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Entrevista: Tupiniquin de Cor e Canção

Sabe aqueles cantores restritamente nacionais, com poder de mostrar as raízes de um povo, com canções que retratam todo o peso e beleza da nossa cultura? Então, esse cantor, essa nacionalidade toda, ao qual me referi, é encontrada no Jorge Sampaio Tupiniquin. Nascido em São Paulo, 29 anos de idade, ele nos traz sua poesia, sua mágica, sua brincadeira constante em ser místico – algo genuinamente brasileiro, tradicional e ao mesmo tempo moderno.

Suas canções penduram-se, tocam sua alma, parecem simples, porém se elaboram um pouco dentro da gente. Em suas canções existe um pouco de cada coisa, um pouco de cada gênero, de cada ritmo. E isso chama bastante atenção, essa capacidade de misturar e experimentar sons sem passar do ponto. Entre rock e samba entre bossa e a tropicália. Essa é a melhor definição que se pode ter desse novo e talentoso artista, uma experiência que nos puxa para o seu universo, para a sua “estrada pro sol”. É o toque e a poesia que estão em perfeita simetria, é a união e a simplicidade, é o amor cantado em português.


“O Vaso e a Rosa”

Qual a importância de se ter o Tupiniquin no seu nome artístico?

Bacana. Tupiniquin vem de Tupiniquins, por isso com N. É a tribo dos tupiniquins, se colocarem no Google vai ver uma série de fotos bonitas; eu tive a vontade de não ser só eu e sim um codinome aos 21 anos , quando voltei ao Brasil dos EUA, passei um período curto lá, e me senti mais brasileiro ainda; aqui tem muita coisa a melhorar nas cidades, mas, se largamos de vez, daí é que não melhorará nunca mesmo, e tudo vai piorar, assim é com a vida também, né?

Qual é a diferença entre o Tupiniquin que lançou aquele EP em 2007 e o que agora planeja um álbum duplo?

O Tupiniquin de 2007 era sonhador. O de agora é sonhador ao cubo e leva isso pra a música, livre, sem medo de nada, apenas ser feliz com os sons.

Conversando comigo, certa vez, você revelou-me que o clipe oficial do seu novo álbum sairá dentro de 30 dias. Sei que você é um apreciador do mar tanto que no clipe “O Vaso e a Rosa” mostrou uma forma bela de retratação do respeito que você tem. As águas tocam seus pés. O seu novo clipe terá essa admiração pelo mar retratada novamente?

Eu sou do mar, mesmo sem ser de uma cidade litorânea, principalmente o mar noturno. Parece que ali tudo se resume num a força maior, algo que renova. O novo clipe continua com os pés na água, mas, não estou sozinho neste novo filme.

 

Ouvindo as suas músicas é impossível não notar que a sua voz tem umas dissonâncias que lembram bastante o Eddie Vedder. Acredito que essa comparação já pode ter sido feita antes, porém isso é algo que chama bastante a atenção dentro de um apanhado de coisas que caracterizam as suas músicas como diferenciais. Sendo assim, eu gostaria de saber quais são as suas raízes musicais? O que você buscou ou ouviu para acrescentar ao seu som? Quais são suas inspirações musicais e pessoais?

Massa, respeito muito ele… O primeiro cd que ganhei aos 12, foi do “Os Paralamas do Sucesso” antes disso, lembro de me sentir triste ao ouvir “Chega de Saudade” de João/Tom e Vinicius, e de pirar ao ver Jim Morrison… Eu só gosto do que é verdadeiro gosto é disso, de pessoas que me inspiram, pessoas reais, com problemas reais, com sonhos absurdos que a maioria duvida ou nem liga, com dificuldades que não contam pra ninguém, pessoas que se emocionam por ai, que se entregam quando ouvem uma musica, uma dança, essas são as minhas inspirações, a vida como ela é, porém mais sentida, e os que buscam amar, não o amor carnal de duas pessoas somente, mas o amor maior que se constrói com boas pilastras, que temos que lutar pra conseguir, que faz a gente não se perder em si mesmo no meio de um vendaval das dificuldades de qualquer aspecto corriqueiro; me inspiro bastante por minha filha; Gosto de George Harrison, Bob Marley, Zé Ramalho, Elliot Smith, The Doors, Milton Nascimento, Chico Science, Neil Young, Nick Drake, Raul Seixas ; gosto de St Vincent, e viajo num filme, adoro assistir filmes sozinho.

