Nos últimos cinco anos, aparecia pela cena musical independente potiguar, a banda Venice Under Water. Tocando, majoritariamente, um rock melódico e com uma forte pegada, quem acompanhava os shows da cidade percebeu que a banda não estava ali de passagem, muito pelo contrário: em todo lugar que iam, chamavam mais e mais atenção do público e dos produtores. Tanto que a banda já tem quatro EPs na bagagem, além de apresentações em festivais e shows por todo Nordeste. No entanto, ainda assim, parecia que eles estavam imersos num mesmo cenário, fitando o mesmo horizonte.
Após mudanças essenciais que moldaram, de certa forma, o som da banda, a Venice Under Water retorna de nome “enxugado” (apenas Venice) e nova formação – e, consequentemente, um novo som. Mostrando uma excelente maturidade, mas sem perder a força e peso adquiridos no começo da carreira, a banda lança seu novo disco, “Friend“, e prova que está pronta para apresentar ao ‘Brasil Independente’ sua “fase fora d’água” – como disse o PopFuzz, selo de lançamento do disco.
Caminhando no campo das bandas de post-hardcore no início dos anos 2000, porém com (muitos) pés em distorções e guitarradas de bandas como Dinosaur Jr. e, principalmente, o “recente” Foo Fighters, ”Friend” é composto por (poucas) oito faixas incendiárias, que enchem o ouvido com um (agradável) barulho de guitarras altas e baterias destruidoras. Assim, o disco inteiro sobrevoa sobre um mar de riffs e solinhos, vocais firmes e bem tonalizados, além das pausas entre uma “porrada” e outra na mesma música, quase como um momento para tomar fôlego e seguir adiante.
Todas as faixas são essencialmente boas, mas a que inicia o disco, “Half Dead“, e a que finaliza, “XL“, poderiam facilmente se encontrar soltas num mar de discos como Wasting Light, Bug e Songs For The Deaf, pegando influências, acordes e sonoridades deles, mas dando aquele o retoque próprio, deixando transparecer a identidade Venice.
Gravado no Estúdio DoSol, mixado e masterizado no Megafone Estúdio e lançado, de forma virtual, através do selo Popfuzz Rec, Friends está disponível para download aqui. Mas também dá para ouvir algumas músicas logo embaixo:
Venice – Half Dead Venice – XL
ago 30th 11
Postador por Jessica Figueiredo em Dicas
Quando quatro amigos, que se conhecem muito bem, se juntam para formar uma banda, o que pode acontecer? Das duas, uma: ou uma grande discórdia os separa de forma irremediável, ou eles se ligam de forma inseparável, criando um bonito laço tanto musical, quanto de amizade.
Com a ByeByeDay, a sorte foi grande. Por já terem participado de bandas passadas e dividirem quase os mesmos interesses musicais, os amigos Rômulo Teixeira (vocais e violão), Daniel Simonian (vocais e guitarra), Caio Simonian (bateria) e Gustavo Loyola (baixo) decidiram se juntar – e montar uma banda.
Em bonita sintonia musical, onde um instrumento parece conversar com o outro, quase como se fosse uma conversa entre os irmãos dos vocais e da bateria com os amigos do baixo e da viola, ByeByeDay estreia neste ano já com um EP de quatro músicas, intitulado ‘Pulse’.
Criando um som que passeia pelo post-hardcore e punk-rock, porém com uma pegada menos agressiva e até romântica, ‘Pulse’ apresenta músicas que não provocam surpresa, mas criam um clima agradável de sábado à noite (em casa ou não), levadas por um bonito vocal que se destaca em guitarras bem soadas e dedilhadas.
Com letras em inglês que apostam no lado amoroso do hardcore, falando de relacionamentos e situações bem parecidas com o cotidiano de cada um, ‘Pulse’ marca uma boa estréia para a banda santista, que tem potencial para se destacar nacionalmente na cena musical independente.
São 4 da manhã. Eu e o Cassius Augusto (baixista do Dorgas) estamos atravessando mais uma madrugada falando mal de outras bandas, relembrando canções de bandas pseudo-cults e descobrindo novas pessoas dispostas a serem o próximo rock star da semana. Tem uns caras que conseguiram juntar todas esses quesitos de nossas conversas musicais em um só som. Em resumo, é uma banda horrível. Mas de tão ruim é que nasceu a beleza da questão. É a melhor pior merda que escutei em anos.
