do território sergipano.
“Um Dia na Vida”
Uma banda independente não tem muita pressão na gravação de disco além do seu próprio entusiasmo. Conte como foi a gravação da bolacha.
O processo de gravação do disco foi excelente. Realmente uma experiência tremenda. Passamos 4 meses gravando (nos finais de semana), sem limite de tempo, ou seja, tivemos tempo de experimentar sons, testar vários instrumentos. Começamos pelas baterias, onde tivemos a oportunidade de alcançar o som desejado para essa gravação. O Ravy parecia uma criança gravando de tão feliz. Depois fizemos os baixos, os violões, guitarras, teclados e percussão, todos com a maior folga do mundo, a base de biscoitos de padaria, café, coca-cola e as vezes McDonalds!
Toda a gravação tem seus momentos comédia. O que rolou?
Lembro que numa das sessões do violão eu estava gripado e na música “Talvez Você Possa Cantar”, no inicio antes do primeiro verso, você percebe uma puxada de catarro pelo nariz! (risos) Não deu pra tirar. Nos fones é mais perceptível, porque o microfone do violão pegou! Rolaram altas coisas que a gente acabou deixando, tipo o celular tocando no final da “Marcha” – no finzinho mesmo. Nunca tinhamos percebido, só quando estavamos mixando. E tem o bandolim no fim de “Velha Estante” que foi totalmente inusitado. O Fabricio (guitarra) tava com o bandolim na mão tocando, isso sem gravar nem nada, ai ele pegou uma baqueta e começou a bater nas cordas do bandolim. Eu estava gravando minha voz nela e na hora do acorde de A (lá) deu certo. Ficou bom pra porra e gravamos!
“Velha Estante”
As composições são, aparentemente, muito confecionais. Como nascem as composições e arranjos da banda? Quem chega primeiro, acerta os vocais e tal?
As composições vieram meio que do nada, a maioria delas estava fazendo uma coisa qualquer, e elas apareciam na minha cabeça. Mas o interessante que as idéias só vinham tarde da noite, o que me faz ficar acordado até muito tarde. Eu pego o violão e começo a trabalhar na música, geralmente trabalho primeiro as melodias, depois faço as letras. Os vocais são feitos dessa forma também. Daí, vem uma idéia e já é! Corro pro computador e gravo tudo pra não esquecer. Só aí sento com o pessoal e começamos a discutir os arranjos vocais tentando melhorar algo, assim como os arranjos instrumentais e assim que as canções vão nascendo.
Várias músicas falam de fazer canções, tocar na rádio, lançar cd… Como é a preocupação com o sucesso?
O sucesso é uma questão interessante nesse mundo musical sabe, quem nunca sonhou em fazer sucesso, aparecer na Tv, cantar para muitas pessoas… É natural. No nosso caso, nós sempre pensamos de uma forma mais lúcida, nunca pensamos que iriamos ou iremos estourar, sempre levamos a banda como um trabalho sério, mas sempre focado na nossa satisfação pessoal como músico, como compositor e sempre esperando que as pessoas se identificassem com nossas canções, sejam elas 10 pessoas, ou 1000 pessoas, ou nenhuma, o importante é deixar fluir fazer as coisas do jeito que você achar mais conveniente, quem sabe a gente não tira a sorte grande!
Uma das marcas da banda são os coros ensaiadíssimos dignos da qualidade que bandas como o Fleet Foxes e Beach Boys. Mas para a cena independente brasileira e principalmente a sergipana – feita pelos próprios músicos – deve ser um pouco complicado transpor a qualidade dos arranjos vocais ao volume desigual do microfone dos palcos independentes da vida. Existe um medo de não conseguir mostrar a beleza do álbum ao vivo?
O medo existe sim! Ainda mais por estarmos começando a nossa vida musical ativa a pouco tempo. Ao vivo sempre foi nossa preucupação de fazer soar aquilo que nós gravamos da melhor maneiro possível. No inicio da banda era mais dífícil conseguir esses resultados, hoje em dia devido aos inúmeros ensaios, tanto só vocais, como com a banda inteira, conseguimos fazer no palco o que foi feito no disco, mesmo com todas as dificuldades que as vezes passam por nós, como equipamento de som ruim, ou um mesário (técnico de som) sacana. A idéia é ter um mesário fixo que trabalhe conosco sempre as vezes tocamos com um mesário contratado nos acessorando, mas custa caro. A idéia é conseguir um mais pra frente. Ah! As vezes a gripe atrapalha também! (risos)
Mas contratar um técnico de som próprio e armar turnê independente no Brasil encarece demais, principalmente para uma banda com cinco integrantes. O indie é, as vezes, carrasco de nossos bolsos, com produtores sacanas, e seis pessoas descerem do nordeste pra tocar no Sudeste acaba sendo muito complicado, não?
Com certeza, posso dizer a você que não temos condições nenhuma agora de fazer isso. Estamos preparando uma tour pelo sudeste/sul pra janeiro de 2011, e os custos são caros então requer alguns sacrifícios.
* Alvorada sai dia 19 de Setembro para download gratuito. Mais infos sobre o novo disco muito em breve.