Em março deste ano você lançará seu novo álbum e pelo o que tenho ouvido das canções até agora vejo um trabalho muito rico, muito maduro, e pronto para alcançar certo ponto de destaque na música brasileira. Qual é a sua expectativa sobre o seu novo cd? O que você pretende alcançar com as suas canções? O que você quer trazer pra esse povo?

Obrigado por me ouvir, eu sempre tenho a maior vontade de fazer algo incrível num disco, dar o além de si, o resto tem que ser conseqüência, quero tocar pelo país, esse é um grande sonho, quero ver gente, conhecer pessoas e cantar para elas, falar com elas, trocar, essa troca é magnífica. Meu sonho é ser útil. Há séculos ouço dizerem que: Os “índios” são seres menos evoluídos, porém nunca vi um índio tacar fogo em alguém, já o contrário ocorre sempre, então quem esta’ com a moral mais elevada?

Você lançará um álbum duplo, sendo que existirá um período de tempo entre o lançamento de um e outro. Primeiramente será lançado o “Estrada pro Sol”, que terá 10 faixas e tempo de duração de 55 minutos. O segundo cd terá a mesma pegada do primeiro ou é um trabalho um pouco diferente?

Os álbuns foram ensaiados calmamente, gravados calmamente, mas possuem uma ira de nao concordar com várias coisas da TV. Por exemplo, um se chamará Estrada pro sol, e o segundo Television. Considero álbuns gêmeos, ambos têm a mesma personalidade forte. E continuidade da caminhada rumo a Estrada pro sol que na verdade é apenas a entrada pra dentro de si.

 

Entrevista: Mamelungos

Artistas como Mula Manca & A Fabulosa Figura, Chico Science e Nação Zumbi e Lenine poderiam ser a inspiração de qualquer banda. Mas por um acaso do destino estas e outras influências uniram Weré Lima (percussão, cavaco e voz), Luccas Maia (baixo e voz), Peu Lima (batera e voz), Igor Bruno (violão e voz) e Thiago Hoover (guitarra, programação e voz) a formarem a Mamelungos. Mas a banda não é só isso. Na verdade, fica difícil descrever em uma palavra ou em um só gênero musical o som que os meninos fazem. Para facilitar, basta apertar os plays abaixo e ler a entrevista que segue.

Tudo começou em 2009, quando a banda participou do projeto “Música na Beira do Rio”, no Recife. A partir daí, os Mamelungos começaram a se apresentar em outros palcos da cidade e um ano depois foram ao estúdio para gravar seu primeiro CD homônimo. Processo, inclusive, não convencional. Para conseguir trazer o máximo possível o som dos shows, eles decidiram gravar captando todos os instrumentos ao mesmo tempo e todas as dez músicas no mesmo dia. Ainda em 2009, a banda foi chamada pela rádio Oi FM para participar do Projeto Oi Novo Som.

A gente percebe muitas influências no som de vocês, desde o frevo até o samba passando pelo reggae. Como é que vocês definiriam o Mamelungos?
Peu Lima: Nosso som passa justamente pela influência de cada um. Acho que ele se caracteriza pela pluralidade, pela diversidade. E com tantas opções, é mais prazeroso trabalhar.

Como se deu a escolha do nome da banda?  
Weré Lima: Foi um processo muito difícil, mas a escolha se deu a partir da ideia de inventar um nome próprio exclusivo. Assim, após muitas buscas, escolhemos algumas palavras que traduziam um pouco da nossa cultura e musicalidade. Chegamos às palavras malungo, mamulengo (fantoche típico nordestino), mameluco. Todas têm um significado único, e foi assim que formamos o nome Mamelungos.