A começar pelo nome: Master Disco Piloto. São uns guris do sul que resolveram se auto-sabotar e fazer um som que emule de tudo um pouco na mais escrota qualidade de arranjo. As faixas de divulgação são de uma gravação ao vivo de ensaio com uns teclados que parecem ser da marca Cassio (daqueles para iniciantes no instrumento), as guitarras tem timbres vazios e distorções vergonhosas que dão a entender terem sido tiradas de um pedal Zoom 505, daqueles que você compra junto com sua primeira guitarra Tonante (que agora se chama Clave) por 200 reais.
E aí que começa a ironia: o grande desafio de criar o melhor som com o que se tem de pior. Quem não sabe, o saudosoGrandaddy começou assim, com instrumentos desse naipe e hoje são considerados uma entidade-mor na música indie mundial. As letras são um caso a parte e refletem esse clima de ‘tosqueira bonita’ que a banda tenta imprimir. Já na primeira estrofe de “Apollo (Muy Bien)” o Jece Valadão é citado e a canção termina, depois de um solo faroeste copiado, com o verso “tá pegando fogo, chama o bombeiro, o índio, o mecânico, o cowboy e o motoqueiro. A noite é uma festa e o diabo é o dj”.
De primeira, demora para entender a piada, a ficha cair. Você tem que passar para a segunda música e prestar atenção na letra de “Loser’s Party” e entender que eles não estão se levando tão a sério. A letra fala literalmente de uma festa loser, cheia de criancinhas e bebidas não-alcoolicas, até que um momento entra um rap bizarro estilo Tico Santa Cruz e uns ‘papapa’ quase chegando num B’52 dos anos 2000. “Você pode apertar as teclas luminosas do meu sintetizador; alterar o espaço tempo desta noite, revolucionar o amor”, letra de “Sintetizador”, que obviamente, tem o tal instrumento tocado de maneira repetitiva durante toda a música, que assim como todas as outras canções, carrega uma veia pop estranhamente gostosa. Algo como o Jota Quest tocando Shoegaze. Isso lembra os primeiros eps do Minus The Bear, banda que fazia questão de por letras e nomes bizarros nas músicas por simples preguiça iniciante.
“Bomba G” chamou me atenção de cara pelos versos que ecoaram milhares de vezes na minha adolescência pelo pessoal do DeFalla: “Eu tenho a força, cavaleiro de Jedi, então vem poposuda vai”. Sim, a “Melô da Popozuda“, música que em 2000 colocou o DeFalla de volta no cenário brasileiro e a Joana Prado, mas conhecida como a Feiticeira, no meu imaginário. Por fim, quando você já estiver cansado da mesma distorção de guitarra em todas as outras canções, “Baita Profissional” parece um hino aos técnicos de som relapsos e/ou curiosos que cuidam da mesa de som dos estúdios, shows e tal – um mal que todo o músico já passou/passará. Não por nada, nessa faixa, o vocal começa com um volume bem mais baixo.
O que o MDP realmente parece querer é apontar os clichês musicais e criticar o pop atual com letras que refletem o atual mau gosto radiofônico que a massa consome. A discussão que eu e Cassius travamos sobre a banda acabou quando encaramos a dúvida de a banda realmente existir ou ser apenas mais uma brincadeira de Gabriel Von Doscht (guitarra, programação e vocal), Gustavo Foster (bateria) e Cintia Loureiro (baixo), que um dia já assinaram com Os Vilsos e hoje, com a adição de Caetano Barreto (guitarra e teclado) formam o Master Disco Piloto.
Quando Luíz Gadelha e Simona Talma se juntaram para formar um projeto de disseminação musical, e formar uma banda, a coisa não tinha como dar errado.
Por serem já dois nomes conhecidos na cena musical da cidade de Natal (RN), a dupla teve a idéia de montar um projeto de áudio e vídeo que priorizasse a divulgação da música independente potiguar. A idéia virou o ‘Projeto Incubadora‘ e, bancado pelo DoSol, já inaugurou os eventos com shows das bandas SeuZé e estreou o álbum ‘Matando o Amor‘ da Talma & Gadelha.