Que bandas vocês têm mais ouvido ultimamente?
Weré Lima: Ultimamente as musicas novas que mais nos chamam atenção são as de Caetano Veloso, Lula Queiroga, Lenine, Siba, Macelo Jeneci, Criolo, José González e outros.

Vocês começaram tocando no Capibar e, em pouco tempo, chegaram a um estúdio de gravação, de onde saiu o primeiro álbum. Como foi todo esse processo?
Weré Lima: Começamos fazendo nosso próprio evento (Musica na Beira do Rio) com o intuito de colocar a banda para tocar, pois na época a cena autoral do Recife era uma porta aberta apenas para grupos mais experientes e enfim, nós não podíamos depender do mercado para matar a sede de tocar. Com o tempo, vimos que estávamos agradando o público e lotando as casas de show com uma turma adolescente e jovens que estavam antenados na nova cultura musical pernambucana e dando o maior apoio. Através do boca a boca dessa galera começamos a tocar em alguns eventos culturais, como a Fliporto (Feira Literária de Pernambuco) e rolou uma grande aceitação das pessoas que ainda não conheciam a banda. Vimos assim a necessidade de registrar nossas músicas para divulgação e conseguir participar de outros eventos. Juntamos toda a grana dos eventos e encontramos no Estúdio Carranca (Recife), um parceiro para registrar nossas canções. A gente conseguiu desenvolver o conceito que queríamos, gravando todos os instrumentos juntos na mesma execução, como se tivéssemos tocando ao vivo. Assim, a gente gravou em apenas um dia as 10 músicas do nosso 1º álbum, Mamelungos.

Podemos prever um segundo álbum à vista?
Weré Lima: Estamos trabalhando para isso da mesma forma que fizemos no nosso primeiro. Produzindo as músicas em estúdio e experimentando-as em show. É como se a gente precisasse desse termômetro do público para firmar nossos passos. No momento, durante os shows, tocamos 4 músicas novas (Deixe de Gostar, Oração, Apnéia e Varanda) e apresentamos para o grande público com vídeos na web. Ainda em processo de criação e produção em estúdio, estamos trabalhando com as músicas Gira Só e Café.  Pelo visto, ainda esse ano teremos material suficiente para outro álbum. Mas estamos acreditando que ainda temos muito trabalho pela frente com o nosso primeiro trabalho.


“Pedaço”

Pernambuco e o carnaval do Recife – por sinal, um dos melhores do mundo- estão muito presentes, mesmo de maneira implícita, na música de vocês. A recepção do público não pernambucano é muito diferente?
Weré Lima: Apesar de não ter saído ainda do Estado de Pernambuco, temos alguns seguidores nas redes sociais de outros estados e é muito positivo o que eles falam. Mas na verdade não sabemos ainda, vamos curtir essa experiência em março, quando chegarmos em São Paulo.

Como foi tocar na prévia carnavalesca do Guaiamum Treloso, junto a artistas como Nando Reis e Otto, e no Abril Pro Rock, no ano passado?
Luccas Maia : Pra nós foi um privilégio. Foi em fevereiro de 2011, tínhamos acabado de completar 2 anos de banda em novembro de 2010. Tocar com grandes nomes da música, que influenciam nossa música desde sempre, foi um presente. O Guaiamum é uma das maiores prévias, que frequentamos ao longo dos carnavais, no quintal da nossa casa, e de repente sermos convidados pra participar como atração foi um dos melhores resultados do nosso trabalho no ano de 2011.

Infelizmente, a grande maioria dos músicos que querem ter uma repercussão nacional maior acabam se mudando para o Rio ou São Paulo. Vocês sentem dificuldade por permanecer no Recife?
Weré Lima: Recife é um berço e é muito bom para nosso crescimento musical e profissional. Ter o apoio e o respeito das pessoas que moram aqui é muito importante. Mas como todo mundo sabe que o grande centro da produção fonográfica no Brasil se concentra nesses polos Rio e São Paulo, sentimos que agora estamos preparados para ganhar o mundo e mostrar nosso trabalho com propriedade.

Quais os planos futuros em questão de shows?
Luccas Maia: Tentamos sempre manter o nosso ritmo de shows, pra dar continuidade a nosso trabalho em estúdio, acrescentando músicas novas, estruturas novas, sempre buscando deixar o trabalho mais amarrado, mais profissional. Já estamos com passagem comprada pra SP em março desse ano e pretendemos começar a ampliar nosso circuito, levar nosso show pra o Brasil todo. A banda acredita que é preciso mostrar o trabalho para o máximo de pessoas possíveis, através dos nossos shows, da nossa música ao vivo, aos vivos.

Phillip Long Anuncia EP; Veja Todos os Detalhes em Nossa Entrevista

Representante da nova e crescente safra de artistas folk do Brasil, Phillip Long já está com o sucessor do elogiadíssimo álbum Man on a Tightrope (2011) agendado para início de Março. Trata-se do EP Caiçara, que terá 4 faixas e produção de Eduardo Kusdra (mesmo produtor do primeiro álbum). “Eu estava pensando em lançar um disco, mas eu tenho trabalhado muito nos arranjos e decidi tomar um pouco mais de tempo para o lança-lo. Resolvi produzir esse EP para mostrar que estou vivo”, explica Phillip Long em entrevista exclusiva para o RockinPress.

“São canções que eu já havia escrito há algum tempo, em geral B-sides. São arranjadas com maior presença de violões e gaitas, e letras distantes do universo homem/mulher/amores. São de conteúdo mais pesado”, completa. Segundo o músico, as melodias e letras estão mais maduras, além de frisar que só deverá haver versão digital do material.


“How Deep Does It Go” ao vivo em 2011

As quatro faixas que estarão no EP são: “How Deep Does It Go”, “Nobody’s Happy”, “Sometimes You Win Sometimes You Lose” e “Caiçara”. Apesar do nome do álbum e da faixa serem em português, esta não será a primeira vez que ouviremos uma música de Phillip em sua língua pátria: “A escolha do nome do disco não tem nada conceitual. É uma palavra que sempre gostei, do significado e da sonoridade”, explica.

Phillip Long também é um dos participantes da coletânea Re-Trato, organizada pela Musicoteca em homenagem aos 15 anos do Los Hermanos. Trinta artistas do país foram escolhidos a dedo para reescrever uma música da banda carioca e Phillip lançará sua própria interpretação de “Sentimental” – canção presente no álbum Bloco do Eu Sozinho, de 2001. “Eu realmente modifiquei a música, mas respeitei a linha melódica. Acho que fiz algo bacana com ela. Ficou Folk mas as pessoas irão se surpreender com a diferença”, encerra o jovem músico.

Entrevista: As Nuvens de Rapha Moraes

foto Rodrigo Torrezan – Arte Juliano Domingues

O interessante de uma boa conversa de bar é a liberdade e a sinceridade que as palavras são ditas. É quase ingênuo e inocente a forma que muitos artistas se apresentam em frente a um jornalista numa mesa de bar. Geralmente, este encontro só acontece na base da confiança, e é exatamente o momento onde o jornalista deixa passar as melhores pautas, fofocas inéditas e as grandes matérias possíveis. Isto pode se tornar ainda mais complicado se a pessoa que está do outro lado da mesa é o falador Rapha Moraes, líder da banda curitibana Nuvens.

Com cinco anos de estrada e o recém lançado segundo disco, Fome de Vida, a Nuvens vem pairando por fones de ouvidos espertos e sobrevoando pessoas que gostam de um conteúdo inteligente em músicas que, em maioria, soam como um pop-alternativo gostoso e bem arranjado. Esta entrevista não foi criada para ser o que é e foi retirada do primeiro contato entre um curioso questionador com um músico animado com sua recente empreitada. Poucas edições, perguntas e respostas 100% improvisadas do momento e bastante sinceridade. Este é Rapha Moraes, da Nuvens.