Assim como muitos álbuns geniais na música, o disco ‘Matando o Amor’ não brotou do cimento. A partir de composições cruas e feitas só na voz e no violão de Luíz e Simona, começaram a surgir as primeiras músicas. Mas foi só quando eles praticamente doaram as letras aos competentes instrumentistas Cris Botarelli, Henrique Geladeira e Emily Barreto, que tudo ganhou vida, luz e poesia.
Talma & Gadelha – O Roqueiro e A Hippie
Com muitas melodias que remetem ao blues a lá Cazuza- grande influência da Simona Talma – e faixas que levam os fãs da fase ’Please Please Me‘ dos Beatles relembrarem os tempos de brilhantina e biquini de bolinha, ‘Matando O Amor’ ilustra, na simplicidade de um baixo calmo e no peso de guitarras vigorosas, o verdadeiro significado, em todos os sentidos, do amor.
Seja ele multifacetado, contando histórias e recitando versos, complexos ou incompreendidos, seja ele alegre ou até mesmo misturado ao amargor de um copo de Whisky Blue. É o sentimento refletido tanto nas boas letras (‘Se Fosse Feio’ e ‘Porque Todo Coração É Burro’) quanto no delicioso e versátil instrumental das músicas (‘Enigma’ e ‘Bons Meninos’).
Foi quase como se tivesse predestinado para dar certo: as vozes de Simona e Luíz combinam o mesmo tom, e quando acompanhadas dos vocais dos outros integrantes da banda, tudo se encaixa. E o resultado são bons riffs de guitarra ritmados a uma bateria ritmada, e ainda garantindo refrões cantaroláveis, como em ’Mais Uma Cereja’ e ‘O Roqueiro e A Hippie’.
A última e faixa título do disco fecha o tracklist com a sensação de que se passou por todas as fases do amor. E, é claro, a saudade bate forte logo de cara. Então escuta de novo. ‘E cola em mim…’
Um dia desses, me falaram de uma banda chamada Sararás Livres. Mais que porra de banda vai colocar seu nome de Sararás Livres? Parece que finalmente está rolando no Brasil – ou pelo menos no Rio – um movimento de descomprometimento de imagem e um foco principal em seu som. Em resumo, ao invés de gastar horas e horas sentados em círculos segurando um baseado apenas para encontrar um nome de uma banda que fará as pessoas rotularem seu som antes mesmo de ouvir, passou-se a gastar a erva em inspiração e criação sonora – e em full time.
O Sararás, que mesmo eu não sabendo se eles usam a tal erva ou não, conseguiu usar o fator surpresa de seu nome e, misturando arranjos inspirados com um clima dark, conseguiu fazer canções que fogem do padrão e engrossam o caldo a cena carioca de música alternativa. Como quem não quer nada, lançaram um EP Demo por aí, fizeram pouquíssimos shows e investiram no boca-a-boca que tanto deu resultado com outras bandas amigas. Acredite, tem algo muito bom ali.
As canções seguem uma personalidade própria, composta pela banda e indicada por suas influências mais fortes, como Radiohead (a mais evidente), ecos de Mogwai nas guitarras e grupos underground americanos. A fórmula se baseia em canções retas, com extensas letras criadas em cima de uma melodia doce e acentuada, sentimental e sem refrão, crescendo a cada passagem.
“Por Si Só”, terceira faixa do disco, é a única que destoa desta montagem intrigante musical, trazendo um leve refrão repetido docemente sobre uma densa base de guitarras. Lisérgica seria a definição perfeita para a faixa final, a épica “Se o Futuro Vive” e suas guitarras e barulhos experimentais, além de um solo Gilmordiano sedutor e bem alocado.
“Não aguento mais ficar em casa vendo os carros passarem” abre a suja e raivosa “A Caverna”, abertura do Ep e plena definição da juventude que não se aquieta em casa quer fazer algo acontecer. A canção abre caminho para a melhor do álbum: “A Caminho” tem melodias vocais deliciosamente desenhadas para parecerem eternos refrões com letra quase ininterrupta, viciando na primeira ouvida.
A julgar pelas últimas boas surpresas de nomes estranhos, não deve demorar para aparecer um novo grupo experimental intrigante fazendo o novo som desta década. Essa nova ‘salvação’ poderia ser o Sararás Livres, mas esse papo de ‘cena’ ou ‘salvação do rock’ é anos 2000 demais para quem nem imagina o que será o futuro. Por enquanto Sararás é o presente que deve-se ficar de olho para ver acontecer.