O nome Nuvens reflete em quê no som da banda?
Acho que a liberdade… de não estarmos presos a um rótulo ou objetivo fechado.
Está ligado a nos permitirmos mudar, assim como elas, de acordo com o vento do momento, afinal, a arte não tem sentido se não é aquela que representa o momento que o artista está vivendo, né? Tem que ser pra valer, antes de tudo, pro artista. Porque grana, essas coisas, pintam ou não, agora o tesão e o prazer de fazer é fundamental

E isto está diretamente ligado ao nome do álbum, Fome de Vida?
Está. Por que o álbum fala desse segundo, desse instante que pode ser eternizado. Como diz a primeira frase da música “Entre o Segundo e a Eternidade”: ‘Hoje serei eternamente hoje, serei eternamente eu’. É um instante que pode valer uma vida.
E num mundo em que a gente sempre se preocupa com o olhar externo, o que dificulta muito, seja no dia a dia ou na arte assumir a sua natureza do momento e tirar o melhor dela passa a ser um prazer e um valorizar a existência enorme, porque “Nem tudo que é caos é mal nem o que é errado é ruim”.


Clipe de “A Felicidade Mora em uma Encruzilhada”

Como compositor as músicas estão diretamente ligadas ao seu pensamento e sua vida atual. Fome de Tudo seria então, um diário seu com trilha sonora?
Começou assim, na verdade: eu compus umas 3 músicas que retratavam muito o meu momento e eu percebi que elas tinham algum em comum que unia elas que é essa “Fome de Vida”, essa entrega à vida, ao que não temos controle e que dá beleza as coisas. Aí paramos, juntos, a banda toda pra definir o conceito do álbum e que caminho seguir. Algumas canções continuaram surgindo espontaneamente e outras surgiram da bagagem de pesquisa. Li 3 livros na época que deram conteúdo pra várias das músicas,
que são “O poder do mito”, de Joseph Campbell, “A alma Imoral”, de Nilton Bonder, e “O lobo da estepe”, de Herman Hesse. São livros que tem muita sintonia. Falam, de certa forma, dessa tensão entre alma e corpo, e que é através dela que a vida se dá.
A idéia de que não somos só o lobo ou o homem, mas que somos muito mais que isso é nos permitir ser sem medo, viver e não sobreviver. Tem uma idéia de um livro – que agora não lembro qual é – que diz mais ou menos assim: “um coração trancafiado é como um homem que faz uma viagem de navio pelo mundo inteiro com todas as suas belezas, mas trancado no porão, sem ver nada”. Acho que o disco é um pouco disso… dessa busca pra sair do porão, mas sem medo de assumir o que somos nos momentos em que vivemos.

Incomoda quando alguém rotula de pop?
Não, porque não temos problemas com o pop. Tem aquele pop descartável baseado nas fórmulas básicas sem preocupações estéticas ou de letra e tem o pop que nasce independente do resultado comercial mas que é pop por natureza, na canção, melodia. Tem o lado bom que chega nas pessoas e acho que nós nos encontramos num caminho do meio aí. Tem bastante pop no nosso som, mas ao mesmo tempo não dá pra dizer que é um som óbvio. É super reflexivo e representa nosso momento. Quem sabe num 3º disco, podemos ver uma evolução desse caminho mais pro rock? Ou algo bem diferente? Quem sabe é a vida e o tempo.

Mas vocês acabaram de lançar esse disco, pensar em outro já sem trabalhar 100% nesse é meio estranho…
Sim, mas nem pensamos em outro.Só citei a idéia de dizer dos momentos mesmo que esse disco é um retrato fiel do momento, é ele que vivemos agora e será durante um bom tempo. Eu acabo me alongando demais com assuntos referentes ao disco. É sempre muito intenso pois as músicas representaram muito meu momento, mudanças, transformações, idéias novas, riscos. Paixões, etc. Foi uma entrega grande nas canções. E ah, tem muito de rock nele também! Muitos riffs, solos, momentos instrumentais que lembram o rock progressivo e foi algo que a gente se permitiu: músicas longas.

Ao que posso ver, pela sua empolgação, Fome de Vida é seu filho. O xodó que fica no meio da prateleira, em cima da televisão…
É… mais ou menos. A gente sempre acha que dá pra fazer melhor. Nesse instante não consigo ouvir muito ele, mas a gente tirou o nosso melhor e eu acredito muito na proposta, na idéia. Estamos felizes como banda. Fizemos exatamente o que queríamos, junto com o Alvaro Alencar que produziu comigo o disco. Mas é aquela velha e conhecida história: você acaba de fazer um disco e com isso vem idéias novas, coisas que faria assim ou assado… porque é um trampo que modifica muito o ser humano ali também. Então a gente nunca é o mesmo que aquele que começou o processo do disco.
Curiosidade: Peguei uma semana de férias e estava na praia. Botaram o disco e eu sem saber ouvi e curti bastante! Depois de um tempo sem ouvir… esses momentos são bons. É bom estar feliz com um trabalho concluído. E principalmente, a banda estar feliz. Foi um processo coletivo muito legal, que inclui lidar com as diferenças e convergências. Crescimento humano e artístico enormes.

 Foto por Marcelo Elias. Agência de notícia Gazeta do Povo

Alias, a banda já tá no segundo disco e já tem uma certa estrada. Essa grande exposição da cena curitibana e todas as novidades que tem aparecido nela ajudam/atrapalham em que a vida da Nuvens?
Acho que só ajudam. Curitiba está num bom momento. Muita gente talentosa discutindo arte e cultura, lutando pelos direitos, criando e formando público. É bom fazer parte disso. Temos muitos amigos aqui e é bom ser fã de um amigo. Além disso, quando se tem uma troca de idéias, é construtivo, sempre muito bom.

Mas você acha que o espaço para shows, as casa, os shows covers e as baladas tem permitido as bandas trabalharem e formarem seu público como deveria formar?
Eu acho que em todo lugar essa é uma das grandes lutas. O cover nunca vai morrer, assim como as casas desse segmento. Eu, falando de Curitiba, tenho uma visão otimista. Vejo que tudo vem acontecendo, desde internet, qualidade de estrutura de algumas casas, gente a fim de fazer… isso tudo tem ajudado e eu vejo o público daqui evoluindo junto com as bandas. É toda uma história né? Desde Blindagem e tantos outros artistas que tem sua parte pra chegar nesse momento, mas eu vejo sim um público interessado. O ponto é que é tudo muito segmentado. Quando eu falo isso, falo de um segmento, não da grande massa. Essa, pra chegar nela são outros quinhentos. Mas falando da Nuvens, que tenho conhecimento de causa, o nosso público tem crescido e se ampliado constantemente. Gente nova, interessada e super a fim. A internet é uma grande aliada nesse processo. Lançamos o disco no Paiol. Lotamos 2 sessões de público de verdade. Gente que conheceu a banda e foi atrás. Pra mim, é claro que é uma evolução da banda,. mas também muito do público – que está mudando rapidamente.

Você acha que a Nuvens não é mais banda para tocar, por exemplo, no Wonka ou no Peppers, por exemplo?
Não vejo assim, mesmo. Acho que cada caso é um caso. Estamos conversando sempre com a galera e abertos as coisas. Não vejo esses bares que você citou como menores do que outros, pelo contrário. São fundamentais pra música da cidade. Lá que muitas bandas tocam, inclusive a gente. São eles que sustentam todo o esquema da cidade, como um todo. Tem que juntar essas casas, teatros e shows na rua.

As coisas andam prolíficas demais por Curitiba. Você poderia apontar agora qual será a próxima banda curitibana que as pessoas devem ficar de olho?
Posso, apesar de ser redundante pro RockinPress, mas pra mim a banda curitibana que mais escuto e curto no momento é o Humanish. Um puta disco e um puta show.

Entrevista: Medulla

As vezes pode parecer uma seita. Talvez um grupo de fiéis urrando suas verdades para um público inflamado que levanta as mãos aos céus como quem pedisse a benção que aquelas músicas parecem distribuir. Um show do Medulla é algo realmente diferente, uma experiência incomum feita para se sentir. Aqueles caras sabem dizer cada palavra e disferir cada golpe na bateria com o sentimento certo.

Não à toa, a banda tem algo a dizer, uma opinião para o futuro, e se baseia na verdade para seguir seus pensamentos. Eles fazem parte de um seleto e extremamente reduzido grupo de músicos que não entraram nesse mundo para criar músicas para menininhas e tocar acordes simplesmente para fazer dançar. A questão aqui é outra, mais profunda e interessante. O próprio  Edu K, homem que desde sua época áurea na frente do DeFalla era tratado como alguém muito a frente do seu tempo, escreveu certa vez que o Medulla “não é a mais nova salvação do rock. Eles vieram para destruir e construir tudo de novo em cima dos escombros.”

Mais quem quer ouvir e enxergar isso? Quem quer entender o que o Medulla é, quer e será? Aproveitamos o lançamento do novo clipe da banda na programação da MTV para arrancar os planos, opiniões e mensagem que o Medulla tem a dizer. Confira abaixo o clipe de “Movimento Barraco”, o novo integrante, o novo compacto e todas as novidades da banda carioca Medulla em nossa entrevista.

O que é o Movimento Barraco?

Essa música foi escrita pelo Dudu, iluminado numa conversa com o compositor Ludi Um…eles imaginavam um despertar do povo diante de tantos absurdos…a música expõe personagens comuns desse caos.

As pessoas que gostam e entendem a banda se sentem parte do que vivemos, e a música acabou dando voz a essa relação.

O clipe seria uma retrospectiva do que a banda já passou até hoje?

há um tempo nós mirávamos um vídeo clipe onde ficasse aparente a vibração dos shows e os encontros que fizemos durante esse período de compactos. Esse vídeo é uma homenagem aos nossos “camaradas”.

O que são os símbolos e números que aparecem no decorrer do vídeo? Significam algo?

Os símbolos se repetem de diversas formas no clipe, mas o principal deles é o Medulla.

No mais, considerem como um termômetro do clipe. Este termômetro pode indicar um momento precisamente, ou indicar o que não está à vista dos olhos e até das lentes. (Cironak)

Agora a banda tem 7 integrantes. Como se dará a entrada de Bruno Cinorak na banda?

A entrada do Cironak no Medulla tem sido muito honesta e natural. Está com a gente desde os 16 anos de idade, veio de SP pro RJ com a gente. Hoje com 19 de idade, vem conquistando o merecimento e cada vez mais espaço dentro do Medulla; com suas ideias, seu envolvimento e sua busca por sabedoria e informação. esses 4 requisitos são necessários para ingressar na nossa sociedade, que é muito fraternal e acolhedora, porém bastante exigente. E o Bruno cada dia mais nos surpreende, as vezes até vai além demais o que na pior das hipóteses acaba sendo muito inspirador para todo o trabalho.

Playbotton (foto por AP Facchini)

Playbutton. Vi que bandas passaram a usar como lançamento e vocês vão começar a trabalhar com essa nova tecnologia. O que é e porque o escolheram?

O Playbutton é uma mídia nova-iorquina que consiste num botton com a arte da banda, que tem um player de mp3 de conteúdo inalterável (afinal é um disco não um pen drive). No exterior artistas como Belle and Sebastian, TheXX, Extreme e ATOM já usam o Playbutton como mídia expressiva, agora nós do Medulla, convidados pela SeloFan, estamos lançando o primeiro Playbutton no Brasil.

Com esse lançamento entramos na segunda fase do Capital Erótico. Ele contém as 4 tracks do compacto mais uma faixa bônus de “I was a monster”.

Tínhamos uma gravação antiga, de quando ainda estávamos fazendo a música…Era uma gravação muito ruim, feita com microfone de karaokê…só tem bumbo, caixa e contra-tempo…Ficou nas mãos do Cironak o dever de piorar as coisas…a música parece derreter os falantes…………………the death of the Terminator.

O caminho que traçamos na ideologia dos compactos, nos fez buscar novas iniciativas no mercado independente no mundo todo. Esse mercado tem mostrado soluções para grandes empresas, não só da música.

Optamos pelo PlayButton por trazer um relacionamento com o fã, sendo um acessório e um produto de música inalterável e por meio disso acabamos com a oportunidade de sermos os pioneiros dessa midia no Brasil em nossas fucking hands.

Quem produz e quando será lançado o quarto compacto? Já tem nome?

Vamos fazer o último compacto dessa série (ainda sem nome) com o Patrick Laplan. Ele é um produtor muito talentoso, toca muitos instrumentos e desde o nosso primeiro encontro, como baixista no álbum “O Fim da Trégua”, temos nos alimentado de uma troca muito rica de influências e visões. Depois de algumas noites regadas a cafeína chegamos ao repertório e já estamos trabalhando nas prés. Pra quem quiser conhecer melhor o trabalho do Patrick nós aconselhamos uma visita longa ao bandpage do seu projeto “Eskimo

O próximo compacto já está em fase de pré-produção e virá para encerrar um ciclo. Explique melhor o que ele vem para encerrar.

Estamos numa campanha de 4 Compactos que antecedem o 2º álbum da banda. Durante essa campanha lançamos todos os compactos em mídias diferentes, sendo

- CMPCT I 2008 – AKIRA (internet);
- CMPCT II 2009 – Talking Machine (fita cassete);
- CMPCT III 2010 – Capital Erótico (venda vitual – pleimo.com/medulla e playbutton);
- CMPCT IV 2011 – Ainda sem nome.

É a campanha de busca por outros mundos no conceito da exposição de tudo que nós vemos, vimemos, cremos e sentimos em forma de arte.


Medulla Ao Vivo

Qual é a missão/filosofia/mensagem musical que a Medulla tomou para si?

Somos um corpo, ficamos os últimos 5 anos motivando nossos fãs a entenderem nosso comprometimento artístico. As gerações foram parando aos poucos de pensar, resistir e propor…o futuro era agora, já não temos tempo para planejar..uns participam, outros parasitam…escolhemos nosso lado.

O que é essencial em uma banda para se fazer uma música com sentimento?

Sentir man. A gente vive um momento de crise mental na geração 2.000. A facilidade para produzir “arte” hoje em dia causa um estopim na “cultura da celebridade”. Fica fácil entender o que precisa ser feito para ter uma banda de sucesso. Existe um desespero muito grande em recuperar o glamour do rock star, mas não a mentalidade dos grandes nomes da música. É preciso se desprender da carne e fazer música sem medo.

A grosso modo falando: olhe para os lados e reflita; não é sobre o que você vê, mas sobre o que você percebe dentro do que você vê.

Tenho visto algumas pessoas reclamando da cena carioca em entrevistas ou em conversas informais. O que é a cena carioca atualmente?

Existe hoje um ar de vamos voltar aos velhos tempos…O Rio vive um momento de muita movimentação política por conta da Copa e Olimpíadas. Novas casas estão abrindo, como o StudioRj…onde o Medulla toca com o Eskimo no dia 12/outubro…Vemos artistas independentes cariocas concorrerem a prêmios na Multishow e MTV e ouvimos na rádio um entusiasmo com os artistas locais.

Fomos convidados pelo Grupo Sal, para participar da nova temporada do Experimente da Multishow…é ótimo poder ser uma das bandas do Rio…junto com B Negão, Thalma de Freitas, Tono entre outros.

Fama ou liberdade? O independente é realmente independente ou a dependência é que gera a insegurança?

Hoje o mercado independente e o “grande mercado” mídias se misturam pelo envolvimento dos artistas. Os artistas apresentaram pro mercado novas formas de gerar grana e interesse do público…e fica bem visível a corrida que as gravadoras, grandes festivais, rádios, canais de tv, etc…estão para fazer parte também desse, até então, “sistema paralelo”.

Esse papo de fama sem liberdade é um conceito americano que colocaram na sua cabeça.

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